Milhares de jovens de mais de uma centena de países, incluindo meia centena de localidades de Portugal, fazem esta sexta-feira greve às aulas para protestar contra a inação dos governos em relação às alterações climáticas.

O protesto, o segundo deste ano, serve para alertar os governos para a necessidade de tomarem medidas concretas para se limitarem a emissão de gases com efeito de estufa, que, segundo os cientistas de todo o mundo, estão a provocar alterações drásticas, graves e rápidas no clima da Terra.

Depois de uma greve idêntica a 15 de março passado, a de esta sexta-feira tem o apoio dos adultos, professores, organizações ambientalistas e cidadãos anónimos.

A greve climática estudantil é inspirada na sueca Greta Thunberg, 16 anos, que no ano passado iniciou um boicote às aulas para exigir do parlamento da Suécia ações urgentes para travar as alterações climáticos, um protesto que rapidamente se replicou por todo o mundo.

Estão previstas ações dos jovens em mais de 1.600 cidades de 119 países e em Portugal devem realizar-se manifestações em pelo menos 48 locais, por todo o país. Lisboa, Viseu, Coimbra e Covilhã foram algumas das cidades portuguesas que aderiram à greve.

Lisboa

Milhares de jovens concentraram-se esta sexta-feira na praça Marquês do Pombal, em Lisboa, para participar na greve climática estudantil que se realiza em mais de cem países.

O protesto em Lisboa é realizado por pessoas de todas as idades: estudantes do ensino básico ao superior, crianças acompanhadas pelos pais e adultos e tem como destino a Assembleia da República.

Muitos participaram na primeira greve estudantil pelo clima em Portugal realizada a 15 de março, mas também há quem seja novo nestas andanças como as alunas Inês e Margarida da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Lurdes e Beatriz, alunas do 6º ano da escola Filipa de Lencastre em Lisboa.

“Eu não quero lixo, quero ‘bollycaos’ embrulhados em sacos de papel” e “the planet is getting hotter than Leonardo di Caprio” (o planeta está a ficar mais quente do que Leonardo di Caprio) são duas das mensagens que as alunas de 11 e 12 anos trazem em cartazes.

“É nossa responsabilidade estar aqui porque também somos nós que temos de mudar o planeta, porque é nele que vamos viver no futuro”, disse à Lusa Beatriz, que chegou de metro com as colegas da escola.

Já Penélope, de 5 anos, apareceu com o seu pai, Gonçalo Carvalho, que esta sexta-feira participa na greve climática “para defender o futuro das crianças que está em jogo”, saudando o protesto e considerando que veio mostrar que a questão ambiental é um problema de toda a sociedade e não apenas de um grupo restrito de cientistas.

Porto

A greve reuniu, no Porto, mais de mil jovens que, pelas ruas da cidade exigiram medidas em defesa do planeta e alertaram para a crise climática que está a pôr em risco o seu futuro. Passavam poucos minutos das 11h00 quando mais de mil estudantes abandonaram a praça da República, no Porto, e munidos de megafones, bandeiras e cartazes deram início à manifestação que, pelas ruas da cidade, “gritou” a favor da defesa do planeta.

“Há medidas a tomar e o governo anda a brincar” e “A nossa a luta é todo o dia, pela água, clima e energia”, foram alguns dos apelos que os estudantes, não só de escolas da cidade do Porto, mas também de cidades vizinhas, foram fazendo ao longo de todo o percurso.

“A juventude continuará a levantar-se sempre que houver injustiças e sempre que for confrontada com problemas que dizem respeito a si mesmos. Estamos a falar do futuro do planeta”, disse, em declarações à Lusa, Francisco Araújo, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e um dos estudantes que esteve envolvido na organização da greve.

Se para muitos dos estudantes, esta foi a primeira vez que se “levantaram a favor da mudança”, para outros “esta luta não é novidade”, como foi o caso de Ana Sampaio, aluna da Escola Secundária José Régio, em Vila do Conde, que voltou a aderir à greve. “Esta é uma causa que tem de ser defendida por todos os jovens do país, visto que os adultos não conseguem tomar decisões certas”, frisou a jovem de 17 anos, alertando que “fazer reciclagem já não é suficiente”.

