O Presidente da República agradeceu, “em nome de todos os portugueses”, o “serviço” de Diogo Freitas do Amaral “a Portugal”. Marcelo Rebelo de Sousa relembrou o fundador do CDS, numa comunicação ao país feita na noite desta quinta-feira, como “um dos pais fundadores da nossa democracia” — “O último a deixar-nos”.

Serviu Portugal como um dos pais fundadores da nossa democracia partidária em 74, o último a deixar-nos. Serviu Portugal, contribuindo de forma decisiva para a integração de direita portuguesa na democracia. Serviu Portugal, na primeira revisão da Constituição e na elaboração de leis estruturantes do regime. Serviu Portugal no mundo como ministro da Defesa Nacional, como chefe da nossa diplomacia por duas vezes. E, também, como presidente dos democratas cristãos europeus e como presidente da assembleia-geral das Nações Unidas”, disse.

O Presidente da República agradeceu ainda a Freitas do Amaral pelo serviço “através do seu ensino, na formação, da pedagogia cívica com o seu espírito” — que descreve como “aberto”, independente”. Marcelo considerou o fundador do CDS um “homem livre, totalmente livre e corajoso”. “Em nome de todos os portugueses, aqui lhe agradeço hoje o serviço a Portugal”, disse.

Marcelo já tinha manifestado, no site da presidência “o mais fundo pesar” pelo falecimento de Diogo Freitas do Amaral, salientando a “rica experiência parlamentar e governativa” e a “excelência cívica” do ex-ministro. Marcelo Rebelo de Sousa diz que “perdeu um grande amigo pessoal de meio século”. O Governo já decretou luto nacional para o dia do funeral do fundador do CDS.

“O Presidente da República manifesta o seu mais fundo pesar pelo falecimento de Diogo Freitas do Amaral, um dos quatro Pais Fundadores do sistema político-partidário democrático em Portugal, como Presidente do Centro Democrático e Social (CDS)”, escreveu o chefe de Estado, sublinhando que “a Diogo Freitas do Amaral deve a Democracia portuguesa o ter conquistado para a direita um espaço de existência próprio no regime político nascente, apesar das suas tantas vezes afirmadas convicções centristas”.

[Fica para história da política do país. As memórias e frases de Freitas do Amaral]

Marcelo frisa também o papel de Freitas do Amaral na primeira revisão constitucional e em diplomas, como a Lei da Defesa Nacional e das Forças Armadas, a Lei Orgânica do Tribunal Constitucional, o Código do Procedimento Administrativo e parte apreciável da legislação do Contencioso Administrativo e da Organização Administrativa.

“Deve, como testemunho de excelência cívica, a sua participação na mais notável e disputada eleição presidencial em Democracia, e na qual avultaram os dois competidores da segunda volta, ambos Pais fundadores do regime e ambos potenciais primeiros Presidentes da República civil”, aponta Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente salienta a “vida devotada à Educação” e “tão admirada vocação pedagógica”.

Juntando uma cuidadosa formação pessoal a uma inteligência seletiva, meticulosamente estruturada e de rara clareza na sua expressão, unindo preocupação de rigor concetual com atenção à realidade, dotado de um trato inexcedível e de uma leal constância a um grupo de amigos, colegas de Escola ou de vida, acabaria por ser sempre um Homem solitário, por causa da sua visceral independência, da sua aversão a prisões de pensamento, da sua descoberta feita ao longo de décadas de que havia mais mundos do que aquele ou aqueles que haviam marcado a sua juventude e o seu protagonismo primeiro na jovem Democracia portuguesa”.

“Tendo sido visto como um jovem com prematura feição de senador, nos anos 70 e 80, viveria depois, nas duas décadas seguintes, e deixar-nos-ia como um senador ainda com feição de jovem, nos seus sonhos e no seu deleite de viver cada dia”.

