O Ministério Público abriu um inquérito para investigar o caso do carro de luxo do vice-presidente do PSD, que o Observador divulgou no final da semana passada. Salvador Malheiro vai ser investigado por eventuais crimes na utilização de um Lexus de alta cilindrada, alugado pela Câmara Municipal de Ovar para ser usado como carro de serviço pelo autarca nas suas deslocações, e que acabou por servir para Malheiro participar em eventos do partido.

A instauração de um inquérito foi confirmada ao Observador pela Procuradoria-geral da República. “A matéria que refere deu origem a um inquérito que corre termos no Ministério Público do DIAP de Aveiro”, refere a PGR, em resposta a questões sobre a abertura de uma investigação em função dos dados publicados na última sexta-feira. É o segundo processo-crime em que o vice-presidente do PSD é envolvido (depois da polémica com a adjudicação de obras em clubes do concelho) e o terceiro em que a Câmara de Ovar é visada, desde que Malheiro foi chamado por Rui Rio para ser seu braço-direito no partido.

No centro do mais recente caso estão as deslocações de Salvador Malheiro a vários pontos do país — de Lisboa ao Porto, passando por Setúbal e Évora — para participar em eventos como vice-presidente do PSD. O autarca acompanhou Rui Rio a homenagens a Francisco Sá Carneiro, participou em reuniões da Comissão Política do partido, além de ter estado noutros eventos em que o presidente do PSD marcou presença com elementos da sua direção.

Pode estar em causa a prática de crimes de peculato de uso e, para apurar os contornos dos vários casos divulgados pelo Observador, o Ministério Público avançou com um inquérito-crime. Na frente política, Salvador Malheiro também já começou a ser confrontado com a mais recente polémica. No fim-de-semana, o deputado municipal Fernando Camelo de Almeida apresentou um requerimento para que o autarca revele vários documentos relacionados com as suas deslocações nos últimos seis meses. O centrista quer ver tudo: faturas de portagens, comprovativos de abastecimento de combustível e até as multas passadas aos carros da autarquia — não só o Lexus mas também o Volvo, encostado desde novembro, quando Malheiro começou a usar o novo carro.

Investigação às obras dos relvados em marcha

A investigação à utilização do carro da autarquia está a começar, mas há outras investigações em marcha e com desenvolvimentos recentes. É o caso do processo em que o Ministério Público investiga o processo de atribuição de verbas, por parte da Câmara de Ovar, aos clubes desportivos do concelho para a instalação de relvados.

O Observador apurou que pelo menos dois dos clubes visados num artigo publicado em janeiro do ano passado foram alvo de buscas por parte de inspetores da Polícia Judiciária. Estão em causa obras de 2,2 milhões de euros.

Os contornos destes negócios, concretizados no primeiro mandato de Salvador Malheiro em Ovar, entre 2013 e 2017, levantaram suspeitas sobre a forma como o dinheiro da autarquia acabou por financiar obras de requalificação entregues, direta ou indiretamente, a uma empresa do concelho, a Safina, detida por Pedro Coelho. O empresário é líder da concelhia do PSD local e acabaria por integrar o executivo de Malheiro, apesar de, entretanto, já ter deixado de exercer essas funções.

Além deste caso, Malheiro esteve ainda envolvido numa história de cacicagem de votos, revelada pelo Observador, em que se investigou o transporte de militantes do PSD para votar nas diretas de 13 de janeiro que acabariam por levar à eleição de Rui Rio. Nesse transporte foi utilizada uma carrinha de um grupo folclórico do concelho que era financiada pela autarquia.