Dois smartphones topo de gama, um smartwatch e uma televisão. Durante a tarde desta quinta-feira, foi isto que a Huawei apresentou em Munique, na Alemanha. Apesar das notícias recentes —  a Huawei está numa “lista negra” dos EUA e, se tudo continuar como está, vai ficar proibida de negociar com empresas como o Facebook ou a Google –, não houve referências ao embargo norte-americano nem certezas quanto à forma como os utilizadores poderão desfrutar do sistema operativo do novo Mate 30 e Mate 30 Pro. Por enquanto, sabe-se que têm por base o Android, da Google, e que não vêm com as apps ou serviços da gigante norte-americana já instaladas, mas não foram adiantados mais detalhes sobre as alterativas ou modos de funcionamento.

Se quiser rever a apresentação, clique no vídeo abaixo.

Richard Yu, o presidente executivo da Huawei Consumer BG, começou por afirmar que a marca cresceu nas vendas de todos os segmentos de produtos desde janeiro e que o Mate 20, o último smartphone da gama Mate, vendeu “16 milhões de unidades”, realçando as qualidades da câmara fotográficas. Depois dos auto-elogios introdutórios, deu a primeira novidade: o Mate X, o primeiro smarphone dobrável da Huawei vai ser vendido na China já em outubro. Houve tempo para novos relógios e novidades sobre a loja de aplicações da empresa, mas o foco principal foram os smartphones Mate 30 e Mate 30 Pro.

Há perguntas que ficaram o ar. Como vão poder — se é que vão poder — os consumidores instalar aplicações da Google nos novos smartphones da Huawei? Ou: quando é que estes equipamentos vão chegar ao mercado? O smartphone pode vir a receber o sistema operativo próprio da Huawei? Ao Observador, a Huawei esclareceu mais detalhadamente alguns destes pontos. “O Android é o sistema operativo de eleição para os nossos smartphones”, mas que — por agora — não tem Google, mas já lá vamos. Primeiro, a gama Mate 30.

Quais são os novos smartphones da Huawei que mantém um Android base, mas sem apps da Google?

A Huawei apresentou no evento o EMUI 10, o sistema operativo que construiu por cima de uma versão aberta do Android 10, da Google. Como é que faz isto estando sob um embargo que não deixa a empresa negociar com a Google? Pouco ainda foi explicado. Contudo, a versão da Huawei baseada no Android traz a maioria das novas funcionalidades do sistema operativo móvel da Google. Como tem sido noticiado, é possível que a marca esteja a utilizar apenas a versão base do Android. Ou seja, não vem instalado com aplicações como a loja de apps da Google, o Gmail ou o Google Maps, ficando o consumidor dependente da loja de aplicações interna da Huawei (as imagens dos smartphones mostradas no evento não mostram nenhuma aplicação da Google).

A principal característica da nova série Mate continua a câmara fotográfica traseira

Apesar de utilizar como base a versão livre do Android, o EMUI 10 tem especificações próprias da gigante chinesa. Entre as principais novidades está um sistema que permite seguir a cara do utilizador e dar ordens ao smartphone com gestos. Ou seja, mexer no telemóvel sem tocar no ecrã e este sabe sempre qual é a posição da cara.

Os smartphones Mate 30 e Mate 30 Pro têm ecrãs de 6,62 e 6,53 polegadas, respetivamente. Já a bateria, tem grande autonomia: 4200 miliamperes e 4500 miliampéres. O design mantém a tendência introduzida com o Mate 20 e utiliza um entalhe — “notch” — que têm uma câmara para selfies com três lentes (para um efeito 3D nas fotografias). Há ainda dois sensores para gestos e para reconhecer a luz ambiente.

O Mate 30 Pro tem um ecrã de canto a canto com um entalhe à semelhança do Mate 20 (no P30 Pro é mais pequeno)

Há outras novidades, como a ausência de botões físicos laterais para volume. Como vai funcionar? O ecrã inclinado tátil permite controlar de lado estas funcionalidades. Quanto à resistência, a Huawei afirma que os novos equipamentos cumprem os requisitos máximos no mercado, tendo certificado IP68. Quanto à velocidade, os equipamentos utilizam o processador kirin 990 5g, apresentado na IFA. Segundo a marca, a performance é bastante superior à dos modelos anteriores, que já eram dos mais rápidos. Ao todo, há 21 antenas nestes equipamentos para garantir que a cobertura de rede é sempre fiável — seja em 4G, ou em 5G (a próxima infraestrutura de rede).

A Huawei afirma que este é “o entalhe [notch] mais sofisticado]”

Na traseira do equipamento há quatro lentes Leica que faz a Huawei prometer que estes vão ser os melhores smartphones para fotografias. Este continua a ser um campeonato em que a empresa chinesa quer distinguir-se. Com a câmara melhorada, que permite zoom até 10 vezes e um modo que possibilita tirar fotografias em ambientes bastante escuros, os Mate 30 parecem ser uma melhoria em relação aos modelos Mate 20, mas semelhantes aos P30. Contudo, com um processador mais avançado.

