A um mês das eleições intercalares, os candidatos do Partido Democrata ganham força e estão já em vantagem ou empatados em cinco estados tradicionalmente republicanos, que poderão ser decisivos para o controlo do Senado, de acordo com novas sondagens divulgadas este sábado pelo New York Times. Os democratas lideram já as corridas para o Senado no Texas e no Alasca, têm uma pequena vantagem no Ohio, estão empatados com os republicanos no Kansas (um estado que não elege um senador democrata há quase 100 anos) e aproximaram-se no estado do Iowa.
Segundo as sondagens, a elevada impopularidade do presidente Donald Trump, a discordância com a guerra contra o Irão e a frustração com os altos preços do combustível e o custo de vida estão a consolidar o avanço dos candidatos democratas, o que faz aumentar a probabilidade de os republicanos perderem o controlo de ambas as câmaras do Congresso — o que representaria um duro golpe para a segunda metade do mandato de Trump.
No que diz respeito ao Senado, que o Partido Republicano considerava seguro antes do início da guerra contra o Irão, os democratas precisam de conquistar quatro cadeiras aos republicanos e manter as que têm atualmente, uma tarefa considerada difícil mas que ganha cada vez mais força.
Ken Paxton, aliado de Trump, está seis pontos atrás no Texas
No Texas, o congressista estadual James Talarico já lidera a corrida para o Senado com uma vantagem de seis pontos percentuais frente ao republicano Ken Paxton, o procurador-geral do Texas, que se tem visto sucessivamente envolvido em polémicas nos últimos anos (nomeadamente quando tentou anular resultados eleitorais em vários estados para tentar impedir a vitória de Joe Biden em 2020 ou quando enfrentou um processo de destituição — impeachment — em 2023, por suspeitas de corrupção). 45% dos inquiridos pelo NYT dizem que os seus escândalos passados, incluindo o processo de impeachment e um divórcio conturbado, os levam a não apoiar Paxton de forma alguma.
A campanha no Texas tem sido marcada, nos últimos dias, por trocas de acusações entre os dois candidatos. Ken Paxton acusou o adversário de apoiar cirurgias de mudança de sexo em crianças e de ser membro do Partido Comunista Chinês. “Não, eu não sou membro do Partido Comunista Chinês. Não, eu não apoio cirurgias de mudança de sexo para crianças”, apressou-se a desmentir James Talarico, acusando Paxton de usar vídeos com Inteligência Artificial para “mentir”.
▲ Trump numa ação de apoio a Ken Paxton, no Texas
Getty Images
Um dos temas que tem dominado a campanha é a batalha judicial, que envolve as duas candidaturas, em torno da divulgação de depoimentos feitos pelo procurador-geral do Texas sobre o seu envolvimento num esquema de fraude com ativos imobiliários. A campanha de Paxton defende que os depoimentos, feitos sob juramento, não podem ser divulgados publicamente. Ao Texas Tribune, a porta-voz da campanha de Paxton, Madison Cercy, disse que o esforço de Talarico para tornar públicos os depoimentos era “nada mais do que uma tentativa desesperada de esconder o seu próprio extremismo”.
Uma eventual derrota de Paxton no Texas — um estado fortemente republicano — representaria uma derrota para Donald Trump, que tem demonstrado forte apoio ao candidato na corrida ao Senado, um apoiante de longa data.
Trump tenta ‘virar o jogo’ no Alasca, com senador republicano em dificuldades
No Alasca, a ex-congressista Mary Peltola, do Partido Democrata, está à frente do senador republicano Dan S. Sullivan (que tenta a reeleição) por uns expressivos sete pontos percentuais, mostra a sondagem do New York Times em conjunto com a Universidade de Siena, em Albany.
A vantagem de Peltola (uma democrata da ala moderada do partido) não é uma surpresa: a candidata já tinha ficado sete pontos à frente de Sullivan nas primárias realizadas em agosto — o estado do Alasca tem um sistema eleitoral diferente, em que os candidatos ao Senado são escolhidos através de primárias e têm de ser ordenados no dia da eleição, a 3 de novembro. No boletim de voto, estarão ainda outros dois candidatos, sem hipóteses de vencer: Dan Sullivan Jr., que tem o mesmo nome do senador incumbente; e Gerald Heikes, um democrata.
