A Apple contratou empresas privadas em Espanha para ouvir e transcrever as conversas dos utilizadores de produtos da marca, revela uma investigação do El Pais. O objetivo, garantem essas organizações, é melhorar a inteligência artificial e a resposta do software. Questionados sobre se a privacidade dos clientes está em xeque, as empresas contratadas pela Apple afirmam que não: “Esses áudios não são relacionados com os usuários em qualquer momento”.

Mas essa não é a versão de antigos transcritores dessas empresas. Entrevistados pelo jornal espanhol, os ex-funcionários denunciam que “há gravações de todo o tipo”: “Há pesquisas e solicitações normais para a Siri [assistente pessoal digital da Apple] e muitas barbaridades”. É que, apesar de a Apple não associar as gravações a determinadas pessoas, também não pode garantir que as transcrições não incluem informações privadas transmitidas pelos clientes durante as chamadas.

Um desses ex-funcionários confidenciou ao El Pais que chegou a ouvir casais a fazerem sexo ou em conversas íntimas porque, por erro do sistema, “a gravação começa por acidente e [os utilizadores] não se dão conta”, explica. Mas essas situações são menos comuns, confirma: na maior parte das vezes, as gravações começam quando a Siri é ativada. Nesses casos, o objetivo dos transcritores é perceber a qualidade do som, a compreensão do sistema ao pedido do utilizador ou se havia outras conversas a acontecer em segundo plano.

A estratégia da Apple em Espanha é semelhante à que o El Pais descobriu estar a ser levada a cabo pela Google. Segundo uma outra investigação do jornal espanhol, a Google escuta as conversas privadas dos utilizadores do Google Assistant em português e em espanhol. A empresa confirmou essas escutas, explicando que 0,2% dos diálogos são ouvidos por “especialistas em linguagem” para melhorar a resposta do assistente virtual da Google. A companhia também garante que “os fragmentos de áudio não são associados às contas” de onde vêm.