Já não é só a nós que cabe a mudança no dia-a-dia. Já que as eleições europeias estão próximas, pedimos ao governo e aos partidos que se vão candidatar para também defenderem propostas que estão de acordo com aquilo que deve ser o certo”, referiu.

Durante a greve, discursos, cânticos e cartazes como “Faltei à aula de história, para fazer história” e “Quando é que deixou de ser prioritário sobreviver?” apelavam para mudança e tomada de consciência dos decisores políticos. Além de estudantes, foram também vários os pais e educadores que decidiram trazer os “mais novos” a participar na greve climática, como Filomena Moura, que se fez acompanhar dos dois seus filhos, de 5 e 10 anos.

“É importante eles perceberem desde pequenos que podem fazer a mudança e que podem fazer parte da solução”, afirmou, em declarações à Lusa, adiantando que já em “casa têm a preocupação” de os sensibilizar para as questões relacionadas com o ambiente.

Este protesto dá-nos esperança, há mais consciência daquela que a minha geração teve, maior vontade de mudar. Estou na casa dos quarenta e para nós é um grande alento perceber que isto está assim”, frisou.

Também a educadora Rita, responsável pelo espaço de apoio educativo ‘Brincar para crescer’ se fez acompanhar de 22 crianças, entre os 2 e 5 anos, e à Lusa, admitiu “ter pena” que mais educadores não viessem para “a rua” acompanhar os jovens. Esta segunda greve climática, que terminou em frente à Câmara Municipal do Porto, na Avenida dos Aliados, decorreu também em mais de 1.600 cidades de 119 países, sendo que em Portugal estavam agendadas manifestações em 34 localidades.

Viseu

Conscientes de que não há um “planeta B”, cerca de 500 alunos de escolas de Viseu fizeram esta sexta-feira greve às aulas e juntaram-se no Rossio, em frente à Câmara Municipal, para exigirem medidas que resolvam a crise climática.

“O objetivo é sensibilizar os governadores do nosso país, que não está a ir no bom caminho nesta questão do clima”, disse à agência Lusa Ana Maia, de 18 anos, aluna da Escola Secundária Alves Martins e uma das organizadoras da manifestação.

“Não há planeta B” e “O ambiente não tem preço, eu quero o que mereço” foram alguns dos “gritos de guerra” entoados pelos jovens.

Nas mãos, as inscrições dos cartazes evidenciavam não só algumas críticas, como “Capitalismo polui” e “Salvem o clima, não os bancos”, mas também alguns conselhos, como “A tua cosmética tem microplásticos” e “Salvar a água que ainda temos”.

Mariana Marques, aluna do 9.º ano da escola de Lajeosa do Dão, no concelho de Tondela, abanava um cartaz com a inscrição “A terra esgotou a sua paciência e nós também”.

“O estado da Terra está a ficar crítico e não é o futuro dos mais velhos que está a ser posto em causa, mas sim o nosso. Temos de fazer alguma coisa, finalmente”, frisou.

Na sua turma, já há a preocupação de, por exemplo, levar para a escola garrafas que possam ser enchidas com água, evitando que tanto plástico vá diariamente parar aos caixotes do lixo.

“No verão, quando tivermos mais disponibilidade, vamos tentar apanhar lixo. E reciclamos e tentamos por as pessoas da nossa escola a reciclar”, afirmou Mariana Marques.

Braga

A greve às aulas “como alerta” para os perigos das alterações climáticas juntou, em Braga, cerca de 250 estudantes que entre ‘slogans’ ambientais e uma volta pela cidade lamentaram o “aproveitamento político” da manifestação.

“Destacámo-nos de qualquer partido, não aceitámos qualquer contribuição, não apoiámos qualquer tipo de partido. Eles estão a tentar beneficiar da associação com este ambiente jovem, esta é uma ‘manif’ pacífica e não podemos condenar a liberdade de expressão de ninguém, mas é óbvio que não apoiamos mas também não podemos proibir”, explicou à Lusa um dos organizadores da manifestação, Bernardo Almeida.

