A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), que verifica a aplicação por Teerão do acordo nuclear de 2015, confirmou esta segunda-feira que o Irão ultrapassou o limite imposto às suas reservas de urânio enriquecido, segundo um porta-voz do organismo. Este é um claro sinal para Donald Trump e para os Estados Unidos, uma demonstração de que o Irão não pretende respeitar o entendimento — que o presidente norte-americano também já abandonou.
“A agência verificou a 1 de julho que as reservas totais de urânio enriquecido ultrapassaram os 300 quilogramas” e o diretor geral da AIEA, Yukiya Amano, informou o conselho dos governadores do organismo da ONU, indicou o porta-voz numa declaração escrita pouco depois de Teerão ter anunciado que havia excedido o limite fixado.
“De acordo com informações na minha posse, o Irão ultrapassou o limite de 300 quilogramas” de urânio pouco enriquecido, declarou esta segunda-feira o chefe da diplomacia iraniana, Mohammad Javad Zarif à agência semioficial Isna.
Nem a AIEA nem Zarif precisaram para já a que nível se situam neste momento as reservas de urânio iranianas.
Num ambiente de crescente tensão entre os Estados Unidos e o Irão, esta informação pode vir a azedar ainda mais as relações diplomáticas entre os dois países.
A violação destas limitações, que previam a redução da reserva de combustível nuclear do Irão para cerca de 300 quilos, não significa que o país tenha matéria suficiente para fabricar uma bomba nuclear. Mas trata-se de um forte sinal de que o Irão está empenhado em levar a cabo uma estratégia nuclear autónoma, sem quaisquer preocupações pelos limites do acordo.
Este acordo foi assinado entre o Irão e o “grupo dos 5+1”, composto pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China – e pela Alemanha. Teerão comprometeu-se a aceitar limitações e maior vigilância internacional do seu programa nuclear em troca do levantamento das sanções internacionais.
Mas Washington retirou-se unilateralmente do pacto há cerca um ano, restaurando sanções devastadoras para a economia iraniana. Os europeus, a China e a Rússia mantêm o seu compromisso, mas até agora não têm sido capazes de permitir que o Irão beneficie das vantagens económicas com que contava devido às sanções norte-americanas.
A 8 de maio deste ano, pouco mais de um ano depois de os Estados Unidos terem anunciado a saída do acordo, Teerão anunciou que deixaria de respeitar dois dos seus compromissos no âmbito do pacto, recusando-se a limitar as suas reservas quer de água pesada quer de urânio enriquecido.
Concluído em julho de 2015 em Viena, o acordo determina que Teerão aceite limitações e maior vigilância internacional do seu programa nuclear em troca do levantamento das sanções internacionais.
O regresso das sanções norte-americanas isola quase completamente o Irão do sistema internacional e fê-lo perder a quase totalidade dos compradores do seu petróleo, asfixiando a sua economia.
À saída de uma reunião de crise dos signatários do acordo na sexta-feira, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, considerou terem sido realizados “progressos” para ajudar o país a contornar o efeito do restabelecimento de sanções norte-americanas, mas disse que os esforços ainda são “insuficientes”.
Araghchi adiantou que nesse sentido o Irão iria continuar o seu processo de retirada gradual do acordo nuclear.
“A decisão de reduzir os nossos compromissos foi tomada e continuaremos o processo até que as nossas exigências sejam atendidas”, sublinhou.