Marcelo Rebelo de Sousa diz que perdeu “um grande amigo pessoal de meio século” e apresenta à família de Freitas do Amaral “a expressão de grande saudade, mas, sobretudo, da gratidão nacional para o que foi o papel histórico de ter sido aquele dos Pais Fundadores a integrar a direita conservadora portuguesa na Democracia constitucionalizada em 1976”.

Governo decreta luto nacional. “Enorme vazio”, cita António Costa

O Governo decretou, em Conselho de Ministros, luto nacional para o dia do funeral de Freitas Amaral, no próximo sábado, dia 5 de outubro. Em comunicado, o Conselho de Ministros refere que “Diogo Freitas do Amaral foi um político e académico de primeira linha. Democrata cristão convicto, estadista e patriota, foi um dos fundadores do regime democrático, tendo sempre encarado a causa pública como uma missão desligada de sectarismos”. Freitas do Amaral destacou-se “enquanto académico e homem de cultura”. “Será para sempre lembrado como uma referência incontornável na área do Direito Administrativo, deixando uma vasta obra que por décadas marcou e continuará a marcar a formação jurídica.”

Pouco após a divulgação da notícia da morte de Freitas do Amaral, o gabinete do primeiro-ministro divulgou um comunicado: “Acabou de falecer um dos fundadores do nosso regime democrático. À memória do professor Freitas do Amaral, ilustre académico e distinto Estadista, curvamo-nos em sua homenagem (…) Apresentamos à sua família, amigos e admiradores as nossas sentidas condolências.”

 A título pessoal, e como seu antigo colega de Governo, não posso deixar de recordar o muito que aprendi com o seu saber jurídico, a sua experiência e lucidez política e o seu elevado sentido de Estado e cultura democrática, que sempre praticou”, refere o primeiro-ministro, em comunicado.

O primeiro-ministro, António Costa, declarou nesta quinta-feira que sente “um enorme vazio” na sequência da morte de Freitas do Amaral. “Tive o privilégio de ser seu colega de governo e também, como jurista, ter podido aprender muito com a sua sabedoria”, disse Costa, acrescentando que “o país deve-lhe agora render a homenagem sincera e àqueles que deram o seu melhor para servir o nosso país, e poucos como o professor Freitas do Amaral deram tanto a Portugal, à liberdade e à democracia que hoje podemos nos beneficiar”.

Em relação à campanha, o primeiro-ministro português revelou que o PS fará “um minuto de silêncio” durante o comício desta noite, além de “evitar comemorações mais festivas”, mas que “a campanha é um elemento essencial da democracia, e é também uma forma de homenagear o professor Freitas do Amaral deixar a democracia funcionar plenamente”.

À Rádio Observador, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, diz que é dia de “homenagear o estadista” que foi Freitas do Amaral. O fundador do CDS “consolidou em Portugal um pensamento democrata-cristão, sempre comprometido com a construção europeia”. Santos Silva lembra o trabalho de Freitas do Amaral quando foi ministro dos negócios estrangeiros e “como prestigiou o País quando ocupou a presidência da assembleia-geral das Nações Unidas”.

O ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, que foi secretário de Estado de Freitas do Amaral, fala numa “referência incontornável para o país e um dos fundadores da democracia portuguesa”, que “marcou indelevelmente a Defesa Nacional, num período de grande transformação”. “O Ministério da Defesa Nacional e a Política de Defesa Nacional, tal como hoje os conhecemos, são o reflexo do seu trabalho percursor, dedicação diligente, liderança e coragem.”

Cavaco Silva recorda “um grande português a quem todos nós devemos alguma coisa”

O antigo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e Freitas do Amaral foram colegas de Governo na década de 80. Cavaco Silva lembra o colega como “um grande português a quem todos nós devemos alguma coisa”. “E essa coisa é de uma importância muito particular quando penso acima de tudo num modelo de democracia que vigora hoje em Portugal e, em defesa desse modelo, ele passou por momentos difíceis. Mas juntamente com Sá Carneiro e Mário Soares acabaram por triunfar”, disse em declarações à Rádio Observador.