Embora descontentes com as bandeiras políticas do Movimento Alternativa Socialista (MAS), o grupo fez por se ouvir e por mais de duas horas passou mensagens ambientais a lembrar que “esta é a última geração a poder salvar o planeta”.

“O dinheiro não compra ar puro”, “Unidos podemos voltar a tornar a Terra Verde”, “Abre os olhos enquanto a poluição de deixa”, foram algumas das mensagens repetidas e escritas em vários cartazes.

“Juntamos aqui diversos estudantes de várias escolas de Braga. Todos sabemos que vamos ter faltas injustificadas, mas o nosso futuro justifica-as por si”, disse Bernardo Almeida, que não deixou de criticar os diretores das escolas pela opção de não justificar as faltas aos participantes.

Depois de passarem a mensagem, de forma ruidosa, alegre e até divertida, o grupo desfilou até à Câmara Municipal de Braga, onde gostava de ter sido ouvido pelo presidente da autarquia, que justificou a falta por estar ausente do país.

“É uma pena. Gostávamos que nos ouvisse porque algumas destas coisas também passam por medidas autárquicas, de proximidade”, lamentou à Lusa Catarina dos Santos, também ela ligada à organização.

Covilhã

Duas centenas de jovens da Universidade da Beira Interior (UBI) e das escolas secundárias da Covilhã vestiram-se esta sexta-feira de negro em sinal de luto pelo planeta e marcharam em silêncio para exigir soluções para as questões climáticas.

“A gritar ninguém nos ouve. Vamos em silêncio para nos fazermos notar. Tem mais impacto o silêncio, se não ninguém nos ouve”, explicou à agência Lusa, Daniel Pais, estudante da UBI e responsável pelo Movimento Académico de Proteção Ambiental da UBI (MAPA).

Os cerca de 200 estudantes partiram da porta principal da UBI e percorreram várias artérias da cidade da Covilhã, distrito de Castelo Branco, em silêncio, empunhando apenas cartazes onde se podia ler, “Ignorância Mata”, “O tempo de agir é agora” ou “Desculpem estamos só a tentar salvar o planeta”.

Pelo caminho, até à porta da Câmara da Covilhã, alguns jovens foram recolhendo lixo que encontraram espalhado pelo percurso que posteriormente depositaram em frente do município, para alertar para “alguma ineficiência” dos serviços camarários.

“Se levamos o lixo que recolhemos é porque não está a ser bem feito o trabalho que compete à câmara”, afirmou.

Já concentrados em frente à sede do município, fizeram 12 minutos em total silêncio. Daniel Pais explicou que os 12 minutos quiseram representar, simbolicamente, os 12 anos que a comunidade científica dá como o tempo ainda possível para reverter a situação que o planeta vive em termos climáticos.

“Mais uma vez queremos reivindicar a ação dos governantes perante as preocupações ambientais. A greve não é um fim em si mesma. É um meio, apenas uma das atividades que podemos fazer. Serve ainda como apelo à ação individual de cada um dos participantes. Queremos que levem esta consciência para dentro das suas casas”, concluiu.

Setúbal

Cerca de duas centenas e meia de alunos de diversas escolas desfilaram esta sexta-feira entre o largo José Afonso e a praça do Bocage, em Setúbal, para exigir ao Governo “que dê prioridade à resolução da crise climática”.

“Queremos sensibilizar o Governo para fazer da resolução da crise climática uma prioridade e para que decrete o estado de emergência climática”, disse à agência Lusa a jovem Margarida Marques, da organização desta ação de protesto estudantil em defesa do ambiente.

“Decidimos juntar-nos ao movimento mundial iniciado o ano passado pela jovem sueca Greta Thunberg, para exigirmos ao Governo que seja declarado o estado de emergência climática, a exemplo do que já fizeram alguns países europeus, como a Irlanda e o Reino Unido”, corroborou Ricardo Nascimento, de 18 anos, aluno da Escola Secundária da Baixa da Banheira.

Na ação de protesto que decorreu em Setúbal estiveram envolvidos alunos de diversas escolas do ensino básico e secundário dos concelhos de Palmela, Moita e Setúbal, mas, segundo a organização, muitos outros alunos que também gostariam de ter participado não o puderem fazer porque tinham testes marcados ou porque não tiveram abertura para o fazerem por parte de alguns professores.

Solidária com o protesto, a vereadora do Ambiente da Câmara de Setúbal, Carla Guerreiro, que se juntou à concentração final em frente aos Paços do Concelho, na Praça do Bocage, defendeu a necessidade de uma consciencialização de todos para o problema das alterações climáticas.

“Toda a gente tem de estar solidária com este protesto dos nossos jovens, á semelhança do que está a acontecer hoje no mundo inteiro. Para quem, às vezes, diz que os jovens não têm iniciativa nem projetos, está aqui uma iniciativa muito interessante, porque a verdade é que não há ‘planeta `B´”, disse à agência Lusa Carla Guerreiro.

Évora

Cerca de 200 jovens e crianças de Évora participaram na marcha lenta pelas ruas da cidade, com cartazes e palavras de ordem. A iniciativa arrancou com uma concentração na praça do Giraldo, considerada a sala de visita de Évora, e contou com a participação de cerca de duas centenas de jovens e crianças, segundo uma estimativa da PSP feita no local.

Pouco depois do início da concentração, Linda Assunção, com um megafone na mão, subiu para um banco da praça e leu o manifesto da greve climática estudantil, tendo outros participantes também usado da palavra para entoar ‘slogans’. “Não há planeta b”, “somos natureza em autodefesa”, “Governo escuta, os jovens estão em luta, planeta amigo os jovens estão contigo” e “oh senhor ministro explique por favor porque é que no inverno ainda faz calor” foram algumas das palavras de ordem.

Os participantes, incluindo crianças do pré-escolar acompanhadas por educadoras, empunhavam cartazes que tinham frases como “Mudem a política não o clima”, “o planeta está a morrer e os políticos só a ver” e “pum de vaca = gás metano, vamos comer vegetais”. Linda Assunção afirmou à agência Lusa que o Governo “não se manifestou” sobre a anterior greve climática, realizada em março, assinalando que os jovens “voltam a unir-se para mostrar que não estão esquecidos e que não vão desistir desta causa”.

“Somos nós que vamos sofrer no futuro as consequências”, alertou, referindo que, apesar de não terem voz “devido à idade e por a maior parte ainda não poder votar”, os jovens querem mostrar que “não se calam até que haja alguma mudança”.

Madalena Batanete e Inês Malhado, ambas da Escola Secundária Gabriel Pereira, defenderam, também em declarações à Lusa, uma mudança de políticas e advertiram que “já não há muito tempo” para o fazer.

O nosso ministro do Ambiente diz que faz muito em defesa do planeta e até acho que fez, mas ainda falta fazer muita coisa. Temos de apostar nisso e só com esta pressão é que se calhar vão fazer mais alguma coisa”, acrescentou Inês.

Os manifestantes desfilaram depois por algumas das principais ruas da cidade, culminando o protesto na praça do Sertório, junto aos Paços do Concelho.

Coimbra

Na cidade dos estudantes, as manifestações fizeram mira ao Ministro do Ambiente.  Antes de entrar no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra para participar num congresso, José Pedro Matos Fernandes tinha à sua espera cerca de uma dúzia de pessoas que se deitaram no chão, à entrada, segurando também cartazes onde podia ler: “O ar que respiras é mais valioso que o petróleo que extrais” e “A hora do planeta são todas as horas”.

“Por onde é que passamos?”, perguntou o ministro, deparando-se com os manifestantes, a maioria jovens, deitados no chão, a impedir a entrada. Confrontado pelos jornalistas, o ministro afirmou que “esta é a mais justa das lutas” e “das causas”.

O ministro vincou que as alterações climáticas não podem ser vistas apenas como uma questão das gerações futuras, mas como “uma questão desta geração e sobretudo é uma questão que esta geração tem que resolver certamente a pensar nas gerações futuras, mas também a pensar nesta geração”.

Pouco depois de conseguir entrar no Auditório da Reitoria, ouviram-se algumas pessoas a gritar “Emergência climática” e “Emergência climática já”.