Há casamentos por amor e há casamentos por interesse. Este agora anunciado, que liga a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e a Tesla, enquadra-se nesta última categoria. E o mais curioso é que não é a primeira vez que acontece. A União Europeia (UE) obrigou os fabricantes que disputam o seu mercado a, em 2020, ficar abaixo da fasquia dos 95 gramas por quilómetro em matéria de emissões médias de dióxido de carbono (CO2) dos veículos transaccionados. É uma meta impossível de atingir, a menos que as marcas possuam uma presença esmagadora na sua gama de veículos híbridos e híbridos plug-in (PHEV), como é o caso da Toyota, ou uma generosa componente de veículos 100% eléctricos.

Os grandes grupos, como a Volkswagen, usufruem da vantagem de possuir marcas com veículos menos poluentes, como a VW, Seat e Skoda, a par de emblemas com um maior consumo médio de combustível – que está directamente ligado à emissão de CO2 –, caso da Porsche, Lamborghini e Bentley. E mesmo estes estão a apressar o início das vendas de modelos eléctricos, sem os quais estão longe de conseguir cumprir os 95g.

Para “motivar” os construtores a cumprir o objectivo, a UE estabeleceu um sistema de multas que, de tão pesadas, causa pesadelos aos fabricantes. Para o primeiro grama acima dos 95g vão ser obrigados a pagar 5€ por veículo vendido, valor que sobe para 15€ para o segundo grama, 25€ para o seguinte e nada menos que 95€ para o 4º grama e seguintes. No final de 2018, as previsões apontavam para que o VW pagasse 1,4 mil milhões de euros em penalizações, com a PSA a apontar para 600 milhões, isto segundo os dados do International Council on Clean Transportation.

Porquê a FCA e a Tesla?

A FCA arrancou tarde para a concepção de veículos eléctricos e híbridos, mas já tem as rodas em movimento e espera ter em breve no mercado os primeiros veículos menos ou nada poluentes. Mas não antes de 2020, pelo menos em quantidade. E apesar de não ser o grupo que está em piores condições, expondo-se a multas mais pesadas, o conglomerado que integra a Fiat (cujos veículos são moderados nos consumos), mas também a Maserati e a Jeep, tratou de encontrar uma solução para se colocar abaixo dos 95g: juntando os “trapinhos” com a Tesla, que começa a ter um número muito importante de modelos comercializados na Europa com zero emissões. O que é possível dado que a UE permite que os construtores independentes acordem apresentar os seus dados de emissões em conjunto, como forma de equilibrar os fabricantes independentes, ou os grupos mais pequenos, com os grandes grupos dominantes no mercado europeu.

A FCA está longe de ser o fabricante com maiores dificuldades em respeitar os 95g, mas tratou já de encontrar uma solução para evitar as pesadas multas

Segundo o Financial Times, a FCA irá pagar uma quantia não divulgada de milhões de dólares por este casamento de conveniência, que tem a vantagem de lhe garantir imediatamente um lugar abaixo do limite, oferecendo-lhe mais tempo para lançar uma gama abrangente de híbridos e eléctricos, mas que andará sempre na casa das várias centenas de milhões de dólares. Se o casamento é de interesse para a FCA, é de amor assolapado para a Tesla. Mas amor ao vil metal, pois esses milhões vão fazer maravilhas às contas da marca americana de veículos a bateria, que continua a investir colossalmente em novas fábricas, agora na China, e numa rede própria de supercarregadores, que é o único construtor que oferece.

A venda de créditos de CO2 não é uma novidade para a Tesla, que nas suas contas já registou 103,4 milhões de dólares em 2018 e 279,7 milhões em 2017, sendo que, já na altura, chegou a um acordo similar com a FCA, entre outros fabricantes, mas específico para o mercado americano.