A história do novo Grand House pode ter acabado de começar mas na verdade há quase um século de história entre as paredes deste que é o primeiro hotel cinco estrelas de Vila Real de Santo António, na ponta extrema do Algarve. “Tudo isto começa com a família Ramirez, a do atum”, começa por explicar Marta Carneiro, a relações publicas do projeto. Estamos numa pequena divisão onde se destaca um bar todo em madeira trabalhada — “É madeira original! Quando ficámos com o edifício ele parecia esta irrecuperável mas felizmente conseguimos recuperar”, conta o barman Miguel Rocha enquanto prepara um Tom Collins (cocktail com gin, soda sumo de limão e xarope de açúcar). Todo o ambiente remete para os cenários pintados por Agatha Christie ou Raymond Chandler — grandes ventoinhas de teto em madeira, cadeiras em verga, enormes janelas adornadas e uma meia-luz que faz o tempo correr mais devagar.

Nos anos 20 do século XIX, Vila Real de Santo António era um verdadeiro polo da industria conserveira, especialmente aquela dedicada à transformação do atum — “Existiam umas 27 fábricas na cidade, nessa altura!”, explica Marta. A família Ramirez era nome grande neste negócio e quando se soube que a “localidade vizinha” de Sevilha ia receber a Expo 1929 decide apostar ainda mais forte na cidade. Com o objetivo de servir os clientes que vinham de fora e também na esperança de angariar alguns “turistas” que pudessem sobrar do mega-evento espanhol, a família decide investir naquele que seria o primeiro grande hotel a sul do Tejo, o Grand Hotel Guadiana, que fica concluído em 1926 e por isso mesmo é, ainda hoje, o hotel mais antigo do Algarve (o Bela Vista Hotel, muitas vezes apontado como o mais antigo, fica num edifício de 1918 mas este só foi convertido em hotel a 1936).

Imagem antiga do Grand Hotel Guadiana, que deu origem ao atual Grand House.

Tudo corria bem, o hotel (idealizado pelo arquiteto suíço Ernesto Korrodi) ganhava nome e toda esta cidade de traço pombalino florescia. O revés, porém, chegaria com o advento da Segunda Guerra Mundial, que aos poucos foi dizimando a indústria conserveira da região — que em grande parte passou para o Norte do país, incluindo os negócios dos Ramirez –, de tal forma que atualmente não sobra nenhuma das tais quase 30 fábricas que outrora existiram. Este descalabro refletiu-se no estado de saúde do tal hotel que, desde então, entrou num caminho com tanto de irregular como de incerto: mudou de donos várias vezes, abriu e fechou outras tantas, até que foi ter às mãos de Luís Fernandes, um português que trabalhou vários anos nos EUA, no ramo da hotelaria, e que decidiu voltar ao seu Algarve natal.

As extensas obras de remodelação começaram em 2015 — para ter uma ideia, antigamente, no segundo piso existiam 31 quartos e agora esse é o número total de toda a unidade hoteleira — e agora inaugurou na totalidade, contando com a ajuda do estúdio de design de interiores White & Kaki que o rechearam num estilo colonial, cheio de vergas, riscas, madeira, tons claros e história — como a do marinheiro fantasma que gosta de abrir portas de elevador e desajeitar quadros.

Associado a este hotel há ainda outros dois projetos, um já realizado e em funcionamento e outro que ainda está a ser ultimado. O primeiro é o Beach Club, uma antiga base militar à beira Guadiana e virada para Ayamonte que se tornou bar/restaurante de praia — apesar de ter uma pequena piscina em vez de areia e mar. O que ainda falta concluir será o Grand Café (abrirá algures no Outono), que nasce do igualmente histórico edifício da Alfândega, que fica a poucos metros do hotel, e que terá uma concept store, um café (claro), salas para eventos e até um clube privado, no primeiro andar.

Um dos quartos do novo Grand House. © Tiago de Paula Carvalho

Ficar lá

Desengane-se quem achar que um hotel, só por morar em terras algarvias, tem de ser um daqueles monólitos gigantescos com várias alas e andares, clubes para as crianças e inúmeras zonas de restauração. O conceito dos pequenos e aconchegantes boutique hotels pode ser relativamente mais fácil de encontrar em grandes cidades (o espaço reduzido das mesmas assim o obriga, de certa forma) mas já começa a espalhar-se — este Grand House é um exemplo disso. O edifício onde mora esta novidade é relativamente pequeno mas isso não é uma realidade demasiado presente quando lá se entra. O processo de check-in é simples, o staff simpático e bem vestido (vestidos longos azuis para as senhoras e combinação calça, camisa e colete para os homens), mas o estacionar o carro nem por isso. O preço de se estar diretamente em frente ao Guadiana e a Espanha, na marginal de V.R. de Santo António, é a falta de espaços onde parar o carro e isso, apesar de beneficiar a vida da cidade, não dá muito jeito para quem quer descarregar malas, deixar pessoas ou simplesmente encontrar poiso fixo para o seu automóvel que não fique muito longe. “Pormenores!”, poderá pensar. Certíssimo, mas dá sempre jeito estar a par destas condicionantes.

