A concelhia do PSD de Cascais aprovou esta quinta-feira à noite, por unanimidade dos presentes e através de voto secreto, uma moção contra a readmissão do histórico militante social-democrata António Capucho às bases do PSD. Trata-se, apurou o Observador, de um sinal político da concelhia contra o regresso de Capucho, mas que ainda não se traduz numa recusa oficial visto que o “papel formal” do pedido de admissão ainda não chegou ao partido.

António Capucho reagiu de madrugada: considerou a decisão “extemporânea”, e acusou a secção partidária de “cobardia política” por não ter aceitado ouvi-lo, em nota enviada à agência Lusa. E disse “não estranhar a decisão”, por razões que por agora prefere não adiantar.

“Como o assunto foi tornado público, e como o secretário-geral do partido teve a gentileza de nos informar do pedido de admissão, a comissão política da secção de Cascais hoje [quinta-feira] reunida deu parecer desfavorável”, afirma ao Observador o presidente da concelhia social-democrata de Cascais, Manuel Castro, confirmando que “o pedido ainda não existe formalmente” e que, quando existir, a concelhia tem 30 dias para se pronunciar.

Segundo explicou Manuel Castro, a concelhia é obrigada a pronunciar-se sobre todas as admissões e readmissões de militantes, costumando receber os pedidos na primeira semana de cada mês, e tendo depois 30 dias para se pronunciar sobre elas. O pedido de admissão de António Capucho ainda não chegou ao partido, mas a concelhia entendeu pronunciar-se na mesma dada o caráter “público” do assunto. Mesmo depois disso, o parecer obrigatório da concelhia não tem caráter vinculativo, visto que o conselho jurisdicional do partido pode recorrer.

À mesma hora em que decorria a reunião da concelhia de Cascais, Rui Rio respondia nos estúdios da SIC a uma questão sobre se o regresso de António Capucho não era uma afronta para o anterior líder do PSD. Perante a alusão da jornalista ao facto de a concelhia estar reunida para se pronunciar sobre esse regresso, Rui Rio fazia uma correção: “A concelhia não se pode pronunciar porque ainda não recebeu o papel, quando chegar, que se pronuncie”.

António Capucho salienta que o “processo entregue na sede nacional ainda não foi remetido à secção de Cascais” e acrescenta: “Ignoro os fundamentos que têm obrigatoriamente de ser invocados para a recusa da minha admissão, escolhidos de entre os que constam no regulamento aplicável, mas não vislumbro que qualquer deles seja elegível”, refere.

“E tiveram a cobardia de não me aceitar ou de não me convidar para assistir. Disponibilizei-me junto do Presidente da Concelhia para poder informar sobre as razões da minha solicitação e esclarecer qualquer dúvida e não me disseram rigorosamente nada. Sei perfeitamente o que é que eles vão dizer, tem a ver com o facto de que eu, quando não era militante do PSD, ter apoiado o PS”, disse à TSF. “Portanto, se o partido admite comunistas que chegaram a ser líderes parlamentares, esse argumento não colhe. Eu não posso ser sancionado, digamos assim, num período em que não sou militante”, acrescentou.

E não deixa de invocar os apoios, para além do de Rui Rio, que tem recebido: “Quando eu revelar os abraços que recebi de gente que tem estado desafeta do Rui Rio dizendo ‘ainda bem que regressas’, ‘bem-vindo à casa’, ‘bom filho à casa torna’, etc., vão ficar espantados, nomeadamente, estes senhores aqui de Cascais.”

O ex-vice-presidente do PSD, destaca também, à Lusa, que “nos termos do mesmo regulamento não se trata de uma decisão final, pois a recusa fundamentada seguirá para a Comissão Política Distrital e, se esta mantiver o parecer negativo, remete o processo ao Secretário-Geral e é a este que cabe decidir em definitivo sobre a admissão”.

António Capucho justifica que indicou a “secção de Cascais para a inscrição e não qualquer outra em que não tivesse qualquer dúvida sobre a emissão de parecer favorável (o que é possível nos termos do referido regulamento)” por ali residir há 70 anos.

O ex-militante e antigo vice-presidente do PSD, António Capucho, fez saber esta semana que tenciona regressar oficialmente ao partido. A informação foi confirmada pelo próprio PSD, em comunicado enviado às redações, onde dizia que a sua “nova ficha de militante” já tinha dado “entrada na sede do PSD”.

O antigo dirigente lembra também que esteve na “génese da implantação do PPD no concelho, tendo presidido a várias Comissões Políticas Concelhias em acumulação com o cargo de Secretário-Geral.

“Aqui fui militante de base ativo e porque aqui derrotei o PS nas eleições autárquicas em três eleições subsequentes, sempre com maioria absoluta”, disse.

Ao Observador, Capucho confirmou a intenção de voltar ao partido para apoiar Rui Rio. “Tenho a obrigação como amigo e apoiante de Rui Rio, com quem fiz equipa no grupo parlamentar há uns anos na liderança de Durão Barroso, de dar o meu apoio público numa luta muito difícil que ele está a liderar”, disse.

Capucho tinha sido expulso do partido em 2014, na sequência do seu apoio à lista adversária dos sociais-democratas à Câmara de Sintra em 2013, liderada por Marco Almeida, outro militante do partido que se afastou da direção nos tempos em que era liderada por Pedro Passos Coelho — e que, entretanto, foi também reintegrado.