Sem vontade para tomar decisões definitivas sobre o futuro de Carlos Costa à frente do Banco de Portugal sem que, antes, tenham sido divulgadas as conclusões da nova comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, o PS atirou quaisquer consequências práticas para lá do final do mandato do governador da instituição de supervisão bancária em Portugal, como explica o jornal Público na edição desta quarta-feira.

O calendário parlamentar tem agendada para esta quinta-feira uma discussão sobre a futura comissão de inquérito ao banco público. Na sexta-feira, tudo indica, será aprovada a sua constituição e, depois de nomeados os representantes de cada partido e da tomada de posse da comissão, começam as audições. O Bloco de Esquerda já apresentou um projeto de resolução em que recomenda ao Governo a exoneração de Carlos Costa, mas, defendem os partidos da direita e o PS, primeiro é preciso ouvir os visados.

Banco de Portugal. A reunião “muito, muito tensa” em que Carlos Costa pediu escusa

Foi isso que defendeu João Paulo Correia logo na manhã de terça-feira. O PS tem, “obviamente, suspeitas sobre a conduta” do governador do Banco de Portugal, disse o deputado socialista.  Mas temos de aguardar que os inquéritos sejam concluídos e que apontem responsáveis e responsabilidades”, acrescentou.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O líder parlamentar haveria, horas depois, de reforçar a ideia.

A nossa preocupação essencial é, no âmbito da comissão parlamentar de inquérito nomeada pela Assembleia da República, indagar todas as responsabilidades e esclarecer todo o processo que conduziu a CGD à situação difícil que atravessou em função de créditos indevidamente ou imponderadamente concedidos”, disse Carlos César.

A posição socialista está alinhada com a do PSD e do CDS, pelo menos no que diz respeito às etapas a cumprir antes de tomar qualquer decisão sobre o futuro de Carlos Costa.

Ora, o jornal Público fez as contas e concluiu que, considerando o calendário que os deputados têm pela frente, qualquer decisão de exoneração só teria efeitos práticos num momento em que o atual governador do Banco de Portugal pode já nem estar em funções.

PSD diz que “não há intocáveis” e acusa BE de prestar “mau serviço” à comissão de inquérito à CGD

A comissão de inquérito terá de terminar o seus trabalhos até ao verão. Depois, as máquinas partidárias já estarão em marcha para as legislativas de outubro e é altamente improvável que, em clima de campanha, o Governo formalize um pedido de exoneração de Carlos Costa. Entre formar o novo Governo e o fim do ano, há margem para esse passo determinante. Mas, aí, entra em campo outro calendário.

Explica o Público que um processo de exoneração do governador de uma entidade como o Banco de Portugal só encontra paralelo no caso da Letónia e que, devido a essa ausência de histórico, deverá ser um processo demorado. Até pela possibilidade de serem apresentados recursos sobre a decisão que arrastariam o caso para a segunda metade de 2020. E Carlos Costa cumpre dez anos do cargo em julho de 2020, tendo obrigatoriamente de sair por já ter cumprido dois mandatos.

Assunção Cristas admite revisão constitucional para alterar nomeação do governador do Banco de Portugal

Sem os efeitos práticos de uma exoneração, o projeto de resolução do Bloco de Esquerda, e as suspeições sobre a sua falta de idoneidade, tem pelo menos uma consequência: Carlos Costa é hoje um governador mais fragilizado.