Cavaco Silva conta que em junho de 2006 recebeu uma carta de Freitas do Amaral, na qual falava do problema de saúde, “então apenas um problema de coluna, a explicar a razão porque saía do Governo”. O ex-presidente lembra ainda que como presidente da Assembleia-Geral das Nações Unidas “ele, no desempenho dessas funções, prestigiou Portugal, demonstrando extraordinárias qualidades políticas e pessoais. Por isso, era de facto um grande português a quem todos nós devemos alguma coisa”.

Nas palavras de Cavaco Silva, Freitas do Amaral “foi, juntamente com Mário Soares e com Francisco Sá Carneiro, um pai fundador da democracia de tipo ocidental que nós temos hoje no país”. Sobre as presidenciais de 1986, o ex-chefe de Estado disse que “estava convicto que a sua eleição [de Freitas do Amaral] era favorável à estabilidade política do país, e à tomada das medidas que o Governo considerava absolutamente necessárias para a modernização da sociedade portuguesa”.

“Quero também recordar o espírito europeísta de Freitas do Amaral, a defesa que ele sempre fez do aprofundamento da integração europeia”.

Numa nota enviada às redações, Francisco Pinto Balsemão recordou o seu “colega no governo de Sá Carneiro” e seu “vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa Nacional, durante quase um ano e meio, no VIII Governo Constitucional” — o qual presidi. “Sublinho o seu empenho na Revisão Constitucional de 1982 e na Lei de Defesa Nacional. Freitas do Amaral era um jurista notável e será recordado pelo seu importante contributo para a democracia portuguesa”, apontou.

António Guterres elogia “político brilhante”

Em comunicado, o ex-primeiro-ministro e atual secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, diz que recebeu “com profunda tristeza” a notícia da morte de Freitas do Amaral. “O intenso contacto que mantivemos no Portugal pós-revolução de Abril permitiu-me apreciar, plenamente, o valiosíssimo contributo do professor Freitas do Amaral para a vida democrática portuguesa e para a nossa integração europeia”, disse Guterres.

Foi um jurista e académico de renome e um político brilhante, totalmente dedicado à causa pública, que viria a deixar uma fortíssima marca como Presidente da Assembleia-Geral das Nações Unidas, valorizando de forma muito significativa a imagem e influência de Portugal como pude, na altura, constatar como Primeiro-Ministro”, frisou.

Ferro Rodrigues sente “enorme consternação”

O presidente da Assembleia da República afirma que recebeu com “enorme consternação” a notícia da morte do antigo ministro Freitas do Amaral, “fundador do regime democrático” e cidadão com “grande dedicação” à causa pública.

Fundador do nosso regime democrático, o professor Freitas do Amaral serviu Portugal e os Portugueses em diversas ocasiões”, considera Ferro Rodrigues, numa nota enviada à agência Lusa.

Entre outros cargos desempenhados pelo primeiro líder do CDS, Ferro Rodrigues destaca os momentos em que assumiu funções “como deputado à Assembleia Constituinte, deputado à Assembleia da República, vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa [executivo da Aliança Democrática] e, mais recentemente, como ministro dos Negócios Estrangeiros (Governo socialista], o último cargo público que ocupou – sempre com grande dedicação aos outros e à causa pública.

Para o presidente da Assembleia da República, Freitas do Amaral “prestigiou Portugal como poucos, assumindo a presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas entre 1995 e 1996”.

Foi, por excelência, um académico, tendo sido assistente e professor de Direito Administrativo da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, de que era catedrático em 1983. Em 1996, foi um dos responsáveis pela criação da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa”, apontou ainda.

Na sua mensagem, Ferro Rodrigues faz ainda um forte elogio a Freitas do Amaral do ponto de vista pessoal. “Dele guardarei memória de um homem culto, cordato, afetuoso. De um homem de diálogo, um democrata, por quem tinha uma grande consideração e estima. Portugal vê hoje desaparecer um dos nomes grandes da política democrática e do ensino do Direito”, frisa o presidente da Assembleia da República.

