A ACAP (Associação do Comércio Automóvel de Portugal) recebeu já esta manhã vários contactos de concessionários a dar conta da preocupação de clientes com o “anúncio” feito pelo ministro do Ambiente sobre a perda de valor comercial dos carros a gasóleo. Foi a reação às declarações de João Matos Fernandes sobre a perda de valor comercial dos carros a diesel. Em declarações ao Observador, o secretário-geral da ACAP, Hélder Pedro, adiantou que vários concessionários foram contactados pelos clientes preocupados e apreensivos com a previsão de desvalorização dos modelos e diesel que estavam a adquirir.

Em comunicado, a ACAP esclarece que estas declarações “podem resultar de um desejo do Sr. Ministro, mas não têm qualquer correspondência com a realidade. Portugal está integrado na União Europeia e não existe qualquer regulamentação que aponte no sentido das declarações do Sr. Ministro”. E lamenta que o “Sr. Ministro não tenha ponderado o impacto das suas palavras na atividade das empresas do sector automóvel”.

Ao proferir esta declaração, deveria ter tido em consideração que a indústria automóvel é a principal indústria exportadora em Portugal e que o sector automóvel é o principal contribuinte líquido do Estado, ao ser responsável por mais de vinte cinco por cento do total das receitas fiscais”.

Em entrevista ao Jornal de Negócios e Antena 1, João Matos Fernandes afirmou que quem comprar um carro a gasóleo é muito provável que daqui a quatro ou cinco anos não tenha um valor na sua troca”. O ministro do Ambiente e Transição Energética foi questionado sobre a lenta progressão nas vendas de carros elétricos e sobre se seria necessário dar mais incentivos à sua aquisição. Matos Fernandes considerou ainda que na próxima década não fará sentido comprar um carro a gasóleo porque o preço será já muito próximo dos veículos elétricos, isto se os veículos forem carregados em casa.

Em comunicado, a ACAP conclui que, “face às declarações do  Sr. Ministro do Ambiente, a ACAP confirma que não está prevista qualquer alteração de legislação, a nível europeu, que implique uma desvalorização dos veículos a diesel nos próximos anos.”

A associação sublinha que a “indústria automóvel está, fortemente, empenhada na redução de emissões dos veículos. A prova deste compromisso, é de que 40% dos novos modelos anunciados para 2021, já terão a opção da motorização elétrica.” E avisa que esta transição irá ser feita de forma gradual.

Segundo dados da ACAP, Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior percentagem de vendas de veículos elétricos, no total do mercado, tendo havido um crescimento de 148%. Todavia, esta percentagem ainda é de 1,8% do total do mercado”. No entanto, e considerando que o parque automóvel de ligeiros de passageiros tem uma idade média de 12,6 anos e que há mais de 700 mil carros a circular que têm mais de 20 anos, a ACAP lamenta que o “Ministério do Ambiente tenha sucessivamente rejeitado a implementação de um programa de incentivo ao abate de veículos, para permitir renovar o nosso parque automóvel”.

A União Europeia, incluindo Portugal, definiram 2050 como o ano das emissões zero, mas para cumprir essa ambição, a venda de carros a combustíveis fósseis terá que ser interdita vários anos antes. Segundo um estudo da federação europeia de transportes e ambiente, o fim da comercialização dos automóveis a gasóleo e gasolina terá de acontecer no início da década de 30 para cumprir a descabornização total até 2050.

SIVA critica declarações “imprudentes” do ministro

“Quando se fala do futuro da tecnologia automóvel, é importante perceber que existem vários momentos no processo de transição dos atuais motores de combustão para soluções alternativas de mobilidade. Neste momento e nos próximos anos, os motores diesel são absolutamente necessários se pretendermos reduzir as emissões poluentes (como prevê a legislação europeia) porque emitem menos Co2 do que os motores a gasolina, o que é uma verdade por vezes esquecida”. Esta é a reação da SIVA, que importa marcas como a Volkswagen e a Audi, e foi a primeira marca a partilhar com o Observador uma reação ao comentário do ministro.

Ricardo Tomaz, diretor de relações externas da marca, argumenta que “de uma geração para outra, os motores diesel têm melhorado consideravelmente a sua performance em termos de emissões. Aliás os novos testes de emissões que entraram em vigor este ano no espaço europeu (norma WLTP), mais rigorosos, vão também no sentido da evolução da tecnologia diesel”.

O ‘Diesel bom’ continuará a substituir o ‘Diesel mau’, por muitos anos, e os poderes públicos podem acelerar esse efeito através de programas de incentivo ao abate, afirma Ricardo Tomaz.

O responsável conclui dizendo que, num mercado fortemente dieselizado como o português, onde mais de metade das vendas de automóveis de passageiros são diesel, “julgamos imprudentes quaisquer projeções que possam criar alarme injustificado quer nos possuidores de veículos a gasóleo, que nos agentes económicos do setor”.