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Tribunal

Rosa Grilo insiste na tese dos angolanos e mantém que é inocente. Juízes apontam várias contradições

Durante todo o dia, Rosa Grilo procurou convencer juízes e jurados de que nada teve a ver com a morte do marido, mas acabou por cair em várias contradições. Continua a ser ouvida na próxima semana.

Chegada de Rosa Grilo ao tribunal de Loures onde vai ser julgada com o seu amante António Joaquim, pelo homicídio de Luís Grilo

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rosa Grilo continua a negar qualquer envolvimento no homicídio do marido. Na primeira sessão do julgamento, que decorreu esta terça-feira, no tribunal de Loures, a arguida manteve a versão que já tinha apresentado no primeiro interrogatório: a de que o triatleta foi morto por angolanos que invadiram a sua casa em busca de diamantes. Rosa Grilo prestou declarações durante quase duras horas, na parte da manhã — tendo o interrogatório sido interrompido para almoço — e continuou a responder aos juízes durante a tarde. O dia não foi, ainda assim, suficiente para todo o depoimento. Rosa Grilo terá ainda de responder aos jurados — já que este é um tribunal coletivo —, ao Ministério Público e aos advogados de defesa.

Embora a sessão estivesse inicialmente marcada para as 9h15, só às 10h08 é que os suspeitos deram entrada na sala de audiências, ambos algemados. António Joaquim, vestido de fato azul escuro, e Rosa Grilo, de vestido cor de rosa, estão ambos visivelmente muito mais magros. Na sala de audiências, Rosa Grilo queixou-se do frio e vestiu um casaco preto.

A arguida disse, desde logo, que queria reiterar as suas declarações no Tribunal de Vila Franca de Xira, quando lhe foi aplicada prisão preventiva, em setembro do ano passado. A advogada, Tânia Reis, chegou a pedir que a gravação desse interrogatório fosse ouvida — o que a juíza não permitiu uma vez que o mesmo já se encontrava transcrito no processo. A presidente do coletivo de juízes quis, no entanto, fazer algumas perguntas adicionais.

A juíza Ana Clara Baptista foi, aliás, bastante insistente com algumas perguntas, justificando-se com a necessidade de clarificar alguns detalhes. Nas declarações, Rosa Grilo apresentou algumas contradições que retificou de imediato — levando a presidente do coletivo a ficar irritada.

Alguns jurados também foram fazendo expressões faciais de dúvida, dando a entender que não acreditavam na tese da arguida. Os oito jurados estão sentados numa mesa atrás da defesa: os quatro efetivos nas quatro cadeiras da frente e os suplentes nas de trás. Junto ao coletivo de juízes estão duas auditoras de justiça, face ao interesse de assistir ao tribunal de júri, segundo explicou Ana Clara Baptista antes de começar a sessão.

António Joaquim também irá prestar declarações — o que, tendo em conta o tempo que estão a demorar as declarações de Rosa Grilo, poderá já não ser esta terça-feira. “O António Joaquim vai prestar declarações e vai manter o que disse no inquérito. Está ansioso por começar a falar e está confiante na Justiça”, confirmou o advogado Ricardo Serrano Vieira à saída. Já Tânia Reis mostrou-se satisfeitas: “Está a decorrer conforme estava à espera. A minha constituinte decidiu prestar declarações. A meritíssima juiza entendeu que como estavam já transcritas as declarações, não iria proceder à reposição das declarações”.

Já se previa que, devido ao mediatismo deste processo, fossem muitos os interessados em assistir às sessões de julgamento, que são públicas.  sessão pública fosse bastante. Assim foi: pouco passava das 8h30 quando a fila à porta do tribunal de Loures, que só abre às 9h00, começou a formar-se. Muitos curiosos, amigos de ambas as famílias e até familiares estiveram presentes. A presença mais notada foi mesmo a de Américo Pina, pai de Rosa Grilo, que tem acompanhado a filha em todas as suas deslocações aos tribunais. “O pai acredita na filha. Até ao fim”, disse.

Devido, também, ao mediatismo deste caso, a juíza Ana Clara Batista limitou o espaço aos jornalistas. Fonte do tribunal de Loures confirmou ao Observador que, inicialmente, estavam previstos apenas sete lugares para jornalistas, mas que, devido à afluência, estes foram alargados para 10. No entanto, a mesma juíza não permite que ninguém dentro da sala de audiências tenha os telemóveis ligados, chegando mesmo a avaliar a utilização de computadores pelos jornalistas — que, depois, permitiu.

Antes das 9h00, começou a formar-se uma fila de pessoas que queriam assistir ao julgamento (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

À chegada, Tânia Reis, advogada de Rosa Grilo, falou aos jornalistas: “Hoje é que efetivamente começa o julgamento. Hoje, sim, começa o julgamento. Agora virão ao de cima muitas coisas que não vieram”, acrescentou. A advogada disse que a sua cliente está “ansiosa, mas tranquila” e afirmou que acredita na inocência da arguida. Tânia Reis criticou ainda o recurso ao tribunal de júri: “Não deixam de ser cidadãos que tiveram acesso a toda a informação. Alguma dela não corresponde à realidade e isso poderá ser prejudicial, eventualmente”.

Desaparecimento de Luís Grilo. 16 de julho de 2018

Já há quase um ano que Rosa Grilo e o amante, António Joaquim, estão presos. Foi no dia 29 de setembro de 2018: cerca de dois meses e meio depois de um triatleta de 50 anos — era apenas referido assim, à data — ter desaparecido na zona de Vila Franca de Xira. O caso rapidamente chamou a atenção dos meios de comunicação social — especialmente quando a 18 de julho, dois dias depois de o desaparecimento ter sido participado à GNR, o telemóvel do triatleta ter aparecido na berma de uma estrada e a investigação ter passado para a Polícia Judiciária.

Rosa Grilo, Luís Grilo e António Joaquim. Estes três nomes tornaram-se conhecidos e viriam a ficar associados a um dos crimes mais mediáticos de 2018: Luís é a vítima; Rosa e António são os suspeitos. Esta terça-feira, os dois voltaram a encontrar-se num tribunal, desta vez o de Loures, onde começaram a ser julgados — por juízes e jurados — pelos crimes de homicídio qualificado, profanação de cadáver e posse de arma proibida.

De há um ano para cá, os detalhes da investigação foram sendo revelados a conta gotas, ao mesmo tempo que Rosa Grilo apresentava a sua versão a história: o marido tinha sido assassinado por angolanos que tinham invadido a casa em busca de diamantes. António Joaquim diz apenas que não sabe o que aconteceu. A 25 de março, o Ministério Público deduziu a acusação e levantou o véu a mais alguns detalhes de como o crime teria sido cometido. Os arguidos continuaram a defender a sua inocência.

Luís Grilo foi morto pela mulher e pelo amante ou vítima de um negócio de diamantes? É entre as duas versões que o tribunal começa a trabalhar esta terça-feira.

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