O vice-presidente do PSD, David Justino, admitiu esta sexta-feira, em entrevista à rádio Observador, que o PSD até pode viabilizar o Orçamento do Estado para 2020, através da abstenção, desde que o PS incorpore as medidas que os sociais-democratas defendem, como a descida do IRC em dois pontos percentuais ou a descida do IVA da eletricidade. “Como é que o PSD pode votar contra um conjunto de medidas e um orçamento quando ele próprio defendia estas medidas?“, questionou. O dirigente do PSD não tem é esperança que o PS tenha uma “revelação celestial” que faça os socialistas ir ao encontro das medidas do PSD.

O vice-presidente do PSD diz que o partido não irá propriamente votar a favor de um OE, mas pode abster-se. Com a atual composição, isso seria suficiente (com os votos do PS) para viabilizar o orçamento para 2020. Justino considera uma “total irresponsabilidade” quem já disse como ia votar o orçamento, que foi o caso do candidato à liderança do PSD, Luís Montenegro. Sobre a recandidatura de Rui Rio, David Justino acredita que o líder até já pode ter tomado uma decisão e que “falta pouco” para a anunciar. Caso o atual líder avance, o vice-presidente do PSD admite que o presidente liderar a bancada pode ser uma solução, que até evitaria ao futuro líder receber uma liderança da bancada “minada”.

Como vice-presidente do PSD, considera que o líder do PSD deve recandidatar-se nas eleições diretas?
O deve é na minha opinião, não é? Sim. Acho que sim. Aquilo que tenho dito é que aquilo que são requisitos para dar continuidade à estratégia que foi seguida já de há um ano e meio para cá continua a manter-se. Ou seja, nada desses requisitos que eu considero indispensáveis para se afirmar a liderança e acima de tudo para se afirmar a linha política, não há razões para alterar. E, portanto, foi mais um passo. Mesmo depois de um resultado das eleições que não foi um resultado favorável, não tanto como nós pretendíamos, mas mesmo assim está dentro dos valores que nós admitíamos como razoáveis para podermos dar mais um passo em frente.

Mesmo com esse resultado acha que os militantes devem dar esse sinal de confiança e reeleger Rui Rio? Mesmo tendo falhado.
Falhámos porque perdemos. Isso é óbvio. Mas mesmo assim, daquilo que é o projeto que nós acabámos por corporizar, continua a ter todo o sentido.

Mas o PSD perde duas eleições com Rui Rio à frente do partido. Isso não fragiliza o projeto?
Não. Por uma razão simples. Tudo depende do ponto de partida. Saber em que ponto está o partido, qual o reconhecimento que tem por parte do eleitorado, por parte dos cidadãos, e a partir daí saber se nós acrescentámos ou se não acrescentámos. Nós entendemos que conseguimos acrescentar não obstante alguns percalços. O caso das Europeias foi claramente um percalço. Não estávamos à espera de ter uma votação tão baixa e tínhamos expectativas de ter um resultado melhor. Este já está dentro da margem que nós consideraríamos que era uma margem possível para podermos dar seguimento ao projeto. Nessa perspetiva, Rui Rio apenas tem de decidir em função da sua posição pessoal. Não tem a ver necessariamente com condições políticas, mas tem a ver com a predisposição pessoal que ele possa ter para corporizar esse projeto.

Quando diz que este projeto acrescentou ao PSD, parte de que valores?
Embora seja um quantitativista em termos académicos, em termos políticos não sou tanto. É mais importante olharmos para a natureza da base eleitoral do PSD do que propriamente para a quantidade. E nessa natureza houve um conjunto de indicadores que nos ajudaram a perceber que há uma parte do setor do eleitorado que nós tínhamos perdido e que nós estamos a recuperar. E eu cito fundamentalmente o caso de jovens, o caso dos ativos, em especial trabalhadores por conta de outrém, classe média.

Onde é que sente que perdeu?
Foram perdidos em 2015, claramente.

