“Esta deve ser uma das conferências da IFA mais antecipadas de sempre”, disse, ao entrar no palco, Jens Heithcker, responsável pela maior feira de tecnologia e eletrónica de consumo do mundo. O presidente executivo da Huawei Consumer BG (a empresa da Huawei para mobile e mercado de consumo), Richard Yu, foi o primeiro orador convidado na IFA, que está a decorrer em Berlim, e Heithcker tinha como função introduzi-lo. Yu subiu a palco num dos momentos mais difíceis da empresa (a Huawei está numa “lista negra” norte-americana e proibida de negociar com outros gigantes da tecnologia, como a Google, a Intel, a Qualcomm ou o Facebook) e o auditório estava cheio apara ouvi-lo. Com o futuro dos seus smartphones em risco, falou como se nada de especial estivesse a acontecer.

O tema da guerra comercial que opõe os EUA à China foi, obviamente, falado, mas por Jens Heithcker. O alemão começou o evento por lembrar os tempos que se viveram antes da queda do muro de Berlim e do papel da rádio, que podia ser ouvida ilicitamente no lado leste para muitos alemães poderem ouvir “notícias livres e sem interesses”.

“Vivemos num mundo separado entre notícias verdadeiras e falsas”, disse relembrando o papel do jornalismo isento. “Não vou escolher lados nem dizer o que está certo”, disse, referindo-se à guerra comercial. E antes de receber Yu no palco fez questão de dizer que, no final, tudo o que está a acontecer “afeta os consumidores”.

Mas se não houve nada sobre o embargo, o que houve? Novos produtos, como nos outros anos, e “business as usual

Yu entrou em palco e parecia que tínhamos regressado a 2018. Há um novo processador, o Kirin 990, que vai estar presente no Mate 30 e novos produtos, como o smartphone que é uma nova versão do P30 Pro. Além disso, divulgou o processador Kirin A1, um chip com conector bluetooth que vai ser usado nos novos wearables (tecnologia que se veste) da empresa. Richard Yu chegou a comparar o A1 ao processador H1 da Apple, que é usado nos airpods, mostrando ser mais rápido.

Em mais uma hora de conferência, ainda houve tempo ainda para apresentar os FreeBuds 3, a nova versão dos auriculares sem fios da Huawei com um design bastante semelhante ao Airpods, os auriculares sem fios da Apple. Têm novas funcionalidades, como cancelamento de ruído e uma tecnologia que, segundo a empresa, permite reduzir o som se estiver a falar numa zona ventosa ou a andar de bicicleta.

Para o fim da apresentação ficou a divulgação de um novo smartphone P30 Pro, que vem com as apps da Google. À semelhança do P30 Pro, o dispositivo promete continuar a ser o melhor do mercado no que toca à qualidade da câmara fotográfica. E ficou a promessa: o equipamento vai ter o sistema operativo Android 10 com EMUI — a versão até agora utilizada pela Huawei, que recorre ao software da Google mas incluem algumas modificações próprias (outras marcas fazem o mesmo, como a Samsung ou a Xiaomi). Vai estar disponível a 20 de setembro.

Em suma, foi “business as usual” [negócios como sempre], mas continuámos sem saber como podem funcionar futuras atualizações do Android. Para já, parece que o equipamento vem com todas as funcionalidades do Android e apps instaladas, o que não deverá acontecer com o próximo Mate 30.

Quanto à gama P30, lançada antes de ter sido oficialmente barrada pelo executivo norte-americano, o responsável da gigante chinesa disse que a empresa subiu as vendas em 50% no mundo e gabou os resultados os P30, o último topo de gama da empresa que foi amplamente aclamado pela crítica.

“Criámos um novo paradigma para a fotografia”, afirmou. Também à semelhança de 2018, apresentou novas cores para o modelos P30 e brincou com a Samsung por, este ano, ter cores mais extravagantes (com vários gradientes) à semelhança do que a Huawei apresentou em 2018.

“Utilizamos a inteligência artificial para muitas coisas”, lembrou ainda Yu ao apresentar os vários lançamentos de software e hardware que nos últimos anos tem apresentado na IFA. Sobre o 5G, diz “que está a chegar” ao falar do o novo Kirin 990 5G. “É mais pequeno do que a minha unha”, disse. Supostamente, o chip permite conectar a redes 5G e 4G, sem ser necessário ter mais do que um processador. É maior do que os chips 5G da concorrência, mas um pouco mais pequeno do que um chip 5G e 4G junto. É mais rápido e tem mais facilidade em aceder às redes 5G e consome menos energia.

A Huawei divulgou também nesta edição da IFA, à semelhança do último ano, um novo router Wi-Fi que promete melhor conectividade e, através dos cabos elétricos, permite transmitir melhor a internet sem fios numa casa.

Os negócios não têm estado fáceis para a Huawei. Mesmo com a suspensão em vigor, o futuro da empresa continua incerto. Ao não poder negociar com tecnológicas como a Google ou a Intel, o negócio da venda de smartphones e os contratos de vendas de componentes e antenas que tem em vários países podem estar ameaçados. Tudo porque os EUA afirmam que a Huawei utiliza as suas tecnologias para espiar a favor do governo chinês, algo que a empresa tem negado veementemente. Donald Trump, presidente dos EUA, tem afirmado que, mesmo que exista um acordo comercial com a China, a Huawei vai estar de fora por “motivos de segurança nacional”.

A Huawei anunciou recentemente que vai lançar o seu próprio sistema operativo, que poderá vir a concorrer com o Android, que é utilizado como base dos smartphones da empresa, uma medida que foi encarada como um dos planos da Huawei para mostrar que pode não vir a depender tanto de empresas norte-americanas.

Com o prolongamento da suspensão do embargo até novembro, as empresas norte-americanas podem continuar a negociar com a tecnológica chinesa. Contudo, será apenas até novembro, o que pode ser entendido como um passo intermédio que pode mudar o rumo do conflito económico. Mas, com a linguagem do comunicado do governo americano, e mesmo com prorrogação, a Huawei pode ficar definitivamente impedida de negociar com a empresas dos EUA.

Em 2018, a Huawei gastou cerca de 10 mil milhões de euros a comprar componentes a empresas norte-americanas. A empresa chinesa depende de ligação a empresas dos EUA para continuar a fabricar produtos como tem feito até à data. Além do software Android, a tecnológica precisa de utilizar chips e ter licenças para fabricar vários dos produtos.

*O Observador está na IFA, em Berlim, a convite da Sony.