▲ A ex-congressista Mary Peltola pode ser eleita senadora pelo Alasca. Tem como adversário o senador incumbente, o republicano Dan S. Sullivan
TNS
Vendo outro aliado em dificuldades (num estado em que venceu por uma margem confortável de 14 pontos nas presidenciais de 2024), Donald Trump tenta ‘virar o jogo’. Esta quarta-feira, o Presidente dos EUA anunciou que a Coreia do Sul vai investir 54 mil milhões de dólares (cerca de 47 mil milhões de euros) na construção de um gasoduto para transporte de Gás Natural Liquefeito no Alasca. Isto embora o projeto ainda não esteja totalmente assegurado, ressalva a Reuters. Nas próximas semanas, Trump planeia viajar até ao estado, para apoiar o senador republicano Dan Sullivan.
No entanto, as características de Peltola podem favorecer a candidata democrata. Filha de mãe yup’ik, povo indígena do Alasca, é vista como uma acérrima defensora dos interesses do povo do Alasca. Quer acabar com a pesca de arrasto de forma a proteger os pescadores locais, sendo o lema de campanha “Peixe, Família e Liberdade”. Defende ainda a exploração das reservas de petróleo do estado, de forma a baixar o preço da energia. Para mostrar que se quer distanciar da política de Washington, Peltola recusou o apoio da última candidata presidencial democrata, Kamala Harris. O estado do Alasca não elege um senador democrata desde 2009.
Também surpreendente é a vantagem do democrata Sherrod Brown noutro estado republicano, o Ohio. O ex-senador, que quer voltar a Washington, está três pontos à frente do incumbente (o senador republicano Jon Husted, que tenta ser reeleito) na sondagem do NYT. Quando questionados sobre quem representaria melhor o estado em questões como tarifas, custo de vida, assistência médica, centros de dados ou eficácia, os inquiridos colocam Sherrod Brown à frente em todos os pontos.
No Kansas, um dos estados mais ‘vermelhos do país’ (e que não elege um senador democrata desde 1932), a reeleição do senador Roger Marshall pode estar em risco. A sondagem do NYT aponta para um empate entre o médico ginecologista e obstetra e o candidato democrata, Adam Hamilton. A proximidade de Marshall a Trump é um fator negativo para o senador, com metade dos eleitores a referir temer que Marshall apoie demais o Presidente norte-americano.
Senador republicano do Kansas tem reeleição em risco. Estado não elege um democrata há 94 anos
Para além disso, o senador foi apanhado numa polémica em setembro, que se tornou um tema central da campanha, depois de uma investigação jornalística ter revelado que Marshall avançou com processos contra mais de 700 pacientes por dívidas em atraso, o que levou à prisão de pelo menos 81 deles. Noutros casos, o senador instruiu os advogados a pedir a penhora de salários de pacientes que não pagaram operações e outros procedimentos médicos, bem como partos. A maioria das mulheres que tinham acabado de ser mães morava no Condado de Barton, uma área rural do estado com taxas de pobreza e de pessoas sem seguro saúde acima da média. O caso é particularmente relevante, uma vez que o senador exaltava frequentemente o trabalho realizado enquanto médico como trunfo de campanha.
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Com a reeleição em risco, o Senate Leadership Fund, o principal grupo de apoio aos republicanos no Senado, decidiu intervir e esta sexta-feira anunciou um investimento superior a 8 milhões de dólares (7,1 milhões de euros) em anúncios para apoiar Roger Marshall.
No Iowa, outro estado do Midwest fortemente atingido pelas consequências da política económica de Trump, a congressista Ashley Hinson, candidata republicana, tem uma vantagem de apenas um ponto percentual sobre o congressista estadual democrata Josh Turek. Segundo uma outra sondagem neste estado, divulgada pela Fox, os independentes preferem Turek por uma margem de dois para um, o que pode decidir a eleição.
A balança parece estar definitivamente a inclinar-se para o Partido Democrata. No conjunto dos cinco estados, cerca de metade dos eleitores — 49% — dizem querer um candidato que possa contrabalançar o Presidente dos EUA, sendo que apenas 27% afirmam preferir candidatos que apoiem Trump, o que favorece os democratas. Por outro lado, os democratas levam claramente vantagem entre os eleitores independentes, que muitas vezes decidem as eleições. Nos cinco estados analisados, os democratas têm uma vantagem de 24 pontos percentuais nesse grupo. É também no Partido Democrata que os eleitores dos cinco estados analisados depositam mais confiança para lidar com o custo de vida, o tema que mais preocupa os norte-americanos.