A ANECRA, a maior associação de comerciantes e reparadores de automóveis em Portugal, critica as declarações do ministro do Ambiente e Transição Energética por refletirem uma “obsessão pelo veículo elétrico e a diabolização do diesel”, o que “condiciona uma análise mais profunda sobre o futuro do automóvel e o correspondente impacto ambiental”. A associação defende que o setor automóvel e esta indústria “sempre souberam encontrar soluções” e ir ao encontro da exigência do poder político e dos consumidores, pelo que “tecer considerações que limitem a ação do mercado é, no mínimo, inadmissível, vindo de um responsável político a quem, caberia apontar soluções e não, ter a ousadia de optar pela premonição de qual será, daqui a quatro ou cinco anos, o valor residual dos veículos automóveis a gasóleo”.

Num comunicado de imprensa, a associação que representa 3.500 empresas deste setor, além de se insurgir contra a forma e o conteúdo das declarações do ministro, em entrevista ao Jornal de Negócios e à Antena 1, critica o ministro João Matos Fernandes por tentar “antecipar aquilo que o mercado automóvel será daqui a uma ou duas dezenas de anos, omitindo os objetivos definidos pela indústria automóvel que, curiosamente, têm sido sempre atingidos e mesmo ultrapassados”.

Quando a ANECRA defende que caberia ao ministro apresentar “soluções”, uma dessas “soluções” poderia passar por algo sobre o que a associação “há muito tem manifestado preocupação”, que é o “continuado agravamento da idade média do parque automóvel nacional” que, revelou o secretário-geral Jorge Neves da Silva, em conversa telefónica com o Observador, está neste momento em 12,6 anos.

Partindo do pressuposto que os motores mais modernos são mais ecológicos, a ANECRA sugere ao ministro “medidas que visam inverter essa tendência, como será o caso da retoma do Sistema de Incentivos ao Abate de Veículos em Fim de Vida e a penalização acentuada, da importação de veículos usados com mais de oito anos, estes sim, com impacto direto no desagravamento dos efeitos ambientais”.

A ANECRA lamenta a falta de sensibilidade do Senhor Ministro do Ambiente, relativamente às declarações proferidas quanto ao seu efeito profundamente negativo num sector determinante como o é o Sector Automóvel, nomeadamente no que concerne à prossecução dos Orçamentos do Estado, ao contribuírem com mais de 25% na arrecadação das respetivas Receitas Fiscais Líquidas”, aponta a ANECRA.

Declaração “não tem qualquer base técnica”, diz a ALF

A Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting comentou não haver qualquer base técnica nas declarações do ministro do Ambiente, que previu falta de valor na troca dos carros com motor a gasóleo dentro de quatro anos.

“A referida afirmação não tem assim qualquer base técnica e só pode ser entendida num contexto político desfasado da realidade do setor automóvel”, segundo a Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting (ALF)..

Para a ALF, as palavras do governante também “não espelham a realidade” e “não contribuem para reforçar a previsibilidade e estabilidade que devem nortear o esforço de redução das emissões dos veículos em que toda a sociedade está empenhada”.

A associação sublinhou a evolução considerável dos motores a diesel referindo que a transição para automóveis híbridos e/ou elétricos “deverá processar-se de forma gradual, acompanhando a evolução natural do mercado e da crescente oferta de viaturas cada vez mais eficientes ao nível de emissões, sejam elas elétricas, híbridas, a gasolina ou a diesel”.

Na segunda-feira, a Associação Automóvel de Portugal (ACAP) tinha já lamentado que o “sr. ministro não tenha ponderado o impacto das suas palavras na atividade das empresas do setor automóvel”, até porque esta indústria é a “principal exportadora em Portugal” e o setor é o “principal contribuinte líquido do Estado, ao ser responsável por mais de 25% do total das receitas fiscais”.

Já a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável manifestou-se “de acordo com a questão levantada pelo ministro do Ambiente”, e disse que têm perspetivas em “completa consonância” relativamente ao futuro próximo.

“Neste caso, estamos de acordo com a questão levantada pelo ministro”, afirmou em declarações à Lusa o presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira.