Os “astros” começam a ficar cada vez mais alinhados para a economia portuguesa este ano, com o Fundo Monetário Internacional a prever agora o mesmo crescimento do que o Governo e o Conselho das Finanças Públicas. Menos pessimista — depois da revisão metodológica do INE às contas nacionais —, o FMI aponta para uma subida do PIB de 1,9%, mais duas décimas do que em julho. Só não chega, por uma décima, à mais recente previsão do Banco de Portugal (+2%).

Para 2020, no entanto, a história já é outra. Embora o FMI acrescente uma décima à previsão de julho, o ritmo de crescimento é mais baixo, atingindo 1,6%, menos três décimas do que as contas feitas em abril (e ainda não revistas) pelo Governo (+1,9%); e menos uma décima do que o CFP (1,7%).

As perspetivas macro-económicas foram atualizadas no World Economic Outlook, em que o FMI está também mais otimista em relação ao desemprego. O fundo estima agora menos uma décima do que no verão, tanto em 2019 (6,1%), como em 2020 (5,6%), depois dos 7% de 2018.

Espanha, Grécia e países de Leste crescem mais do que Portugal

Os alemães já sabiam que 2019 trazia más notícias económicas para o país e o FMI confirma, cortando a previsão de crescimento em duas décimas. Depois de uma subida do PIB de 1,5%, a economia deverá agora crescer apenas 0,5%, ficando com a segunda pior taxa de toda a União Europeia. Afetada pela quebra na procura externa, pela incerteza política e por alterações estruturais na indústria automóvel, a Alemanha deverá, ainda assim, recuperar em 2020 (+1,2%), segundo o FMI.

Entre as grandes economias europeias, o Reino Unido, que enfrenta a incerteza do Brexit, mas que observa “um impacto positivo de mais despesa pública”, deverá crescer 1,2% em 2019 e 1,4% em 2020 — valores iguais aos da Zona Euro e muito semelhantes aos de França (1,2% e 1,3%, respetivamente).

Já Itália, que atravessa um período de “abrandamento do consumo privado, de menor estímulo orçamental e com um ambiente externo mais fraco”, continuará a marcar passo na cauda de todo o ranking europeu — 0% em 2019 e 0,5% em 2020 (depois de 0,9% em 2018).

É do Sul da Europa que emana, no entanto, o melhor dos alunos no que ao PIB europeu diz respeito — Malta deverá destronar a Irlanda como o campeão do crescimento este ano (+5,1%), dando seguimento no ano seguinte (4,3%), de acordo com o FMI.

Pelo meio, ainda entre os países do Sul, Chipre (+3,1%), Espanha (+2,2%) e Grécia (+2%) também deverão ter crescimentos maiores do que Portugal em 2019 — cenário que deverá ser repetido, com outros números, em 2020 (+2,9%, +1,8% e +2,2%, respetivamente).

Sem surpresas, os países de Leste continuam a galgar terreno no ranking europeu, com crescimentos este ano entre 2,5% (República Checa) e 4,6% (Hungria); e entre 2,6% (República Checa) e 3,5% (Roménia) em 2020 — todos sempre com crescimentos superiores a Portugal.

Juros baixos, serviços e estímulos orçamentais vão salvando economia mundial

O FMI espera agora que haja um “crescimento “moderado” este ano de 3% para todo o mundo (menos duas décimas face à previsão de julho), depois de o PIB ter subido 3,6% em 2018. A concretizar-se, é “o nível mais baixo desde a crise financeira global”.

A economia mundial está num “abrandamento sincronizado”, como avisou a nova líder do FMI, Kristalina Georgieva, na semana passada — e se repete agora no relatório. Depois de ter crescido 2,9% em 2018, os EUA deverão ter um acréscimo de 2,4% e a China deverá também abrandar, alcançando um crescimento de 6,1%, depois dos 6,6% do ano passado. Das oito grandes economias industrializadas do mundo, o FMI apenas perspetiva este ano uma aceleração (ligeira) para o Japão (+0,9% face aos +0,8% de 2018); e nas oito maiores economias em desenvolvimento só a Nigéria verá o PIB crescer a um ritmo mais elevado do que no ano anterior.

Para já, os maiores crescimentos mundiais, entre as economias analisadas, deverão registar-se este ano em três países africanos (Gana, Costa do Marfim e Etiópia, todos na casa dos 7%), China, Índia, Vietnam, Uganda, Senegal, Turquemenistão e Arménia (na casa dos 6%) e Filipinas, Indonésia, Egipto, Uzbequistão, Tajiquistão e Malta (na casa dos 5%).

