A Associação de Futebolistas de Espanha dizia que não, a Liga de Futebol Profissional de Espanha ia pelo sim. E mostrava-se capaz de entrar mesmo em apostas, tamanha era a confiança na concretização desse objetivo. “Conheço bem Espanha, conheço bem o mundo do desporto, sei que é um setor muito avesso ao progresso mas outras coisas que fizemos também nos custaram e lá fomos conseguindo. Se apostava um dólar nisso? Apostava 10.000 dólares, vai mesmo realizar-se”, atirava Javier Tebas, líder do órgão, em entrevista à CNN em outubro. Para seu bem, essa crença não se traduziu numa real aposta; caso contrário, estaria hoje com menos 10.000 dólares. Tudo porque o Girona-Barcelona foi mesmo jogado este domingo no Montilivi.

Este tinha sido o encontro escolhido pela Liga espanhola para ser realizado no estrangeiro, tendo como ideia inicial os Estados Unidos (Miami). Nunca foi propriamente uma decisão unânime mas, no final, três das partes envolvidas tinham chegado a um acordo: Liga, Girona e Barcelona aceitavam participar nessa primeira experiência fora de portas em jogos do Campeonato. No entanto, o principal veto acabou por chegar da FIFA, que defendeu que “os jogos oficiais devem ser jogados no território da associação membro respetiva”. No caso do lateral Nelson Semedo, uma ida aos States tinha representado o regresso aos primeiros tempos com a camisola dos blaugrana. Pelas melhores mas também pelas piores recordações.

Se recuarmos ao verão de 2017, quando o internacional português tinha conseguido ganhar Campeonato, Taça de Portugal e Supertaça pelo Benfica, o Barça procurava um lateral direito que pudesse finalmente fazer esquecer Dani Alves, que entretanto saíra para a Juventus. Nessa temporada, as apostas em Sergi Roberto e Aleix Vidal tinham deixado os responsáveis à procura de algo mais e, depois da recusa do Arsenal em vender Bellerín, o plano Nelson Semedo avançou – por 30,5 milhões de euros, mais cinco por objetivos. O negócio foi confirmado a meio de julho e, duas semanas depois, o antigo jogador dos encarnados estava na digressão dos catalães nos Estados Unidos. Era o local certo. Mas numa manhã, estava no lugar errado à hora errada.

A tensão entre Neymar e o clube começava a ser complicada de disfarçar, numa altura em que o PSG tinha conseguido convencer o brasileiro a mudar-se para França com o maior ordenado do futebol mundial e naquela que poderia ser também (como acabaria por ser) a maior transferência do futebol mundial. Num treino orientado por Ernesto Valverde, que chegara também há pouco tempo a um conjunto por onde passara antes como jogador, o avançado pegou-se com o português num momento que ganhou outro mediatismo por ter sido apanhado pelas câmaras televisivas, não demorando a circular um pouco por todo o lado. Neymar não tinha nada contra Nelson Semedo mas acabou por descarregar nele todas as suas frustrações.

Entre algumas lesões pelo meio, o lateral nunca se conseguiu estabelecer como um indiscutível no onze inicial, alternando em vários momentos a titularidade com Sergi Roberto e Aleix Vidal. Acabaria esse época de estreia com um total de 36 jogos oficiais realizados e os primeiros dois títulos na Catalunha – Campeonato e Taça do Rei. “Desde o início que os jogadores, o staff e os adeptos me têm ajudado muito na minha adaptação. Creio que este ano será melhor que o anterior. Estou a adaptar-me bem à defesa. O staff e os meus companheiros deram-me indicações de como melhorar em todos os aspetos e não só no capítulo defensivo, mas também em melhorar o meu jogo em geral”, contou em agosto. Já na presente temporada, começou com um triunfo na Supertaça frente ao Sevilha, somando até hoje 22 encontros. 36 + 22 = 58. 58 + 1 = 59. E à 59.ª partida pelo Barça conseguiu finalmente festejar o seu primeiro golo, num lance onde acreditou que poderia aproveitar um corte mais defeituoso na área do Girona para, num remate colocado e de pé esquerdo, inaugurar o marcador logo aos nove minutos.

“Até este domingo, 27 de janeiro, nunca tinha celebrado um golo como blaugrana. Nelson, que tem demonstrado entender o seu trabalho a nível defensivo, vai unindo-se a pouco e pouco cada vez mais com as tarefas ofensivas, não só com assistências, mas também com golos”, escreveu o Sport sobre 15.º jogador a marcar pelos catalães na presente temporada. “Semedo consegue o seu primeiro golo com a camisola do Barcelona depois de 59 partidas, desde a sua chegada ao clube no verão de 2017 procedente do Benfica. O lateral português, que na passada quarta-feira no jogo da Taça com o Sevilha foi colocado na lateral esquerda, voltou a ser titular mas recuperando a sua posição natural no flanco direito”, destacou o Mundo Deportivo.

Nelson Semedo inaugurou o marcador com o Girona, com um remate de pé esquerdo dentro da área (David Ramos/Getty Images)

Mas também o Benfica recebeu esta tarde uma boa notícia, como conta a mesma publicação: de acordo com o que tinha ficado acordado aquando da venda de Nelson Semedo ao Barcelona, haveria direito ao pagamento de mais cinco milhões de euros quando o lateral cumprisse pelo menos 45 minutos em 50 jogos oficiais – e era este dado do tempo de utilização que faltava conhecer e que foi cumprido frente ao Girona, de acordo com o Mundo Deportivo.

Pela primeira vez em 21 jornadas, o Girona chegava ao intervalo em desvantagem (mesmo que pela margem mínima) e o cenário ficou ainda pior quando o central Bernardo Espinosa viu o segundo amarelo logo aos 51′, deixando os visitados reduzidos a dez. Aos 69′, Lionel Messi, numa jogada iniciada por Luis Suárez e que teve assistência de Jordi Alba, fez um chapéu a Bono e apontou o 2-0 que praticamente sentenciou o encontro e o reforço da liderança com 49 pontos, mais cinco do que o Atl. Madrid.