Mas em 2015 o PSD perdeu as eleições.
Pois. Por isso é que eu digo que o problema não está na quantidade, está na qualidade. Ou seja: a composição social do eleitorado é que nos dá precisamente saber se temos ou não temos capacidade de crescimento. Um dos fatores que leva precisamente a perdemos estas eleições, que já tínhamos perdido antes, foi o eleitorado mais idoso, que era um dos pilares fundamentais do eleitorado do PSD desde meados dos anos 80. E é claro que um eleitorado mais idoso, que se afasta, só volta em situações muito excecionais. Porquê? Porque quem está no poder tende a acarinhar esse mesmo eleitorado. Portanto, tem vantagem. E é nesse sentido para compensar a perda de eleitorado mais idoso, tínhamos de compensar com ativos e com jovens. E isso conseguimos. Isso notou-se através de algumas sondagens, mas também através da distribuição de votos, concelho a concelho, consegue-se fazer essa associação. Isso quer dizer que temos um potencial de crescimento. E, portanto, o que temos de fazer é continuar a trabalhar para crescer mais ainda.

Ficaram fechados os resultados esta quinta-feira, com o apuramento dos resultados do círculo do estrangeiro e o PSD não chegou aos 28% e ainda desceu.
Estamos a falar de percentagens.

Sim. É historicamente baixo. Justificou  com a conjuntura, mas as circunstâncias em 2015 não eram piores para o PSD, vindo o país de um programa de ajustamento, do que eram agora em 2019?
Eu concordo com isso. Mas então temos de olhar para 2011. E olhando para 2011 o PSD mesmo com o desgaste, o PSD e o CDS perderam 800 e tal mil votos muito a caminho de quase um milhão de votos. Portanto, isso é uma quebra enorme. Para recuperar novamente esse eleitorado não se faz de um momento para o outro e estando na oposição só. Tem de se recuperar com tempo e com soluções. As pessoas hoje em dia já não vão em promessas, o que querem são factos reais, nomeadamente o chamado voto de bolso.

Mas há uma perda relativamente à PàF de 400 mil votos.
Não chega bem a 400 mil. Mas se considerarmos que a repartição de votos se faz na mesma proporção daquilo que se perdeu de 2011 para 2015, chegamos à conclusão que essa repartição se faz à volta de 70% incide sobre o CDS e 30% sobre o PSD. O PSD terá perdido à volta de 100 mil votos.

Não está a existir um estado de negação do PSD. Nós olhamos para o discurso na noite eleitoral e a culpa do resultado é da comunicação social, das sondagens, da contestação interna. E mesmo nesta análise de números parece que há uma negação de que o partido perdeu. Perdeu bastante. E haverá certamente um ‘mea culpa’ a fazer por esta situação.
Se quiser entrar numa de perdoa-me, entramos numa de perdoa-me. De carpir a mágoa que temos de termos perdido. Agora não creio que isso leve a lado nenhum. Não leva a lado nenhum. Temos de ser objetivos. Nestas coisas eu sou muito racional na análise dos resultados. Nós podemos fazer leituras políticas dos resultados, mas tem de haver uma sustentação técnica, mínima, de evidência desses mesmos resultados. E esses resultados como foi aqui dito, perdemos 400 mil votos. Mas vamos ver como se repartem. Uma parte da perda cai em cima do CDS como se vê pelo resultado obtido. O resto cai em cima de nós. Nós perdemos entre 80 mil e 100 mil votos. Já compensado com o aumento dos votos da emigração. Embora tenha havido uma diminuição da percentagem, houve um aumento do número de votos.

Passaram duas semanas e o PSD continua a discutir resultados. 
Eu não vim discutir resultados. Vocês é que perguntaram.

Mas a Comissão Política Nacional esteve a analisar estes dados.
Só estou a responder a isto porque me perguntaram. Já passei essa fase.

Ainda não sabemos se Rui Rio se vai candidatar, nem se vai assumir o lugar de deputado, não sabemos se vai ser o líder parlamentar, não sabemos o que o PSD pensa sobre a composição do futuro governo. Quando é que o PSD fala do futuro?
Se vocês nos libertarem do passado.

Há uma semana dizia que não era óbvio que Rui Rio ia avançar, esta semana já disse que não é um desistente. Está mais próximo o anúncio da recandidatura de Rui Rio?
Já o tinha dito antes. O que me perguntaram é se era óbvio que e eu disse que não é óbvio. É tão simples. Eu acho que vocês têm de analisar as respostas não em função do significado estrito delas, mas em função da pergunta que é formulada. O que perguntaram é: é óbvio? Não, não é óbvio.

