Eis Madonna aos 60 anos (a caminho dos 61), na capa da revista do jornal The New York Times, e em entrevista a partir da sua residência em Londres. O pretexto foi o mais recente  álbum, “Madame X”, mas claro que a conversa fluiu pelo inevitável balanço, e pela fase mais recente na vida da cantora, com essa mediática escala em Portugal.

A Vanessa Grigoriadis, admite que acusou a solidão por cá, para logo afastar a crença de que tal efeito de isolamento derive do facto de se ter instalado “num castelo”, uma ideia que se propagou pouco depois da sua chegada ao país. “Não nos deixemos levar. Eu não estava num castelo”. Para a rainha da pop, aliás, a experiência em território luso nem sempre esteve ao nível de um conto de fadas. “É muito medieval e parece um lugar onde o tempo parou, parece muito fechada”, assim descreve Lisboa, destacando ainda outros aspetos da cidade. “Tem uma vibração cool, mas sentia-me muito afastada de tudo no sítio onde vivia com os meus filhos”. Madonna, provavelmente uma das mais famosas soccer moms da atualidade, resume ainda os seus dias na capital portuguesa, devolvendo uma imagem bastante prosaica, para não dizer enfadonha: “Era o FIFA, a escola dos meus filhos e pronto”. “Queria mesmo fazer amigos”, acrescenta ainda a cantora, com a interlocutora a detetar alguma timidez associada a esta confissão, entrecortada por imagens para mais tarde recordar.

A sessão para este número de junho ficou a cargo do artista francês JR, que se encarregou da imagem da estrela pop a interagir com outras fotografias suas, impressas a grandes dimensões, com assinatura de Herb Ritts, Kate Simon e Steven Meisel. A honra de ser evocado na capa ficou mesmo confiada a este último, com Madonna a surgir a espreitar por uma espécie de fenda, um “espelho da forma inteligente como Madonna construiu a sua imagem ao longo das décadas”, sublinha a publicação.

O tom prateado, continuam, visa enfatizar a justaposição da Madonna atual, a cores, enquanto espreita o clássico preto e branco da Madonna de outros tempos. Quanto ao passado recente, a cantora aborda o fracasso nas vendas do álbum que antecedeu “Madame X”, “Rebel Heart”, de 2015, admitindo mesmo que “Não há palavras que possam descrever o quão devastada fiquei”. Num desabafo, talvez imprevidente quanto baste, chega mesmo a dizer “Senti-me violada”, sem medir devidamente o peso de semelhante afirmação, nota de seguida a entrevistadora.

Sobre a sua fase em solo nacional, recorda ainda alguns episódios a que já aludiu em entrevistas anteriores, com o improviso musical em pano de fundo, os encontros inesperados com vários músicos de diferentes origens e géneros musicais e revisita os sonhos que embalaram os seus primeiros anos — “Primeiro que tudo, queria ganhar a vida. Estava farta de não ter dinheiro, mas depois queria uma canção que fosse passada na rádio. Era tudo o que pedia. Uma canção” — e admite ter recuperado parte desse espírito aberto à diversidade de influências em Portugal.

Espaço ainda ao longo da conversa para falar da idade, do envelhecimento, e de pelo menos dois nomes polémicos. Sobre a exposição, sobretudo a partir de certo momento, garante: “Não consegues vencer”. “Uma imagem do teu rabo vai trazer-te mais seguidores mas também mais detratores e vozes críticas. Ficas naquele impasse”, aponta Madonna, a fervorosa colecionadora de arte, que mantém os quadros ao nível da sua altura na imponente morada Londrina onde recebeu o jornal. Eis a predileção por nomes como Frida Kahlo, Tamara de Lempicka, Francis Bacon, Salvador Dalí, e ainda retratos de Bob Marley ou Alfred Hitchcock. Menos consensuais são Donald Trump (Madonna desmente os rumores de um antigo caso com o atual presidente dos EUA) e Harvey Weinstein, o infame produtor caído em desgraça depois do escândalo #MeToo ter rebentado.

“O Harvey pisava o risco, passava todas as fronteiras e andava sempre num flirt muito agressivo quando trabalhámos juntos. Ele era casado na altura e eu não estava interessada. Sabia que ele fez isto com uma série de outras mulheres da indústria. Todos pensávamos que o Harvey fazia aquilo porque era extremamente poderoso e bem sucedido e como toda a gente queria trabalhar com ele, tínhamos que aturar aquilo. Portanto, quando se soube o meu pensamento foi ‘até que enfim'”, recorda Madonna, cujo documentário “Truth or Dare” (1991) foi distribuído pela Miramax, a empresa que Weinstein detinha com o irmão.

Quando lhe perguntam até quando se vê a fazer música e até onde pode chegar, Madonna, a mulher que quis “dominar o mundo”, não hesita: “até à lua”.