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"Não me podem exigir mais". Carlos Guimarães Pinto abandona liderança do Iniciativa Liberal

Anúncio foi feito no Facebook: "A minha missão no partido ficou hoje #cumprida. Não me podem pedir que continue a sacrificar a minha vida por uma causa". Cotrim de Figueiredo admite ser candidato.

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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Carlos Guimarães Pinto, presidente do Iniciativa Liberal, vai deixar a liderança do partido. O anúncio da decisão foi feito pelo próprio, no Facebook: “A minha missão no partido ficou hoje #cumprida e termina aqui”, lê-se, num longo texto publicado ao início da noite desta quarta-feira.

Ao Observador, João Cotrim de Figueiredo, o deputado eleito pelo partido nas legislativas de outubro, diz que a saída, que já tinha sido comunicada internamente, foi decidida logo depois das eleições e foi provocada pelo facto de o próprio Guimarães Pinto, que era cabeça de lista pelo Porto, não ter conseguido ser eleito. Sem o cargo de deputado, mas ainda como líder do partido, a carreira do economista seria prejudicada: “Esta situação já estava prevista a partir do momento em que se elegeu alguém por Lisboa e não pelo Porto. O Carlos ascendeu à presidência há um ano e trouxe o partido até aqui e há uma enorme parte do mérito daquilo que se conseguiu que é dele. Mas isto teve um enorme custo pessoal para a sua vida, que, em justiça, não podemos pedir que ele continue a fazer. Ele tem compromissos fora de Portugal todos os anos por esta altura de novembro e, se não saísse este ano, muito provavelmente a sua carreira profissional ficaria alterada, quem sabe para sempre”, explica Cotrim Figueiredo ao Observador.

É aliás para a sua vida pessoal que remete o post de Carlos Guimarães Pinto e para os sacrifícios que não pode continuar a aceitar:

Eu percebo a desilusão que alguns possam ter em relação a este anúncio, mas não me podem pedir mais. Não me podem pedir que continue a sacrificar a minha vida por uma causa. Foi um ano intenso em que tive que abdicar de muito para fazer este caminho. Fi-lo numa altura em que ninguém o teria feito. Criei as condições para que outros o possam fazer daqui para a frente com recursos que eu nunca tive e, espero eu, menos sacrifícios pessoais. Não me podem exigir mais.”

Apesar do anúncio, Carlos Guimarães Pinto vai manter-se no cargo até ser encontrado o seu sucessor. Ao Observador, João Cotrim de Figueiredo admite que o seu nome está em cima da mesa — “com certeza” — para assumir a liderança do Iniciativa Liberal, mas diz que há várias pessoas com as características para serem líderes do partido. No próximo dia 17 de novembro será reunido o conselho nacional, de onde deverá sair a data do congresso para a escolha.

Conheço várias pessoas com capacidade para exercerem essas funções. Se têm vontade, já não sei. Não me preocupa absolutamente nada esta transição em que vamos entrar, acho que temos um ciclo político novo e vamos ter de nos adaptar, obviamente. Reconhecemos o papel do Carlos e temos pena que ele não possa continuar, mas repito que não podemos, em consciência, pedir-lhe que ele faça mais do que fez até hoje”, sublinhou o deputado.

Fora da corrida estará Maria Castello Branco, que foi cabeça de lista por Castelo Branco e é próxima de Guimarães Pinto. Ao Observador assegurou que não é candidata e que apoiará Cotrim de Figueiredo, caso o deputado decida avançar: “Tenho muito a aprender ainda, particularmente com o João Cotrim de Figueiredo”.

As notícias das 00h: Candidatura de João Cotrim Figueiredo à presidência do Iniciativa Liberal está em cima da mesa

A publicação de Guimarães Pinto no Facebook conta já com centenas de reações, comentários e partilhas e foi replicada também no Twitter pelo economista. Entre os que responderam a essa partilha está Rui Tavares, fundador do Livre, o outro pequeno partido que também elegeu um deputado (Joacine Katar Moreira) pela primeira vez nestas legislativas. “Boa sorte, Carlos, e um abraço!”, escreveu Rui Tavares.

Saída anunciada em “dia histórico” de um partido agora “com mais recursos”

No texto em que anuncia que vai abandonar a liderança, Carlos Guimarães Pinto começa por falar sobre esta quarta feira, o primeiro dia de debate do programa de Governo, na Assembleia da República, que classifica de “histórico” por ter, pela primeira vez, se ter ouvido no parlamento “a voz de um deputado eleito por um partido liberal”, recebido com uma “resposta azeda de António Costa”. Com isso, diz, a sua missão ficou cumprida.

Agora, escreve Guimarães Pinto, é tempo de encontrar uma nova liderança para “uma nova fase, com um novo rosto e uma estratégia que tem necessariamente de ser repensada face às novas circunstâncias”, sabendo que “não é fácil”. Ainda assim, garante, não será mais difícil do que era, há um ano, eleger um deputado, numa referência a João Cotrim de Figueiredo: “Hoje o partido tem ao seu dispor mais recursos, um rosto com exposição mediática e uma marca clara e distintiva na sociedade portuguesa. Se num ano partindo quase do zero, conseguimos construir tudo isto, não há limite ao que pode ser atingido a partir de agora. Eu ficarei para sempre com o orgulho de ter tido um pequeno papel nesta história”.

Carlos Guimarães Pinto, economista e professor universitário, foi eleito presidente do Iniciativa Liberal em outubro de 2018. Em setembro deste ano, em entrevista à Agência Lusa, falava nas dificuldades de ter “um partido novo sem um rosto mediático”, defendo que, ainda assim, o Iniciativa Liberal se tinha imposto “pelas ideias, mais do que qualquer outra coisa”.

“É muito complicado fazer política baseada em estatísticas e factos. Os cartazes trazem as pessoas para as redes sociais, onde nós podemos colocar mais conteúdo, mais dados, mais factos, mais números e depois das redes sociais, passam para o programa, onde está tudo muito mais explicado”, descrevia.

O partido estreou-se em eleições nas europeias de maio, sem qualquer eurodeputado eleito. Elegeu, pela primeira vez, um deputado nas legislativas de 6 de outubro.

Leia aqui o texto completo publicado por Carlos Guimarães Pinto:

“Hoje pela primeira vez em democracia ouvimos no parlamento a voz de um deputado eleito por um partido liberal. A resposta azeda de António Costa demonstrou o quanto ele temia o momento em que teria uma efectiva oposição ideológica no parlamento. Tenho a certeza que com a distância necessária, o dia de hoje será visto como histórico.

Há um ano este momento não passava de um sonho. A menos de um ano de eleições muitos acharam impossível que um partido sem dinheiro (que teve que fazer um peditório entre os membros para colocar o primeiro cartaz), sem um rosto mediático, sem uma direção ideológica clara e com um micro-escândalo às costas, conseguisse eleger um deputado nas eleições mais concorridas de sempre. A verdade é que conseguimos e hoje a sua voz foi ouvida bem alto no parlamento. A minha missão no partido ficou hoje #cumprida e termina aqui.

Há um ano havia um partido que tinha no nome a ideologia que eu tinha andado a defender durante mais de uma década e que estava num momento difícil de descoordenação operacional e, principalmente, ideológica. Também não tinha grandes alternativas de liderança (se a opção que vingou foi um tipo desconhecido e que até gaguejava, o melhor é não pensar quem seria a segunda opção :) ). Não poderia de forma alguma deixar que um partido que carregava o nome “liberal” se arrastasse dessa forma por 3 eleições. Fizemos uma reorganização operacional, o necessário acerto ideológico e conseguimos que a Iniciativa Liberal se tornasse num instrumento de divulgação positiva do liberalismo (e não o oposto como muitos antecipavam). Missão cumprida.

Eu percebo a desilusão que alguns possam ter em relação a este anúncio, mas não me podem pedir mais. Não me podem pedir que continue a sacrificar a minha vida por uma causa. Foi um ano intenso em que tive que abdicar de muito para fazer este caminho. Fi-lo numa altura em que ninguém o teria feito. Criei as condições para que outros o possam fazer daqui para a frente com recursos que eu nunca tive e, espero eu, menos sacrifícios pessoais. Não me podem exigir mais.

O partido começa agora uma nova fase, com um novo rosto e uma estratégia que tem necessariamente de ser repensada face às novas circunstâncias. O desafio da futura liderança da Iniciativa Liberal não é fácil. Será um desafio crescer num ambiente em que tantos desejam crescer ou recuperar o tamanho que outrora tiveram. Mas crescer a partir daqui não é um desafio mais difícil do que era há um ano eleger um deputado. Hoje o partido tem ao seu dispor mais recursos, um rosto com exposição mediática e uma marca clara e distintiva na sociedade portuguesa. Se num ano partindo quase do zero, conseguimos construir tudo isto, não há limite ao que pode ser atingido a partir de agora. Eu ficarei para sempre com o orgulho de ter tido um pequeno papel nesta história.

Obrigado a todos os que confiaram em mim, que me deram esta oportunidade e a tornaram numa experiência de vida (mais uma) que nunca esquecerei.”

Carlos Guimarães Pinto, da Iniciativa Liberal: “O liberalismo é um grande inimigo da corrupção”, diz

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