Jorge Sampaio recorda “amigo de muito longa data”, que foi uma “figura determinante do regime democrático”

O ex-presidente da República, Jorge Sampaio, lamentou a perda do “amigo de muito longa data”.

É com grande pesar e um sentimento de perda irreparável que acabo de tomar conhecimento do falecimento do professor Freitas do Amaral e meu amigo de muito longa data. Recordo o colega de faculdade de há mais de meio século, colega de profissão, colega das lides políticas, independentemente das opções e convicções de cada um, o jurista eminente, o professor de referência, o internacionalista convicto, um patriota certo e o amigo de sempre”, disse, em comunicado enviado às redações.

Jorge Sampaio recorda Freitas do Amaral como uma “figura determinante do regime democrático português e uma personalidade marcante da história portuguesa contemporânea”. E diz-se “especialmente emocionado”: “Sei que ainda há cerca de duas semanas nos deveríamos ter encontrado num almoço de confraternização, em testemunho de uma amizade de muitas décadas feita de admiração, respeito e muita estima mútuas”.

“Nesta hora de luto nacional, é especialmente a sua mulher, filhos e demais família que endereço as minhas muito sinceras e sentidas condolências”, acrescentou Jorge Sampaio.

Cristas interrompe almoço para pedir minuto de silêncio para Freitas, a quem os centristas devem a “fundação do CDS”

A campanha do CDS soube da morte de Freitas do Amaral durante um almoço no restaurante Bagueira, em Barcelos. Minutos depois, Assunção Cristas levantou-se da mesa onde estava, no centro da sala, e pediu para todos fazerem “uma pausa simbólica e sentida neste almoço, que é um almoço muito informal, de confraternização com todos aqueles que estão empenhados na campanha”.

Assunção Cristas disse então que acabara de saber de “uma notícia que é triste para o país e para o CDS: o falecimento do dr. Diogo Freitas do Amaral, o nosso fundador”. A líder centrista destacou que é “ao professor Freitas do Amaral” que os centristas devem “a fundação do CDS”.

Assunção Cristas referiu depois que “aqueles que estão há mais tempo no partido, e há muitos aqui connosco na sala, recordam-se bem desses tempos difíceis”. E acrescentou, numa pequena homenagem a Freitas do Amaral: “Eu enquanto presidente do CDS hoje só posso estar grata por esse trabalho, por essa coragem, tantas vezes debaixo de ameaça, tantas vezes debaixo de fogo”.

Cristas pediu depois “minuto de silêncio por toda essa vida”. Uma vida que, lembrou a líder do CDS, “obviamente teve momentos em que se afastou mais do pensamento do CDS e do partido”, mas isso não pode deixar o CDS “esquecer que na base deste partido esteve a coragem de Diogo Freitas do Amaral e muitos como ele, como Adelino Amaro da Costa, que ousaram criar um partido que é fundador da nossa democracia”. Cristas quis ainda transmitir à família “os sentimentos muito profundos”.

Para o antigo líder do CDS, Ribeiro e Castro, Freitas do Amaral era “uma pessoa de convicção, bastante determinado quando tomava uma decisão pessoal racional”. Em declarações à Rádio Observador, o centrista descreve Freitas do Amaral como um “grande conversador”. “Era uma pessoa tímida, não tinha aquele feito exuberante e as pessoas às vezes interpretavam mal essa timidez. Era mais dedutivo do que intuitivo”, frisa, lembrando o “pensamento muito arrumado”. “Era um grande professor de direito.”

O CDS deve a Freitas do Amaral nada mais nada menos do que a sua existência. Foi de pessoas com a envergadura, a têmpera, a coragem, a lucidez de Freitas do Amaral que o CDS pôde formar-se e atravessar tempos de grande dificuldade. E consolidar-se com um dos partidos fundamentais da democracia portuguesa”, disse Ribeiro e Castro.

