Um grupo de homens armados chegou de mota a uma igreja católica na cidade de Dablo, no Burkina Faso, interrompendo uma missa e matando a tiro seis pessoas. O The Guardian indica que os atacantes fizeram várias pessoas reféns antes de fugirem. A France 24 cita uma fonte dos serviços de segurança do país que indica que o atentado foi levado a cabo por “20 a 30 homens armados“.

Em comunicado oficial, o governo do país indica que os terroristas atearam propositadamente fogo à igreja, a uma loja próxima e a dois carros. Durante a fuga, os terroristas saquearam ainda um centro hospital local, destruindo o carro de um enfermeiro, de acordo com a CNN. A Vox avança que os atacantes terão destruído propositadamente estabelecimentos que servisse álcool. Os incêndios aparentam já ter sido controlados.

A BBC afirma que os residentes estão frustrados pela demora na resposta das forças militares que se encontravam numa base do exército próxima. Fontes das forças de segurança indicaram à AFP que foram enviados reforços militares desde Barsalogho para ajudar nos esforços de busca e captura.

O presidente da câmara municipal de Dablo, Ousmane Zongo, explicou ao The Guardian que não foram feitas quaisquer detenções, e que se vive na cidade um “clima de terror”. A zona do ataque foi isolada pelo exército e a população recebeu ordens para permanecer dentro de casa.

Siméon Yampa, um padre de 34, foi uma das vítimas mortais

Burkina Faso vive crescendo de violência terrorista

Este é o terceiro ataque a igrejas católicas no país em cinco semanas, e surge dois dias depois das forças especiais francesas terem libertado quatro pessoas sequestradas no norte do país. Dois soldados morreram durante o resgate. Temia-se que os reféns fossem entregues a um grupo extremista islâmico, a Frente de Libertação de Macina.

Os franceses Patrick Picque (à direita) e Laurent Lassimouillas (à esquerda) falam à imprensa depois de serem resgatados pelos militares franceses. Ao centro, uma refém sul-coreana que não foi identificada. (FRANCOIS GUILLOT/AFP/Getty Images)

Segundo a AFP, desde 2015 morreram 400 pessoas no país em atentados terroristas levados a cabo por grupos extremistas islâmicos incluindo o Ansarul Islam, o Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos e o auto-proclamado Estado Islâmico do Grande Saara. Em abril, quatro católicos foram mortos numa aldeia próxima de Dablo. Semanas depois, um ataque a uma igreja protestante em Silgadji fez seis mortos.

Em fevereiro, o padre salesiano espanhol Antonio Cesar Fernandez fora morto na fronteira do Burkina Faso com o Togo, num ataque que tirou a vida também a quatro guardas fronteiriços. Também este ataque foi levado a cabo por um grupo de 20 homens armados.

O Centro Africano para Estudos Estratégicos nota que em 2015 houve três atos terroristas no país ligados ao extremismo islâmico. Em 2018 o número atingiu os 137.

Tanto a França — que colonizou o país até 1958 — como os Estados Unidos da América mantêm no Burkina Faso forças militares para combater grupos terroristas locais com ligações à al-Qaeda e ao auto-proclamado Estado Islâmico. A França tem cinco mil soldados entre Mali, Burkina Faso, Níger e Chade.

Os Estados Unidos anunciaram em fevereiro que iriam reforçar a sua presença na região. Segundo a CNN, os norte-americanos estavam a ponderar enviar mais conselheiros militares, operacionais dos serviços de informação e material de vigilância, como, por exemplo, drones para ajudar no combate à ameaça terrorista crescente. A administração Trump, contudo, mantinha a intenção de diminuir o número de militares no continente africano.

Políticos internacionais condenam o ataque

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, reagiu ao atentado através do Twitter: “Estou horrorizado pelas notícias que chegam do Burkina Faso. Novamente um local de fé é alvo de violência. Os espaços de preces devem ser abrigos, não alvos“.

Em março, 50 pessoas foram mortas em duas mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia. O atirador estava ligado ao movimento de supremacia racial branca. Já no final de abril, um único atacante, de extrema-direita, matou uma pessoa e feriu outras três num ataque a uma sinagoga na Califórnia, Estados Unidos da América.

Já o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, sublinhou que “o genocídio de cristãos por todo o mundo tem de parar”.

O presidente do Burkina Faso, Roch Kaboré, demonstrou pesar após o atentado, em declarações ao Burkina 24: “Condeno energicamente o ataque levado a cabo contra a igreja católica de Dablo. É completamente inaceitável“.

O maior partido da oposição, o UPC, chamou atenção para o crescendo de violência religiosa no Burkina Faso, considerando a série de ataques a igrejas nos últimos meses como uma “nova tática” de um inimigo comum: “A estratégia consiste em dividir-nos, a opor-nos para nos fazer combater”. O UPC pediu que o regresso da “tolerância lendária” do país.

Cerca de 60% da população do Burkina Faso é muçulmana, enquanto que 23% pratica o cristianismo, segundo um censo de 2006. Historicamente, os dois grupos mantiveram relações pacíficas, mas houve um aumento visível nos incidentes violentos nos últimos quatro anos, ligado à crescente presença de grupos extremistas na região.

**Notícia atualizada às 23h18 de 12 de maio de 2019, corrigindo um erro na tradução das declarações de António Guterres**