O que interessa saber

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Nome: Grand House
Abriu em: Fevereiro de 2019
Onde fica: Av. da República, 171, Vila Real de Santo António
O que é: A nova vida daquele que é o hotel mais antigo do Algarve, agora em formato boutique hotel
Quem manda: Luís Fernandes
Quanto custa uma noite: A partir de 200 euros
Qual é a vista: Vila Real de Santo António ou a combinação “marina, Guadiana, Ayamonte”, dependendo do quarto que lhe calhar
Contacto: 281 530 290
Reservas:info@grandhousealgarve.com
Links importantes: SiteFacebook e Instagram
Curiosidades: Edifícios antigos têm destas coisas: Este hotel está assombrado (ou assim o dizem), mas não se preocupe que o fantasma é simpático. Trata-se de um marinheiro que gosta de entortar quadros e abrir portas de elevador. Toda a sua história é verídica (supostamente) e pode conhecê-la num livro que está na biblioteca do Grand House

No total os hóspedes podem escolher entre três tipologias de quartos, as suites, quartos pequenos e médios, uns com vista para a o rio e a marina e outros virados para a cidade algarvia. Regra geral, os quartos são decorados também em tons claros e todos têm camas de casal king size muito confortáveis, com lençóis 100% portugueses e de algodão (à semelhança das toalhas, por exemplo). Há minibar, cofre, televisão, águas gratuitas S. Pellegrino com e sem gás bem como um smartphone que os hóspedes podem utilizar durante a sua estadia — amenity que se torna cada vez mais comum em hotéis de nível superior. A casa de banho é descrita como “cosy” e é, realmente, mas isso também pode ser sinónimo de “apertada”, não a um nível extremo, longe disso, mas tendo em conta o tamanho enorme do quarto em si (que junta uma zona de cama com outra mais de estar, com sofás e uma mesa pequena), podia ser um pouco mais larga.

Há uma sala de leitura muito confortável virada para o rio e a marina, no primeiro andar, e dos vários serviços disponíveis (como os tratamentos de spa, por exemplo) destaca-se o da visita guiada pela baixa de V.R. de Santo António, feita a pé e que é liderada por um local que revela pormenores como os melhores sítios para comer ali à volta bem como outras curiosidades da história da cidade que Marquês do Pombal erigiu em apenas dois anos — pormenor que nos foi ensinado durante a caminhada. O pequeno-almoço também cumpre todas as expectativas, com uma boa seleção de muito do que de melhor se faz na região, de queijos a doces, passando por bolos e, claro, o pão.

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Comer lá

Um dos pormenores mais relevantes desta novidade é mesmo o restaurante Grand Salon, o centro nevrálgico gastronómico do empreendimento. Quando o Observador teve oportunidade de o conhecer, depois da tal conversa introdutória com a relações públicas deste Grand House, já era de noite e a patine “classy” do espaço era evidente — apesar de não haver vivalma nas outras mesas. Bem humorado e alegre, o chef Jan Stechemesser apresenta-se e, antes de fazer desfilar os seus pratos, começa a falar de si. “Não sou português, como o meu sotaque pode mostrar”, afirma, entre risos. De facto é carregada a entoação que dá às palavras, mas fala português fluentemente, afinal também já está em Portugal há 17 anos.  “Nasci na Alemanha mas com dez anos mudei-me para a Áustria com a minha família”, explica. Atualmente com 37 anos, o cozinheiro teve de seguir a família, médicos de profissão, que montaram “um centro de reabilitação” em terras austríacas. “Sou daqueles que sempre gostou de comida”, conta, e reforça afirmando que aos “16/17 anos” começou a trabalhar na cozinha do tal centro de recuperação que os pais tinham montado. O interesse foi crescendo, formou-se profissionalmente, estagiou “num hotel de cinco estrelas na Áustria” e em 2002 decide saltar para o Algarve, para o prestigiado Vila Joya, para “enriquecer enquanto cozinheiro”. A essa primeira aventura seguiu-se uma passagem pelo também famoso São Gabriel (ainda antes deste ser assumido pelo chef Leonel Pereira, que até hoje ainda lá mora), outra no Longevity, em Monchique e ainda uma em Lisboa, no hotel Marriott.

“O sítio onde estamos torna óbvio que tenhamos mais peixe que carne, não é?”, assume antes de serem servidos os primeiros pratos da noite, como o filete de cavala fumada com chá preto, caldo dashi, puré de ervilha e wasabi (13€) ou Grand Garden com legumes e hortaliças da época em várias texturas (12€). A predominância é dada aos sabores algarvios, como o da muxama, que faz parte do couvert, por exemplo, mas também em frutas e legumes da época, na sua maioria fornecidos por pequenos produtores da região. No capítulo dos pratos principais encontram-se sugestões como o delicioso creme de ervilha com chouriço de porco preto (8,50€), a puxar mais aos sabores serranos do Algarve, bem como os filetes de salmonete com lingueirão da Ria Formosa e funcho em três texturas (28€) ou o ravioli com molho de lúcia-lima e espumante do Algarve (27€). “Gosto muito de mudar, de criar coisas novas, e como também estamos sempre dependentes da disponibilidade dos fornecedores, o menu muda muito, praticamente todas as semanas”, conta Jan. Apesar do pouco tempo de funcionamento o chef explica que já têm um casal estrangeiro que mora nas redondezas que vêm “quase todas as segundas ou terças-feiras” para conhecer as novidades e, por exemplo, adoçar a boca com as opções de sobremesa, onde figuram sugestões como a altamente algarvia mousse de amêndoa com biscoito de alfarroba e gelado de vinho do Porto (9€) ou a refrescante combinação de manga, coco e gelado de manjericão (8,50€).

Grand House
Avenida da Republica, 171, Vila Real de Santo António
281 530 290
Preço médio alojamento: entre 200€ a 1080€ por noite