Ribeiro e Castro recorda o capítulo “muito marcante” da vida de Freitas do Amaral durante as presidenciais de 1986. Apesar de terem sido ganhas por Mário Soares, “o contributo de Freitas do Amaral foi fundamental”, numa eleição que “estruturou a democracia portuguesa”.

Também à Rádio Observador, o ex-líder do CDS, Manuel Monteiro, defendeu que o nome de Freitas do Amaral “estará sempre presente na galeria dos dirigentes políticos fundadores da Democracia”. “Ele foi um dos grandes obreiros e responsáveis pela adesão de Portugal à CEE”, frisou. “Foi líder do único partido que teve a coragem de votar contra a Constituição da República Portuguesa em 1976, contra a primeira versão, o texto originário. E teve essa coragem numa época em que era muito difícil.”

Paulo Portas elogia Freitas do Amaral, “um dos pais da democracia portuguesa”

O antigo líder do CDS-PP Paulo Portas enalteceu Diogo Freitas do Amaral como “um dos pais da democracia representativa em Portugal”, ficando para “sempre na memória dos democratas portugueses”, como alguém que construiu um partido de democracia cristã.

“O professor ficará sempre na memória dos democratas portugueses como alguém que aguentou, por vezes debaixo de tiro, a pressão dos ventos revolucionários, para construir um partido que representava a democracia cristã e viria a prevalecer, nas urnas, como um dos principais partidos portugueses”, escreveu Paulo Portas, numa nota enviada à agência Lusa.

De acordo com o também antigo vice-primeiro-ministro, Freitas do Amaral foi “um dos pais da democracia representativa em Portugal”, tendo fundando “um partido [CDS] não-socialista em 1974”. Paulo Portas recordou também o fundador do CDS como “um dos expoentes da adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia [CEE]”.

Para o ex-líder do partido centrista, “a capacidade inspiradora junto das democracias-cristãs” de Freitas do Amaral “foi decisiva para vencer resistências e dificuldades” na adesão de Portugal à CEE. “Essa adesão, não o esqueçamos, marcou a aceitação definitiva do regime democrático, fundado na legitimidade eleitoral, e do modelo de Estado de Direito e economia social de mercado que orientam a pertença às instituições europeias”, realçou.

Na mesma nota, Paulo Portas salientou que Freitas do Amaral foi, “nas revisões constitucionais sucessivas, uma figura intelectual e politicamente relevante”. “Conscientes de que a Constituição de 1976 era ainda tributária da legitimidade revolucionária e de um modelo económico socializante, creio ser justo reconhecer a razão histórica que tiveram o CDS e o seu líder e fundador na decisão de votar contra”, adicionou.

O atual mandatário do CDS-PP pelo círculo de Aveiro elogiou “o percurso do professor e do partido que fundou”, considerando-o como “determinante para podermos viver em democracia e com pluralismo em Portugal”, apresentando condolências à família e amigos.

“O facto de o percurso do professor e do partido que fundou se terem a dado passo, separado, essencialmente pela questão europeia, não impediria, felizmente, a normalização de um relacionamento que teria sempre de se fundar no respeito pelos fundadores”, narrou Portas. Para Paulo Portas, “essa reconciliação fez bem a todos e ao partido em especial”.

O também antigo vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros recordou com “emoção” a participação de Freitas do Amaral no 25.º aniversário do CDS e por ter escrito no livro comemorativo do 40.º aniversário do partido: “que todos os que serviram o país e o CDS podem olhar-se e respeitar-se naturalmente, uns mais no centro direita, outros mais no centro esquerda, mas sempre nos parâmetros do humanismo cristão”.

O antigo líder do CDS-PP ainda acrescentou que Freitas do Amaral foi “um grande professor de Direito”, e que “gerações sucessivas de estudantes leram os seus claríssimos manuais, aprenderam com as suas aulas de notável conhecimento e beneficiaram das muito reconhecidas qualidades de pedagogo que tinha”.