Mas é provável?
Esse é o tipo de exercício que eu não quero fazer. Primeiro, não só por ser vice-presidente, mas acima de tudo porque sou amigo pessoal do dr. Rui Rio. E acho que a melhor forma de ser amigo dele é dar-lhe total liberdade e tempo para ele poder decidir em consciência.

E assinar uma petição pública não é insólito para um vice-presidente?
Não é nada insólito porque eu para além de vice-presidente sou cidadão. Era o que faltava. Eu vou abdicar dos meus direitos de cidadania numa petição pública?

A ponderação é algo que se compreende quando não se tem as cartas todas em cima da mesa. Mas os resultados eleitorais já estão fechados, o governo está forma, a aritmética parlamentar também. Tudo o que são as variáveis para essa ponderação estão fechadas. Não decidir neste momento não pode ser visto como taticismo de Rui Rio?
Mas quem é lhe disse que ainda não decidiu?

O líder do partido ainda não decidiu.
Ele eventualmente até já poderá ter decidido. Não o anunciou, que é diferente.

Então mas isso não pode ser também considerado taticismo, uma vez que já tem a resposta?
Não é por uma razão simples. Eu não quero invocar um antigo líder do PS que perguntava: ‘Qual é a pressa’, mas existe aqui uma obsessão clara sobre antecipação de prazos e antecipação de futuro. Eu, sinceramente, não vejo qual é a necessidade. E eu reconheço e já o tenho dito que aquilo que são os requisitos para se fazer uma análise rigorosa se deve continuar ou não, esses requisitos estão preenchidos. Ou seja: já temos informação relativamente ao governo, à votação final, relativamente até a alguma sensibilidade do partido, etc. Estou convencido que neste momento falta pouco para Rui Rio anunciar a sua posição. Eventualmente até já a terá tomado. Eu não estou na cabeça dele, mas não há-de faltar muito. Ele pode escolher a melhor altura. Aí não é taticismo. Se nós temos uma grande confusão noticiosa, o melhor é aguardar um bocadinho e ter alguma paz e algum silêncio para poder falar.

E qual é o momento mediático para anunciar que se é candidato?
Vocês têm de se habituar a uma coisa: não é a comunicação social que impõe a nossa agenda. E portanto a nossa agenda é imposta por nós.

Há pouco falou na sensibilidade do partido, que é um requisito preenchido. O líder tem essa perceção de que o partido está com ele?
Tem de lhe perguntar a ele. Eu tenho a noção disso. E este tempo que vocês consideram longo desde que foi a votação e as eleições até agora tem-nos permitido saber, por parte dos opositores, que não houve a vaga de fundo, a reação do partido que eles estavam à espera. Isso revela de certa forma que os militantes estão serenos a aguardar as decisões, mas não estão nada desesperados relativamente à situação.

Já tiveram tempo de olhar para o esboço do Orçamento para 2020?
Está a ser analisado neste momento.

Quais são as hipóteses neste momento para o PSD? Conhecendo o que foram orçamentos passados do PS e de Mário Centeno, conhecendo o esboço do orçamento e o Programa de Estabilidade é possível que o PSD possa vir a aprovar este orçamento para 2020?
Há aqui um aspeto. Eu estive a olhar para o plano que foi apresentado, o quadro macroeconómico, com invariantes, em que a maior parte dos indicadores são de base invariante, em que não incorpora o peso das políticas. E aquilo que estive a observar é que significativamente aproxima-se do modelo que nós apresentámos. Ou seja: há ali um meio termo entre aquilo que era o PE anterior e aquilo que era o nosso quadro macroeconómico. Mas isso não quer dizer nada.

Se dissesse até era no sentido do PSD o aprovar ou até abster-se?
Não é relevante, até porque os cenários macroeconómicos são previsões para todos os efeitos. Nós até precisamos de saber com mais algum rigor algumas variáveis que não estão suficientemente claras. Por exemplo, carga fiscal quanto é que fica este ano? Isso para nós é importante. Segunda aspeto: se o governo vem adotar algumas das medidas e disser que vai reduzir o IVA da eletricidade, reduzir dois pontos percentuais o IRC, o PSD fica numa posição complicada. Como é que pode votar contra um conjunto de medidas e um orçamento quando ele próprio defendia estas medidas? Portanto, se o PS conseguir fazer isso nós só temos de bater palmas, não estou a dizer em termos de aprovar o orçamento ou não, mas não é a mesma coisa que estar invariavelmente a votar contra.

