1 Não há jornal, rádio ou televisão que não tenha entre os seus comentadores vários antigos e actuais políticos. Penso que até não será exagero afirmar que uma fatia considerável do comentário político em Portugal é feito, precisamente, pelos maiores interessados nesse comentário.
Também não faltam em Portugal antigos políticos que depois vão ocupar cargos importantes em associações, organismos do Estado e até em organizações internacionais, como António Guterres ou Durão Barroso.
É por isso bastante interessante que o antigo político que mais alvoroço causa no país seja precisamente um que não tem nenhum espaço de comentário ou qualquer cargo de especial relevância.
É interessante que, das poucas vezes que decide intervir publicamente, PPC cause sempre um enorme reboliço. A esquerda tem por ele um ódio visceral, os eleitores de direita vêem nele uma espécie de Dom Sebastião, e as lideranças do PSD e do Chega temem-no. Ou seja, todos acreditam no seu peso eleitoral.
Mas por que razão causa tanta agitação? O antigo Primeiro-Ministro é bom orador, mas facilmente conseguimos lembrar-nos de oradores melhores, como Paulo Portas ou António Filipe. É um bom tribuno, mas não é superior nesse capítulo a Pedro Santana Lopes ou Francisco Louçã (já nem falo do estilo truculento de Ventura ou Sócrates). Não possui o currículo académico de Cavaco Silva ou de Assunção Cristas, nem a capacidade de relação de Marcelo Rebelo de Sousa. E, contudo, tem hoje um efeito na política portuguesa que supera o de todos estes.
2 Quando, em 2011, PPC foi eleito Primeiro-Ministro, a nossa democracia tinha batido no fundo. O Estado estava falido, sem dinheiro para pagar salários. Mas, mais grave do que isso, os anos de Governo de José Sócrates tinham desacreditado totalmente a nossa vida pública.
O Primeiro-Ministro cessante tinha, durante anos, exibido um estilo de vida completamente incompatível com as suas fontes de rendimento. Era perseguido por incessantes rumores de favorecimento a amigos. As obras perdulárias multiplicaram-se, e podia adaptar-se o antigo chiste da I República: «O país é de todos, mas o Estado é do PS». Sócrates e os seus companheiros tinham tomado de assalto todo o aparelho do Estado, incluindo as empresas públicas, distribuindo benesses aos camaradas ao bom velho estilo republicano.
A chegada de Passos Coelho ao poder representou uma lufada de ar fresco. Os tempos eram duros, mas tornou-se possível confiar no Governo. Mais do que um grande orador, tribuno ou académico, PPC era, acima de tudo, um Primeiro-Ministro em quem era possível confiar.
Não um governante que não erra, mas alguém de quem se percebia que colocava o país acima da sua sobrevivência política ou da conveniência do seu partido. Aliás, é fácil lembrar o ódio que lhe dedicavam tantos barões do PSD, nascido sobretudo do facto de PPC recusar as suas cunhas, garante da sua influência política (basta lembrar Ângelo Correia).
Parece-me que foi esta capacidade de dignificar o cargo de Primeiro-Ministro, de elevar a governação acima das conveniências pessoais e partidárias, e de executar e seguir o rumo necessário para o país, apesar de toda a impopularidade que isso lhe podia trazer, que tornou Pedro Passos Coelho a reserva moral da direita.
3 António Costa não sofria dos defeitos de Sócrates, mas também não tinha nenhuma das suas qualidades. Os seus anos de poder foram marcados apenas pelo seu desejo de sobrevivência. Foram anos de total imobilismo, em que a única coisa que realmente importava era que o PS mantivesse a sua influência.
O Estado voltou a ser controlado pelo Partido Socialista, os amigos voltaram a fazer todos bons negócios, enquanto os serviços públicos se degradavam a um ritmo nunca antes visto.
E assim Luís Montenegro herdou um Estado falido, não economicamente, mas moralmente. O SNS não funcionava, as repartições públicas não funcionavam, a escola pública não funcionava. A única coisa que parecia funcionar era a capacidade dos militantes do PS ganharem concursos públicos feitos à medida.
Havia esperança de que o antigo líder parlamentar de PPC tivesse aprendido com ele. Infelizmente, tal não parece ter acontecido. É verdade que escolheu um bom Governo e que tem tentado recuperar os estragos dos anos de Costa. Mas, infelizmente, alguns hábitos custam a morrer.
O grande problema deste Governo, que descredibiliza todo o seu trabalho, é o próprio Primeiro-Ministro. Não porque Luís Montenegro tenha feito algo de ilegal, mas porque não é capaz de compreender que um Primeiro-Ministro tem de estar acima de qualquer suspeita. Passar para os filhos uma empresa que vive claramente da sua influência, mantendo avenças com empresas que têm contratos públicos, é legal, mas não é ético. Nomear para altos cargos da Administração Pública pessoas sem qualquer qualificação que não sejam os serviços prestados ao partido continua a não ser ilegal, mas desacredita o Governo. Manter ministros que fazem obras com empreiteiros que antes contrataram para um organismo público, pagando-lhes em dinheiro, continua a não ser ilegal, mas evidentemente levanta suspeitas.
É neste contexto que Pedro Passos Coelho ganha força. Não apesar de não ser comentador, não apesar de não ter aceite cargos públicos, não apesar de não estar em nenhuma grande empresa, mas precisamente por tudo isso. Porque continua a ser o político que recusa todos os favores e procura apenas servir o país.
É natural, por isso, que, apesar dos anos passados, diante de um Estado moralmente falido e de uma sociedade em crise, Pedro Passos Coelho continue a causar tanto reboliço. Porque é o único que parece capaz de devolver a dignidade ao Estado e a credibilidade à vida política.
Jurista