Em síntese, Paulo Portas descreveu que “sem ação do professor Freitas do Amaral, muitos portugueses não teriam tido a oportunidade de ter um partido onde votar; Portugal teria demorado mais tempo a chegar à CEE, a crítica democrática da Constituição teria sido menos brilhante e a alternância democrática – com a instituição da AD – teria sido muito mais difícil”.

PS lembra batalha “épica” com Mário Soares

Entretanto o PS também já deixou uma nota de pesar no seu site. “O Partido Socialista manifesta o seu profundo pesar pela morte do professor Diogo Freitas do Amaral, relevando o seu importante contributo para a consolidação do regime democrático em Portugal no período que se seguiu ao 25 de abril de 1974”, escreve.

Freitas do Amaral foi um lídimo representante da democracia-cristã europeia em Portugal, movimento político que foi, a par do socialismo democrático e social-democracia, fundamental na construção do modelo social europeu das últimas décadas. Esse foi o ideário que sempre seguiu, o que lhe valeu algumas incompreensões. Freitas do Amaral foi ainda um eminente jurista e professor universitário, com vasta e reputada obra”, reconhece o PS.

O PS fala ainda de Diogo Freitas do Amaral enquanto adversário político lembrando uma “das mais épicas batalhas eleitorais da história da Democracia portuguesa” que travou com Mário Soares e manifesta “um sentimento de profundo respeito”.

José Sócrates destaca “personagem singular” da democracia portuguesa

Freitas do Amaral foi ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates. O ex-primeiro-ministro considerou numa nota enviada à Lusa, que o fundador do CDS se destacou como uma “personagem singular” da democracia portuguesa, com vasta cultura política e jurídica e defensor dos direitos individuais.

“Freitas do Amaral foi uma personagem singular da democracia portuguesa”, salienta o antigo líder do PS. José Sócrates refere que Diogo Freitas do Amaral, que integrou o primeiro dos dois Governos que liderou, “exerceu funções políticas do mais alto nível no plano nacional e internacional”.

Tive a honra de contar com ele no meu Governo como ministro dos Negócios Estrangeiros e pude testemunhar as suas raras qualidades de inteligência e vasta cultura política. Recordo, em especial, a sua fidelidade ao projeto europeu, sustentado nos valores da paz, de uma cultura humanista que sempre orientou a sua intervenção pública, e de uma ordem mundial que procura legitimidade no direito internacional e não apenas na relação de forças”, sustenta o antigo primeiro-ministro socialista.

José Sócrates evoca também a “admirável cultura jurídica” de Freitas do Amaral “e a corajosa defesa que sempre fez, particularmente em momentos especialmente difíceis, dos direitos individuais como fundamento e legitimidade do Estado de direito democrático”.

“Ao longo de toda a sua carreira política encarou sempre com igual dignidade as vitórias e os insucessos, deixando-nos um impressivo exemplo de cultura democrática. O seu desaparecimento entristece-me profundamente e gostaria de apresentar as mais sentidas condolências a toda a sua família a quem deixo uma palavra de coragem neste momento tão infeliz”, escreve José Sócrates.

Rui Rio homenageia Freitas, um “aliado” nos “momentos importantes”

O presidente do PSD, Rui Rio, chegava a um almoço com empresários em Vila Nova de Gaia quando recebeu a notícia da morte de Diogo Freitas do Amaral. Foi, por isso, para ele, que dedicou as primeiras palavras do discurso, deixando uma homenagem ao velho “aliado” do PSD nos “momentos importantes”.

“Tive agora uma noticia triste, não sei se a maior parte de vocês já sabe, acabou de falecer o doutor Freitas do Amaral. Queria deixar aqui uma palavra de homenagem: Nem sempre o PSD esteve de acordo com ele, nem ele com o PSD, mas nos momentos importantes o doutor Freitas do Amaral foi um aliado”, disse.