Em recessão, o grande destaque vai para a Venezuela, que atravessa uma grave crise económica e social — o PIB deverá cair 35% este ano, depois de já ter caído 18% no ano passado. O Irão (-9,1%), a Argentina (-3,1%) e o Sudão (-2,6%) agravam também a recessão por que atravessam. E ainda não é desta que Porto Rico (-1,1%) e Angola (-0,3%) escapam à tendência de queda do PIB, apesar de melhorarem. O Equador, onde decorrem neste momento violentas manifestações anti-austeridade, deverá entrar este ano no clube dos que perdem riqueza (-0,5%).

As crescentes barreiras comerciais, as incertezas geopolíticas, os constrangimentos sentidos em várias economias emergentes e os problemas estruturais de países industrializados — como o reduzido crescimento da produtividade e envelhecimento da população — travam o crescimento global este ano.

O FMI destaca, nomeadamente, as “elevadas tarifas e a prolongada incerteza em torno da política comercial”, que afetaram o investimento e a procura por bens de capital (instalações, equipamentos, bens ou serviços necessários para produzir outros bens ou serviços); mas também os problemas que afetam a indústria automóvel — “disfunções dos novos ‘standards’ de emissões na Zona Euro e na China que têm tido efeitos duradouros”. Por isso, o comércio internacional sofreu um abanão, com o volume das trocas a atingir “o pior nível desde 2012”.

E podia ser pior, não houvesse juros baixos. O FMI lembra que, nos tempos que correm, “a política monetária tem sido suavizada de forma significativa e quase em simultâneo em quase todos os países desenvolvidos e mercados emergentes”. Como não há pressões sobre a inflação, os principais bancos centrais atacaram de forma preventiva  os riscos sobre o crescimento, apoiando condições financeiras interessantes.

Ora, “na ausência desse estímulo monetário, o crescimento global seria reduzido em 0,5 pontos percentuais tanto em 2019 como em 2020”, diz o FMI, o que “ajudou a compensar o impacto negativo das tensões comerciais entre EUA e China, que é estimado numa redução acumulada do PIB global em 0,8% em 2020”. O problema é que a almofada está a esgotar-se há algum tempo para os bancos centrais, que “tiveram de gastar as limitadas ‘munições’ para fazer face a erros políticos”. Agora, “podem ficar com pouco de sobra quando a economia estiver num lugar mais difícil”.

Um segundo fator que mitiga a queda da economia mundial tem que ver com o comportamento do setor dos serviços, que, um pouco por todo o mundo, “continua a aguentar-se”, mantendo “o dinamismo dos mercados de trabalho e um saudável crescimento dos salários nas economias desenvolvidas”. A questão é se esta divergência entre produção industrial e serviços, “que tem persistido por um período invulgarmente longo” vai ou não levar a que os serviços sejam ‘contaminados’, questiona o FMI.

Por fim, o FMI reconhece que “os estímulos orçamentais na China e nos EUA ajudaram também a conter os efeitos negativos das tarifas”. No caso americano, que tem sido prejudicado pelas incertezas comerciais, esses estímulos contribuem para que o emprego e o consumo continuem a ser “robustos”.

No entanto, ainda não será em 2020 que EUA (+2,1%), China (+5,8%) ou Japão (+0,5%) vão interromper o ciclo de abrandamento. O FMI espera uma recuperação no próximo ano, ainda que “modesta”, com o mundo a crescer mais quatro décimas (+3,4%) face a este ano, só que, ao contrário da tendência de descida sincronizada em 2019, a subida do próximo ano “não é abrangente e é precária”.

Cerca de metade desta melhoria deve-se à prevista “recuperação ou recessão mais fraca em mercados emergentes sob tensão, como Turquia, Argentina e Irão”, e a restante subida à “recuperação em países onde o crescimento abrandou de forma significativa em relação a 2018, como Brasil, México, Índia, Rússia e Arábia Saudita”, aponta o FMI.

No caso da Zona Euro, como vimos, a economia alemã deverá crescer 1,2% (face aos 0,5% de 2019), e a maioria das potências europeias deverão ter também melhorias ligeiras.

O cenário descrito pelo FMI pode ainda ser prejudicado por alguns riscos. A organização liderada por Kristalina Georgieva alerta, nomeadamente, para o protecionismo e para as tensões geopolíticas, incluindo o Brexit, que “podem criar disrupções adicionais”, prejudicando a confiança, o investimento e o crescimento. Se esses riscos se materializarem, “pode haver uma mudança abrupta no sentimento de risco e expor vulnerabilidades financeiras que se acumularam ao longo de anos de baixas taxas de juro”, num contexto em que os bancos centrais têm pouca margem de manobra.

O FMI diz estar atento também aos riscos associados às alterações climáticas, que são evidentes por estes dias e que, na opinião do FMI, vão “escalar dramaticamente no futuro se não forem abordados com urgência”.