Evo era perfeito. Um nome curto, ao gosto de Dionisio Morales que a 26 de outubro de 1959 via nascer o quinto de sete filhos. Não era essa a sugestão do calendário de Bristol. O almanaque, muito popular nos países sul-americanos, oferecia um nome de santo para cada dia do calendário. Também tinha datas para eclipses ou previsões de marés, mas para esta história, que conta como o primeiro indígena chegou a Presidente (agora demissionário) da Bolívia, só interessa a sugestão dos nomes. Um filho varão, nascido naquele dia de primavera do hemisfério sul, deveria chamar-se Evaristo. Acontece que aquelas 8 letras não caíram no goto de Dionisio, que teve mesmo de bater-se com o padre, para que o filho se chamasse Evo.

“Eu tinha de me chamar Luciano ou Evaristo, conforme era determinado pelo calendário de Bristol para os nascidos a 26 de outubro. Mas os dois nomes eram muito longos para o meu pai. No fim, escolheu Evo e, para que pudesse ser esse o meu nome, teve de discutir com o padre”, conta o próprio Evo Morales, que este domingo renunciou ao cargo de Presidente da República ao fim de 14 anos no poder, na sua autobiografia “Mi vida, de Orinoca al Palacio Quemado”.

Dionisio e a mulher María Ayma eram muito pobres. A antiga casa onde Juan Evo Morales Ayma cresceu atesta isso mesmo, uma construção de adobe, o antepassado do tijolo de barro, e que ainda hoje se mantém de pé na localidade de Isallavi.

Ali, a 3.783 metros de altitude, no Altiplano, o planalto boliviano, vivem apenas 33 pessoas.

Na sua autobiografia, que escreveu “para contar a sua verdade”, Evo Morales recorda a casa onde viveu, sem luz, nem eletricidade, e onde se cozinhava a lenha. Conta que só aos 14 anos soube o que era roupa interior, aos 15 anos energia elétrica e, aos 17, o duche, a escova e a pasta de dentes. Sobre o seu nascimento, lembra que nasceu sobre uma pele de carneiro, já depois da morte de três dos seus irmãos.

Dos sete filhos de Dionisio, só três chegaram à idade adulta: Evo, Hugo e Esther. E é a irmã de Morales que conta como o irmão quase não sobreviveu ao nascimento. “Quase morreu ao nascer”, relatou Esther à France 24 em outubro passado, durante a campanha que terminou com Evo Morales reeleito chefe de Estado pela quarta vez consecutiva. “A avó salvou-o por pouco. Se não fosse por ela, nem a minha mãe teria sobrevivido, nem o meu irmão teria sido presidente.” Depois do nascimento de Evo, María ainda viu mais uma filha morrer.

A casa onde Evo Morales nasceu em Isallaví

Evo Morales, pai de álvaro e Eva Liz de diferentes mulheres, é de etnia uru-aimará — um povo ameríndio que habita vários países sul-americanos, como a Argentina, o Peru e o Chile — e ao ser eleito pela primeira vez, em 2006, fez história e tornou-se o primeiro indígena a ocupar o cargo de Presidente. Na Bolívia, os dois milhões de indígenas fazem deste o segundo maior grupo nativo de um país habitado por mais de 11 milhões de pessoas e com uma composição étnica muito variada. Apesar disso, nunca um indígena tinha chegado a chefe de Estado.

Muito antes de sonhar com o Palácio Quemado, Evo Morales foi, ainda criança, pastor de lamas: e ora tinha de dormir ao relento, ora tinha de fazer longas caminhadas para chegar à escola. Na autobiografia, fala também da sua passagem por uma banda de música enquanto trompetista e da sua paixão pelo futebol — no Museo de la Revolución Democrática y Cultural os seus sapatos de crianças partilham o espaço com uma camisola de Cristiano Ronaldo oferecida pelo futebolista ao então presidente.

O casaco de lã de alpaca é um fiel companheiro de Morales em tomadas de posse e visitas de Estado

Os 10 anos (1972-82) em que Morales serviu o Exército Boliviano, no 4.º Regimento Ingavi de Cavalaria, também são retratados no livro e, claro, o seu papel como líder sindical dos cocaleros, os agricultores bolivianos que cultivam coca, a planta de onde se extrai a cocaína. Essa entrada no mundo sindical, a que se seguiu a estreia na vida política, foi em Chapare, durante anos um esconderijo para o cultivo ilegal da planta e um dos principais alvos quando se tentou erradicar a coca do país — uma promessa do presidente Hugo Banzer Suárez (1971-1978 e 1997-2001) feita ao mundo, para que o país deixasse de ser taxado como produtor de coca.

É como líder dos cocaleros que Morales é eleito membro do Congresso, pela primeira vez, em 1997, através do partido que ajudou a criar, o MAS — Movimento para o Socialismo. Em 2002, candidata-se a Presidente da República, mas acaba vencido. A vitória chega nas eleições seguintes, quando consegue 53,74% dos votos. Na tomada de posse, em janeiro de 2006, promete reduzir a pobreza entre os povos nativos, aliviar as restrições dos agricultores de coca, nacionalizar o setor da energia, combater a corrupção e aumentar os impostos sobre os mais ricos.

Também defendeu a revisão da Constituição que, entre outras coisas, passou a permitir, de 2009 para cá, que um Presidente fosse eleito duas vezes, o que até então estava vedado pela lei fundamental do país. Foi assim que Morales conseguiu candidatar-se a um segundo mandato presidencial e, de novo, ser eleito. Em 2013, o Tribunal Constitucional considerou que como o primeiro mandato de Morales teve início antes da reforma constitucional, o presidente poderia candidatar-se de novo em 2014, pela terceira vez. Nova vitória, com 60% dos votos.

Em fevereiro de 2016, numa altura em que a economia boliviana perdia vigor, e em que Morales era cada vez mais contestado, o povo rejeita em referendo (51% contra 49%) uma nova alteração constitucional que permitiria ao Presidente candidatar-se a um terceiro mandato. Evo Morales parece resignado com a decisão dos bolivianos, mas em setembro de 2017, o seu partido MAS dirige-se ao Tribunal Constitucional e pede que sejam removidos os limites às candidaturas. A resposta positiva chega dois meses depois e, em dezembro de 2018, é o Supremo Tribunal Eleitoral a concordar com a decisão.

Morales tem caminho livre para se recandidatar em 2019, mas os protestos multiplicam-se.

As eleições, que deram a quarta vitória a Evo Morales, aconteceram a 20 de outubro e os problemas começaram logo na noite eleitoral, quando o Supremo Tribunal Eleitoral suspendeu a contagem rápida com apenas 83% dos votos apurados. Apesar de tudo indicar que haveria uma segunda volta, no dia seguinte foi anunciada a vitória de Morales por uma estreita margem, mas a suficiente para não ser necessário voltar às urnas. As acusações de fraude começaram imediatamente, bem como os protestos na rua, que chegaram a fazer três mortos e centenas de feridos.

No domingo, Evo Morales, o Presidente boliviano que esteve mais tempo no cargo na história do país, renunciou, depois das pressões dos militares. Desta vez, não levava vestido o casaco que o acompanhou em tantas tomadas de posse e visitas de Estado, o casaco escuro, de lã de alpaca, com desenhos indígenas, que o lembrava sempre de onde vinha.