Um dos principais focos da apresentação foram as características do vídeo dos equipamentos: 4K, muitos frames por segundos e possibilidade de filmar em câmara lenta. Com os Mate 30, a Huawei quer continuar a tentar destacar-se da concorrência. À semelhança dos outros eventos não faltaram comparações diretas a modelos das Samsung, como o Note 10+, ou da Apple, como o iPhone 11 Pro Max.

Os novos Mate 30 não vão ter pré-instaladas as aplicações da Google

Relativamente a cores, há seis, incluindo uma versão com “cabedal vegan”. Os equipamentos vão manter funcionalidades como o carregamento sem fios e a possibilidade de os próprios dispositivos serem um carregador sem fios. O Mate 30 vai custar 799 euros, o Mate 30 Pro custa 1.099 euros, concorrendo nos preços diretamente com os iPhone 11 e e o 11 Pro, anunciados na semana passada. A versão do Mate 30 Pro com 5G custa 1.199 euros.

Os novos equipamentos Mate 30 ainda não têm data de lançamento. A empresa afirmou no evento que está a investir mil milhões de dólares no serviço de aplicações “Huawei Mobile Services (HMS)” que, para já, conta com 45 mil aplicações. Sem apps da Google e com um HMS em desenvolvimento, espera-se, para já, que o equipamento saia “em 2019”. Ou seja, quando, em novembro, a questão do embargo com os EUA já tiver uma resposta definitiva.

“Vamos disponibilizar a Huawei Mobile Services (…) como solução alternativa à Google”

Ao Observador, a empresa explicou que o sistema operativo da nova gama Mate 30 “utilizará a versão mais recente do EMUI, a EMUI10, baseado em Android open source [de acesso aberto]”.

Criámos um dos melhores smartphones do mundo e os consumidores vão adorar o hardware e o software oferecidos na série Mate 30. Temos estado a trabalhar com os nossos parceiros e as nossas equipas internas de software para garantir que a experiência seja tão consistente com os nossos equipamentos anteriores o quanto possível. A nova Série Mate 30 vai utilizar a versão open source do Android, pois o Android é o sistema operativo de eleição para os nossos smartphones. Vamos disponibilizar a Huawei Mobile Services, na qual se insere a nossa Huawei AppGallery como solução alternativa à Google Mobile Services”, diz a Huawei

Quanto a poder descarregar para o telemóvel aplicações da Google, a Huawei é pouco clara e diz: “Os consumidores poderão continuar a descarregar gratuitamente as aplicações que desejam da Huawei App Gallery ou de qualquer outro lugar na Internet”. Isto pode significar que o utilizador pode instalar aplicações da Google. Contudo, não será de uma maneira fácil. Como diz a empresa: “Há muitas escolhas para os consumidores no que toca a que apps que usam no seu dia a dia, incluindo uma variedade de serviços de mapas, email e conteúdos de vídeo. Adicionalmente, os consumidores são livres de descarregar online qualquer app que desejem”.

Relativamente ao HarmonyOS, o sistema operativo que a Huawei tem estado a desenvolver e que pode vir a substituir o Android, a empresa diz apenas que “continua a trabalhar” neste sistema.

Além de um novo smartwatch, a Huawei quer vender também televisões

Num evento sem pontos altos, a gigante tecnológica chinesa apresentou ainda, à semelhança de outras apresentações, duas modelos dos Mate 30 mais caro mas com design “Porsche”, um smartwatch — o Watch GT 2 — e uma televisão. Depois de ter apresentado a Honor Vision, em agosto, a gigante chinesa anunciou agora a Huawei Vision. Este televisor 4K vai estar disponível em vários tamanhos — 55, 65 e 75 polegadas — e utiliza um software próprio da empresa para ser controlado.

Não há informação sobre se as televisões da Huawei vão ser vendidas em Portugal. Já o relógio Watch GT 46mm e 42mm vão ficar disponíveis em outubro e novembro, respetivamente.

A Huawei anunciou recentemente que vai lançar o seu próprio sistema operativo, que poderá vir a concorrer com o Android (utilizado como base destes smartphones). A medida foi encarada como um dos planos da Huawei para mostrar que pode não vir a depender tanto de empresas norte-americanas. Apesar de já se saber o nome deste sistema operativo, este pode não ser, para já, utilizado nos topos de gama da empresa. Recentemente, na IFA, a maior feira de tecnologia da Europa, a empresa mostrou uma nova versão de um dos smartphones P30 e afirmou que ainda iria utilizar como base o software da Google.

Com o prolongamento da suspensão do embargo até novembro, as empresas norte-americanas podem continuar a negociar com a tecnológica chinesa. Contudo, será apenas até novembro — o que pode ser entendido como um passo intermédio para mudar o rumo do conflito económico. Mas, mesmo com prorrogação, a Huawei pode ficar definitivamente impedida de negociar com a empresas dos EUA. Porquê? Segundo os EUA a empresa é “uma ameaça” e utiliza os seus produtos para espiar para o governo chinês, algo que a Huawei tem negado veemente.

Em 2018, a Huawei gastou cerca de 10 mil milhões de euros a comprar componentes a empresas norte-americanas. A empresa chinesa depende de ligação a empresas dos EUA para continuar a fabricar produtos como tem feito até à data. Além do software Android, a tecnológica precisa de utilizar chips e ter licenças para fabricar vários dos produtos.

*Artigo atualizado às 19h28 com declarações da Huawei.