O quinto dia de interrogatório a José Sócrates durou oito horas. À saída, o ex-primeiro-ministro disse estar “muito satisfeito”. “Foi muito exaustivo e, como vos disse à entrada, vim aqui com um espírito inicial de repor a verdade. Não ficou pedra sobre pedra nesta acusação”, afirmou o ex-governante, numa referência à frase que também tinha dito ao início do dia. “Saio MUITO satisfeito”, enfatizou Sócrates já de abalada.

O juiz Ivo Rosa iniciou o quinta dia do interrogatório de José Sócrates com uma decisão inaudita: ordenou à funcionária judicial que recolhesse os telemóveis e dos ipads dos mais de 20 advogados antes destes entrarem na sala de audiências. Os defensores dos arguidos aceitaram deixar os aparelhos à guarda do tribunal e ficaram apenas com os computadores portáteis.

Os procuradores presentes na sala do Tribunal Central de Instrução Criminal também foram abrangidos pela ordem do juiz de instrução criminal, de acordo com o Público e com a TVI, ficando assim proibidos de ter aparelhos de telecomunicações na sala.

O objetivo de Rosa é simples: impedir a comunicação com o exterior, já que o magistrado titular da investigação criminal da Operação Marquês entende que são os advogados e os procuradores as fontes que estão a informar a comunicação social do que se vai passando durante os interrogatórios de José Sócrates.

Os telemóveis e os ipads foram devolvidos provisoriamente no intervalo. No final da diligência, os procuradores e os advogados recuperaram definitivamente os aparelhos.

Recorde-se que o juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal já tinha ameaçado os advogados com tal ordem de apreensão na sessão de 29 de outubro. Além de ter dado uma autêntica lição de moral ao afirmar que os causídicos que tinham passado informação aos jornalistas sobre o primeiro dia do interrogatório a José Sócrates deveriam pensar na sua profissão, porque enquanto profissionais do foro não estavam a cumprir os seus deveres de cumprirem o sigilo da diligência, Ivo Rosa chegou mesmo a perguntar aos advogados presentes: “Quem se acusa?”. Ninguém respondeu.

Sócrates: “Quero repor a verdade para que não fique pedra sobre pedra nesta acusação monstruosa”

À entrada para a quinta sessão do seu interrogatório, José Sócrates afirmou-se disposto a “repor toda a verdade” para que “não fique pedra sobre pedra nesta acusação monstruosa”, disse aos jornalistas à chegada à entrada do tribunal, localizado na antiga sede da Polícia Judiciária, na rua Gomes Freire, em Lisboa.

Ivo Rosa tinha inicialmente agendado quatro dias da semana passada para o interrogatório, mas as cerca de cinco horas diárias não foram suficientes para abordar os temas que constam na acusação do processo. Não é, portanto, ainda certo, que seja o último dia de interrogatório.

Ao chegar ao tribunal, José Sócrates recusou-se a responder a perguntas e fez uma breve declaração aos jornalistas, “A única coisa que tenho a dizer é que venho para este interrogatório exatamente com o mesmo espírito com que vim para o primeiro dia. Com vontade de repor a verdade e para que não fique desta acusação pedra sobre pedra. É uma acusação monstruosa, injusta e completamente absurda. É com esse espírito que venho”.

Na última quinta-feira, José Sócrates voltou a dizer que estava confiante, sem avançar mais comentários. O ex-primeiro-ministro está acusado, no âmbito da Operação Marquês, de 31 crimes económico-financeiros: três crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, 16 crimes de branqueamento de capitais, nove crimes de falsificação de documentos e três crimes de fraude fiscal qualificada.

Já segunda-feira da semana passada, no primeiro dia de interrogatório, Sócrates disse que pretendia “repor a verdade”.

Venho aqui fazer o que tenho feito ao longo destes cinco anos. Repor a verdade. É um longo caminho, bem sei. É um longo caminho, um caminho mais árduo do que aqueles que fazem alegações completamente infundadas, injustas e até absurdas. Mas é isso que venho aqui fazer: repor a verdade”, disse à entrada para o tribunal.

Texto retificado: o juiz Ivo Rosa ordenou a recolha dos telemóveis e dos ipads dos advogados e dos procuradores antes da sessão mas não deu ordem de apreensão dos mesmos aparelhos.