Mas viabilizar pela abstenção é uma possibilidade?
Há algo que vocês têm de perceber. Quem antecipadamente diz: nós vamos abster ou nós vamos fazer isto, é de uma irresponsabilidade total. E, portanto, nós queremos saber como vai ser o orçamento. Agora, eu não acredito que o PSD vá baixar o IVA da eletricidade, que o governo vai reduzir o IRC em dois pontos percentuais. Agora, não posso por de parte que eles possam ter uma revelação qualquer celestial e de alguma forma reconhecer que as medidas que nós apresentámos eram boas medidas.

Rui Rio como líder parlamentar seria um bom espaço para lançar uma recandidatura e fazer uma campanha num estilo mais combativo do que nos tinha habituado antes da campanha?
Cada coisa no seu tempo. Não tem sentido que o dr.Rui Rio apresente aquilo que é a sua proposta relativamente à composição da direção da bancada sem antes dizer que é candidato. Portanto, qualquer das situações é possível. Eu não acredito que o dr.Rui Rio — e há-de arranjar uma solução — vá deixar o grupo parlamentar nas mesmas condições em que a anterior direção nos deixou.

Um grupo parlamentar fraco?
Não. Minado.

Fernando Negrão foi eleito com 39% dos votos.
Antes do Fernando Negrão, Hugo Soares. Foi uma direção parlamentar armadilhada.

Rui Rio como líder parlamentar seria de transição até à entronização do próximo líder?
Não sei o que é que isso vai ser feito. Já deveria dar a minha opinião sobre qual deveria ser o caminho a seguir. Não vou revelar aqui, como é natural. Porque é a minha opinião pessoal.

Mas não é descabido acumular, na sua opinião?
Se ele é deputado é sempre um potencial candidato a liderar. Não é necessariamente obrigatório. Porque há pessoas eleitas no grupo parlamentar que podem claramente desempenhar essa função. Aquilo que eu digo é que convém que qualquer líder parlamentar o faça com disponibilidade para largar o cargo após o congresso.

E aí ser o próprio líder ajuda?
Tanto faz. Ser ele ou ser outro qualquer. O que tem de haver é esse compromisso, que ninguém vai levantar obstáculos para depois engendrar uma guerra qualquer com outra liderança como foi feito há um ano e meio.

A Assembleia vai tomar posse e na semana seguinte será escolhida a liderança parlamentar. Isto significa que na próxima semana Rui Rio anunciará uma decisão?
Isso é a minha opinião. Olhando para estes calendários e esta sequência ele tem este tempo para o fazer. É natural que aquilo que está a dizer pode ser um dos cenários possíveis. Mas cenários só os faço em casa.

A legislatura vai durar quatro anos?
Saí cedo de casa. Não tive tempo de ir ao oráculo.

Mas tem tanta experiência política.
Não tenho tanta como isso. Eu sei que tenho muitos cabelos brancos, mas também não é tanto. Aquilo que eu digo é que não deu para ir ver. Há uma obsessão relativamente à abordagem especulativa dos cenários .

Mas fazer política também é fazer cenários.
Como é natural. Só que nós fazemos vários cenários. Não fazemos só um. E trabalhamos em função de vários cenários, com cálculo de probabilidades. E, portanto, eu não sei se vai se não vai. Ou seja: há condições ou não? Dizíamos há quatro anos que não iam concluir. E concluíram. Portanto, alguma calma nisto. Não devemos é condicionar a estratégia do PSD à estratégia do governo. Deve ser autónoma com identidade e sustentabilidade própria para que possa vingar daqui a dois, a três, a quatro, a cinco ou seis anos. Tem de ter um calendário para que isso possa acontecer. Estou a falar de estratégia, não estou a falar de tática, que é uma coisa completamente diferente.

Na sequência desta entrevista, um potencial futuro candidato à liderança do PSD, Miguel Morgado, considerou que esta posição de David Justino — de admitir a possibilidade de viabilizar o orçamento do Estado — é um sinal de “fraqueza política”.

Na resposta, David Justino disse que preferia a aparente “fraqueza” à “burrice”.