E continuou, elogiando “um dos fundadores de um dos principais partidos nacionais, o CDS”. “Queria prestar-lhe aqui a minha homenagem, 5 minutos depois de saber que acabou de falecer”, disse, por fim, acompanhando a plateia nos aplausos.

Já António Bagão Félix, antigo ministro das Finanças de Governos do PSD/CDS defendeu, à agência Lusa, que a morte do fundador centrista é “uma grande perda para Portugal” num tempo em que “há escassez de estadistas” e excesso de políticos.

É uma grande perda para Portugal, não apenas da pessoa em si, como da pessoa culta, bem profunda que era, do académico que era e do estadista. Este ponto é importante, porque hoje vivemos num tempo em que há escassez de estadistas e há excesso de políticos”, disse Bagão Félix.

Catarina Martins assinala a “convergência” de Freitas do Amaral

A líder do Bloco de Esquerda visitou esta tarde o I3S, o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, do Porto. À saída, e em declarações aos jornalistas, reagiu ao desaparecimento de Freitas do Amaral. Começou por enviar as “condolências à sua família e aos seus amigos” para de seguida destacar uma figura com quem foi possível convergir apesar das opções políticas opostas.

Como sabem, Freitas do Amaral tem um posicionamento político muito diferente do do Bloco de Esquerda mas naturalmente enviamos os nossos pêsames a toda a família e a todos os amigos. Queria reconhecer também que, tendo nós tantas diferenças, houve alguns momentos em que foi importante a convergência”.

A líder do BE destacou três momentos em que houve esse encontro de posições: “assinalo a denúncia da guerra do Iraque”; “a necessidade de reestruturar a dívida pública portuguesa” e a “denúncia do governo brasileiro de Bolsonaro como extrema-direita e o perigo que é”. ”

Não deixando de reconhecer que naturalmente estivemos em pólos políticos muito diferentes reconheço também a convergência que foi feita. É sempre bom saber que há momentos em que pessoas com posicionamentos diferentes podem ainda assim estar juntas por questões tão essencial como os Direitos Humanos e a Paz”, sublinhou ainda a coordenadora bloquista.

“Foi uma das personalidades políticas mais marcantes das últimas décadas”, diz António Filipe

Apesar da “distância política” entre Freitas do Amaral e o PCP, o deputado comunista António Filipe frisa, em declarações à Rádio Observador, que o fundador do CDS “foi uma das personalidade políticas mais marcantes das últimas décadas no nosso país, quer como dirigente partidário, como ministro, e no plano internacional como presidente da assembleia geral das Nações Unidas. É uma personalidade que nos merece enorme respeito.”

“O país perde desde longo um académico distintíssimo, mas também uma personalidade muito marcante da vida política portuguesa das últimas décadas”, disse António Filipe.

“Figura incontornável”, que fundou a Faculdade de Direito da Universidade Nova

Freitas do Amaral foi um dos fundadores da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Em comunicado, o atual reitor da universidade, João Sàágua, lembra Freitas do Amaral como “uma figura incontornável do Direito em Portugal, que teve uma visão ousada e inovadora para o ensino do Direito no país”.

Já a atual diretora da Faculdade de Direito da Nova, Mariana França Gouveia, “a melhor homenagem que podemos prestar ao professor Freitas do Amaral é dar contínuo vigor e renovado arrojo a um projeto que iniciou e que veio revolucionar o ensino do Direito em Portugal”.

Presidente da Comissão Europeia elogia “papel decisivo na consolidação da democracia”

O presidente da Comissão Europeia partilhou uma fotografia sua ao lado de Freitas do Amaral, no Twitter. Na legenda que acompanha a imagem, Jean-Claude Juncker, enviou as “condolências muito sinceras à família do professor”. “Um verdadeiro democrata cristão que teve um papel decisivo na consolidação da democracia em Portugal”, lembrou.

[Texto atualizado às 20h34 de quinta-feira, 3 de outubro, com as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa]