“O que existe na nossa sociedade e também na polícia é um preconceito étnico.” As palavras são de Manuel Morais, um dos mais antigos sindicalistas portugueses no ativo, e estão na origem de uma polémica que levou à demissão de Morais do cargo de vice-presidente da Associação Sindical de Profissionais de Polícia (ASPP).

As afirmações foram gravadas à estação de televisão SIC há três semanas no contexto numa série sobre a comunidade negra mas apenas foram emitidas na semana do julgamento que levou à condenação de oito polícias da esquadra de Alfragide por crimes de tortura e racismo. Na entrevista à SIC, Manuel Morais acrescentou ainda que, no que diz respeito à intervenção da PSP nos bairros sociais, “é verdade que nós também não temos grandes hipóteses de chegar a um bairro e perceber quem é o marginal, quem não é o marginal”. Levando a que “esse jovem que não é marginal, de certa forma, estamos a empurrá-lo para ser porque se um indivíduo que não é mas é tratado como se fosse…”.

As reações não se fizeram esperar e gerou-se uma onda de protestos entre os colegas e ao surgimento de uma petição pública pedindo a sua demissão que teve pouco mais de 200 assinaturas.

Como oito polícias atacaram seis jovens da Cova da Moura — segundo o tribunal que os condenou

Paulo Rodrigues, presidente da ASPP, afirmou que Manuel Morais apresentou a demissão nesta segunda-feira porque “a continuidade dele podia trazer consequências graves” ao sindicato. Adiantou ainda que Manuel Morais não será substituído, uma vez que existem ainda outros dois vice-presidentes.

Paulo Rodrigues afirmou que as declarações de Morais “não refletem a posição do sindicato” mas que não lhe “causaram desconforto” e apenas considerou inoportuno o momento em que as declarações foram feitas.

Sindicalista emociona-se ao justificar demissão

Após a demissão, Manuel Morais foi convidado pela SIC para uma nova entrevista esta segunda-feira, tendo assegurado que não estava arrependido das declarações que fez, já que as mesmas foram feitas “como cidadão consciente e não como dirigente da ASPP.”

“Estava em causa uma fuga de sócios e direção não geriu isto bem, houve uma onda de indignação provocada por forças exteriores e interiores ao sindicato”. Revelou existirem colegas das forças policiais que se ligam a partidos e que exteriorizam motivações mais extremistas, “um individuo que diz que não é racista mas depois usa o Hitler como Deus e o Salazar como anjo da guarda que me diga o que é.”

Morais, orgulhando-se de ser policia e de ter pertencido a ASPP, defende-se dizendo que “nunca disse que os policias eram racistas” e apelou ao dever cívico “temos obrigação de desconstruir, não se pode olhar para o lado”, e espera que a sua situação “sirva de mote”.

Manuel Morais emocionou-se várias vezes ao longo da entrevista e assegurou que tem condições para continuar a trabalhar na PSP e a lutar por “aquilo que acredito, por uma polícia e uma sociedade melhor.”