O encontro entre PS e Bloco de Esquerda para estudar a hipótese de um acordo à esquerda, em 2015, “não foi conclusivo” e “não havia um mandato negocial” dado a Fernando Medina: “Quem negociou foi, depois, António Costa”. É o próprio Fernando Medina quem o conta ao Observador, lamentando mesmo, em tom irónico, não pode reclamar esses louros: “Gostava de poder dizer que essa reunião teve outra importância, mas não foi de forma alguma a cimeira fundadora da geringonça”.

Fernando Medina descreve desta forma a reunião que teve com Francisco Louçã e Jorge Costa, ambos em representação do Bloco de Esquerda, na manhã das eleições de 4 de outubro. A mesma reunião que Catarina Martins descreve como tendo sido o momento que deu a certeza a António Costa, na noite eleitoral, sobre a disponibilidade do Bloco para negociar. “Nessa noite, quando se abriram os votos, Costa e eu sabíamos que era possível abrir negociações formais para um acordo”, disse num artigo publicado no site do Expresso numa altura em que a génese da “geringonça” tomou a campanha eleitoral, com Catarina Martins a acusar António Costa de estar a tentar “reescrever a história” quando subalterniza o Bloco na solução de Governo que se manteve nos últimos quatro anos.

No frente-a-frente com Rui Rio, na segunda-feira, o líder socialista disse que o Bloco tinha ido “atrás” do PCP , com a resposta de Catarina Martins a chegar horas depois, no debate a sei, falando numa reunião no dia das eleições de 2015, “informal” mas conclusiva: “À noite sabíamos que tinham aceitado negociar as pensões”, lembrou no debate.

Debate a seis. Assunção Cristas e Catarina Martins ao ataque a Costa. “Não me estique o dedinho”

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Essa reunião entre as duas partes foi a primeira daquele período político em que se vivia a incerteza do dia seguinte às eleições. Nos resultados eleitorais cabiam vários cenários, incluindo o de uma maioria de esquerda no Parlamento, sem que o PS tivesse sido a força mais votada — o que veio a verificar-se. Um ambiente que levou António Costa a estabelecer alguns contactos no período pré-eleitoral, sendo já sabido que as conversas informais com o PCP decorreram durante essa pré-campanha. No caso do Bloco, a primeira conversa foi referida pelos dirigentes do BE e agora também do PS, seguiu-se a um telefonema entre Francisco Louçã e António Costa, no sábado, dia de reflexão.

Foi nesse dia que socialistas e bloquistas combinaram encontrar-se na manhã seguinte, no Picoas Plaza, e Costa enviou Medina em seu nome. O socialista acertou os detalhes do encontro com Louçã e garante que a conversa foi “exploratória”. O termo é o mesmo que Catarina Martins usa para classificar a mesma reunião. Mas ao contrário da líder do Bloco, o Presidente da Câmara de Lisboa garante que “a reunião não foi, de forma alguma, conclusiva”. 

Aliás, de acordo com várias fontes socialistas contactadas pelo Observador esta terça-feira, depois da reunião, no PS ficou mesmo a ideia de que o Bloco de Esquerda não estava disponível para avançar com conversações mais profundas, já que não tinha dado respostas concretas sobre como se iriam cumprir as metas orçamentais e da dívida, por exemplo. E essa era a principal dúvida que o PS tinha sobre o partido que. até ali, tinha sempre mantido declarações de oposição às regras inscritas nos tratados europeus.

Fernando Medina não levou nenhuma resposta “conclusiva” a António Costa. E segundo apurou o Observador, na noite das eleições, perante um resultado eleitoral que dava uma diferença significativa do PS face à coligação PSD/CDS, os socialistas contactaram dirigentes do Bloco dando conta da impossibilidade de se avançar com qualquer proposta de solução de Governo alternativo. O mesmo contacto foi feito junto do PCP.

Nessa noite de decisivas declarações políticas, foram as palavras de Francisco Lopes, dirigente comunista, que fizeram travar o pessimismo dos socialistas. E, num segundo momento, as de Jerónimo de Sousa. O primeiro porque deixou logo um aviso à coligação PSD/CDS e a Cavaco Silva: A direita “perde a possibilidade de formar governo, a menos que haja da parte do Presidente da República uma entorse dos resultados eleitorais”. E o segundo porque declarou que o PS tinha “condições para formar Governo”.

Entre os dois comunistas, falou Catarina Martins, a partir do Cinema São Jorge onde o Bloco seguia a noite eleitoral. Nessa altura o que sabia do PS era que António Costa considerava não estar em condições para apresentar uma alternativa. A sua declaração, nesse momento, foi mais dúbia: “Se a direita, como tudo indica, não tiver maioria, fique claro que não será pelo Bloco que conseguirá formar Governo”. O BE apresentava-se um passo atrás do PCP, do ponto de vista dos socialistas, já que Jerónimo nessa mesma noite afirmou que o PS “só não forma Governo se não quiser”.