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O Governo de Portugal está a “pôr em perigo a vida dos seus cidadãos” por ter reconhecido Juan Guaidó como Presidente interino da Venezuela. A afirmação foi feita por Diosdado Cabello, número dois do partido de Nicolás Maduro, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), num evento de apoio a Maduro no estado de Aragua.

Governos como o de Espanha e Portugal, que apelam abertamente a uma intervenção militar na Venezuela e que são capazes de reconhecer um indivíduo que segundo eles é Presidente, que pedem o seu reconhecimento e que pensam que podem fazer um ultimato à Venezuela, estão a por em perigo a vida dos nacionais portugueses e espanhóis“, declarou Cabello na quinta-feira, perante a multidão que o escutava, como se pode ouvir na Radio Mundial (a partir do minuto 13:21). “Não há bombas que digam ‘esta bomba só mata chavistas”, explicou. “Quando os Estados Unidos decidem bombardear povos, não têm escrúpulos com isso.”

No mesmo discurso em Maracay, o número dois do chavismo aproveitou ainda para criticar a ajuda humanitária prometida por Guaidó, que considerou ser um “show mediático” da oposição. “Eles dizem que vão trazer ajuda humanitária para 20 mil pessoas, já nós temos um sistema que são os CLAP [Comités Locais de Abastecimento e Produção], que chegam a seis milhões de famílias venezuelanas”, afirmou. Os CLAP fazem parte de um programa de ajuda que deveria disponibilizar alimentos aos mais desfavorecidos, mas que acabou por ser alargado aos que têm cartão de militante do PSUV.  Há acusações de que o acesso aos CLAP já foi utilizado como moeda de troca para obter votos.

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O primeiro carregamento de ajuda humanitária organizado pela oposição chegou à fronteira da Colômbia com a Venezuela na tarde de quinta-feira. A chegada dos nove camiões (dois maiores e sete mais pequenos) ao centro de apoio Las Tienditas em Cúcuta, na Colômbia, aconteceu às 14h43 (hora de Caracas, 18h43 em Lisboa).

O anúncio foi inicialmente feito na página de Twitter da embaixada norte-americana na Colômbia: “Os primeiros camiões de ajuda humanitária da USAID estão a chegar à fronteira na Colômbia e incluem alimentos, material médico e medicação, kits de higiene e produtos de nutrição ao povo da Venezuela.” A chegada dos camiões foi testemunhada no local por órgãos de comunicação internacionais como a Agência France-Press.

Os camiões chegaram escoltados por agentes da Polícia Nacional da Colômbia e foram recebidos por alguns venezuelanos que se manifestavam no local a favor da ajuda humanitária.

“Sinto-me muito feliz, a ponto de chorar pelo que nós vezuelanos temos passado. A minha família, os meus filhos… Esta situação está difícil, pedimos a muitas pessoas por isto”, declarou uma venezuelana no local à Voice of America, citada pelo jornal venezuelano El Nacional. 

No local também houve protestos de cidadãos colombianos e canadianos, pedindo para que o material possa entrar na Venezuela.

A ajuda humanitária foi enviada pela Agência norte-americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e será entrege pela Unidade Nacional de Gestão de Risco de Desastres (UNGRD) da Colômbia. Cúcuta é um dos três centros de apoio definidos por Juan Guaidó, autoproclamado Presidente interino da Venezuela, para receber a ajuda humanitária internacional.

“De acordo com o cronograma estabelecido, nesta primeira etapa do processo as ajudas serão organizadas dentro do espaço disposto no centro de apoio, com o objetivo de realizar o processo de tutela e salvaguarda”, explicou a UNGRD em comunicado.

Os militares venezuelanos bloquearam a ponte que liga o território do país a Tienditas, na Colômbia, no dia anterior. Guaidó tinha apelado aos militares do país que permitissem a entrada do material na Venezuela, mas para já não há sinais de que será essa a posição das Forças Armadas.

Militares venezuelanos bloqueiam ponte que liga o país à Colômbia para impedir ajuda humanitária

Os Estados Unidos comprometeram-se com o envio de ajuda humanitária no valor de 20 milhões de euros. Apesar de o valor ser insuficiente para cobrir as necessidades de uma população desnutrida, a ideia serve também para colocar o Governo de Maduro em xeque, como explicou o especialista Adam Isacson, do Washington Office on Latin America, ao jornal The Guardian: “É inteligente tentar enfraquecer a lealdade dos militares a Maduro ao colocar as Forças Armadas numa posição em que têm de obedecer a uma ordem revoltante: bloquear a entrada de comida e medicamentos. Quer o façam, quer não, esta é uma situação em que Maduro sai a perder”, afirmou o analista.