Uma mulher recebeu pela primeira vez o Prémio Abel, um importante prémio da Matemática que rivaliza com o Medalhas Fields pelo título equivalente ao Nobel desta área científica. A norte-americana Karen Keskulla Uhlenbeck foi escolhida pela Academia Norueguesa de Literatura e Ciências pelas suas “conquistas pioneiras nas equações diferenciais, na Teoria de Gauge e sistemas integráveis; e pelo impacto fundamental do seu trabalho na análise, na geometria e na física matemática”.

Karen Uhlenbeck trabalha em matérias muito sofisticados que “mexem com quase toda a matemática ao nosso dispor”, resume o matemático português Jorge Buescu em conversa com o Observador. As equações diferenciais, por exemplo, são as que descrevem a evolução de todos os sistemas com o tempo, como por exemplo as Leis de Newton e todas as outras leis que explicam o funcionamento do Universo. Esta cientista norte-americana é líder do estudo desta área e dedicou toda a vida a ela com “muita energia”, recorda Jorge Buescu quando a viu em Londres numa conferência.

Para Jorge Buescu, este reconhecimento é “um sinal importante à comunidade” de que “os movimentos de mulheres na matemática estão a ganhar força”: “Há um grande desequilíbrio na comunidade matemática que tem de ser corrigido”, acrescenta o matemático, que sublinha que, em termos globais, há muito mais homens na área da matemática do que mulheres. Foi em busca de mais igualdade de género dentro desta ciência que organizações como a Sociedade Europeia de Matemática ou a Unidade Matemática Europeia criaram grupos para promover a discriminação positiva. E é também em prol dessa igualdade que nasceu a Associação para as Mulheres na Matemática.

Mas Portugal é uma pérola no meio desse desequilíbrio: a percentagem de homens e a percentagem de mulheres que se dedica ao estudo da matemática está muito próximo, conta Jorge Buescu. O motivo, especula o matemático, pode estar na forma como a sociedade funcionava “há 40 ou 50 anos”: “A nossa sociedade era muito atrasada. Se as mulheres quisessem escolher trabalhar numa área da ciência havia um refúgio natural em áreas mais teóricas, como a matemática, do que por exemplo nas engenharias de minas”. Era assim porque o sexo feminino tendia a dedicar-se mais do que os homens à vida familiar e, portanto, as mulheres não estavam tão disponíveis para passar temporadas fora de casa como outras áreas da ciência exigiam.

Ainda assim, há muito trabalho por fazer. E por isso é que, ainda este verão, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia vai receber um encontro entre mulheres da matemática promovido pela Universidade Nova de Lisboa. O evento chegará poucos meses depois de, a 8 de março, a Agência Ciência Viva ter lançado o livro “Mulheres na Ciência 2019”. Nessa obra recorda-se que 45% de todos os investigadores em Portugal são do sexo feminino.

Afinal, qual é o Nobel da Matemática?

Os Prémios Nobel, que são entregues pela Academia Real das Ciências da Suécia, não incluem nenhum galardão reservado à Matemática. Diz-se que é assim porque, quando os prémios foram criados, o melhor Matemático da Suécia à época estaria envolvido com a mulher de Alfred Nobel. Verdade ou não, certo é que os matemáticos tentaram criar outros prémios. E o primeiro a nascer com o Medalha Fields, em 1930.

A primeira vez que uma mulher venceu o Medalha Fields foi em 2014. Chamava-se Maryam Mirzakhani, era iraniana e trabalhava na Universidade de Stanford. Esse prémio foi criado para preencher a lacuna aberta pelos Prémios Nobel, mas tem uma diferença fundamental a este último: não é um prémio de consideração de carreira. Só é entregue a quem tenha um limite de 40 anos e esteja no início de uma carreira promissora, explicou Jorge Buescu.

Ainda assim, o Medalha Fields não era o “Prémio Nobel ideal”, conta o matemático: como só era entregue de quatro em quatro anos, havia situações em que muitos matemáticos chegavam à cerimónia no limite dos 40 anos. Era o “agora ou nunca”. E sendo assim, muitos cientistas promissores construíam uma carreira notável sem qualquer galardão que a pudesse carimbar. Foi por isso que, em 2003, foi criado o Prémio Abel, entregue esta terça-feira a Karen Uhlenbeck .

Ora, o Prémio Abel é muito mais parecido ao Nobel, considera Jorge Buescu. E não só pelo nome semelhante, que homenageia um grande matemático norueguês do início do século XIX. Em primeiro lugar, o valor do prémio é próximo: o Nobel dá oito milhões de coroas suecas (mais de 765 mil euros) enquanto o Abel dá seis milhões de coroas norueguesas (cerca de 620 mil euros). Em segundo lugar, o facto de ambos serem organizados por países escandinavos — o Nobel pela Suécia e o Abel pela vizinha Noruega. E em terceiro, e provavelmente mais importante, o facto de os dois serem um prémio de reconhecimento de carreira entregue anualmente.