Francisco George, presidente nacional da Cruz Vermelha Portuguesa, diz ser um “falso relatório” aquele que levou a Polícia Judiciária (PJ) a investigar um alegado caso de encobrimento fiscal da instituição. Questionado na Rádio Observador (num Direto ao Assunto que pode ouvir aqui) sobre as suspeitas de que a Cruz Vermelha não faria declarações contabilísticas nem divulgaria a origem de apoios públicos, o médico respondeu:

Essa é uma afirmação sem fundamento. Acabámos de receber na Cruz Vermelha Portuguesa o verdadeiro relatório. Porque esse relatório que foi citado pela imprensa não tinha fundamento em termos de veracidade. Era um falso relatório”, afirmou

O relatório, que veio a público na sequência das buscas que a Unidade Nacional de Combate à Corrupção da PJ fez em dezembro de 2018 à Inspeção-Geral de Finanças (IGF) à Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) e ao Ministério da Defesa, refere-se às contas da instituição relativas aos anos de 2013, 2014 e 2015. A IGF considerava, numa auditoria às contas da Cruz Vermelha Portuguesa que a instituição usara artifícios financeiros para ocultar a verdadeira origem dos rendimentos, escondendo assim o que é financiamento do Estado.

Cruz Vermelha usou artifícios para esconder o que é financiamento estatal

Questionado sobre estas acusações Francisco George defende que “isso foi tudo anulado e é falso”. O documento “existe”, mas “não tinha sido aceite pelo inspetor-geral” e, portanto, é “um falso documento”:

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Estava mal documentado, erradamente escrito, com princípios que não são válidos. A um ponto em que os advogados da Cruz Vermelha Portuguesa estavam a equacionar se valerá a pena ou não colocar uma queixa sobre afirmações que são imprecisas ao relator antigo que, aliás, já não é funcionário da IGF”, acrescentou.

O presidente nacional desvaloriza o mensageiro, dizendo que “o próprio relator tinha sido expulso da IGF por problemas de incompetência”. E apontou o dedo à comunicação social, que noticiou o documento:

Estou sempre pronto a aplaudir tudo o que é a liberdade de imprensa. Mas a liberdade de imprensa tem de estar associada a responsabilidade. A verdade é que, há largas semanas, um falso relatório foi divulgado pela imprensa”, acusou em entrevista à Rádio Observador.

O presidente nacional da Cruz Vermelha Portuguesa, Francisco George, durante a cerimónia de tomada de posse na sede nacional da organização, a 23 de novembro de 2017. Créditos: ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Novo relatório contraria denúncia que motivou investigação, afirma Francisco George

O verdadeiro relatório? Chegou “há cerca de uma semana” à Cruz Vermelha Portuguesa, garante Francisco George, acrescentando que está por horas a divulgação desse segundo documento. Referindo-se ao documento redigido em 2016, o médico reduz a denúncia a um “projeto de relatório que, para ser relatório, teria de ter contraditório”. Só teve três anos depois — por motivos que o presidente nacional não soube explicar, remetendo a responsabilidade de resposta para a IGF. E esse contraditório “anula o outro” documento, descreve:

O ano de incidência desse relatório não coincide com o mandato do atual presidente. Estamos a falar do mandato do meu antecessor, mas posso assegurar que o relatório que foi recebido agora contradiz”.

No entanto, Francisco George admite que encontrou “problemas de falta de transparência” quando, há dois anos, assumiu a liderança da Cruz Vermelha Portuguesa. Sobre a “falta de transparência” que terá encontrado quando assumiu a presidência nacional da organização, Francisco George afirma não ter encontrado “ilícitos com dignidade criminal”, embora tenha acrescentado que “aquilo que foi encontrado, foi corrigido e tem sido discutidos nos órgãos reguladores”.

Encontrei situações que precisavam de correções. E essas correções foram introduzidas. Houve pessoas que trabalhavam lá e que perderam privilégios. Havia alguns abusos, mas foram corrigidos e cancelados. Não há lugar aqui a privilégios de ninguém”, afirmou.

Ainda em setembro, uma reportagem da TVI acusou o presidente da Cruz Vermelha Portuguesa de usar regalias da instituição que violam os regulamentos que o próprio Francisco George redigiu. Agora, o médico sublinha em entrevista à Rádio Observador que trabalha em “regime de voluntariado”:

Nada recebo em termos de remuneração para fazer um trabalho de gestão complexo. O presidente nacional da Cruz Vermelha não tem salário, não recebe senhas de presença, não usa telemóvel, não tem cartão de crédito e não tem lugar a pagamento per diem. É inteiramente voluntário, conforme as normas internacionais da Cruz Vermelha. Apesar disto, dedica grande parte do seu tempo, mais de 12 horas por dia, à gestão da Cruz Vermelha. E faz este trabalho com todo o entusiasmo”, defendeu.

Francisco George, quando ainda era diretor-geral da Saúde, durante uma entrevista à Lusa no âmbito das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril de 1974. Créditos: INÁCIO ROSA/LUSA

Santa Casa negoceia com Cruz Vermelha para comprar gestão do hospital

Ainda em entrevista à Rádio Observador, Francisco George confirmou que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a Cruz Vermelha Portuguesa estão em negociações para a compra da sociedade de gestão do hospital daquela instituição.

“Estão a decorrer negociações com uma grande organização do setor social. Neste caso, é a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que é uma importante e robusta organização do setor social. É o parceiro natural para a Cruz Vermelha Portuguesa”, acrescentou.

Comprar a gestão do hospital não significa comprar a infraestrutura em si, sublinhou Francisco George: “A Cruz Vermelha Portuguesa detém, como ativo que não está à venda, o Hospital da Cruz Vermelha”, começou por dizer o presidente nacional. Esse hospital é gerido por uma sociedade anónima de gestão detida em 55% pela Cruz Vermelha e em 45% pelo Estado. “Quando se fala de vender e de negociações, tudo isso diz respeito à sociedade de gestão, não ao hospital”, clarificou Francisco George.

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa interessada em comprar Hospital da Cruz Vermelha

Ora, a Santa Casa está interessada em comprar a totalidade das ações referentes à gestão do hospital, diz o médico.

“Estão a decorrer trabalhos que visam perceber com todo o rigor o valor dos ativos da sociedade de gestão. Não estamos a falar de milhões de euros neste processo. Estamos a falar de um processo que está a decorrer com inteira confiança quer por parte de quem vende, quer por parte de quem compra, na perspetiva de reforçar o setor social, a prestação de cuidados hospitalares na Grande Lisboa”, garantiu Francisco George.

Entrada do Hospital da Cruz Vermelha. Créditos: MÁRIO CRUZ/LUSA

A iniciativa de colocar a gestão do hospital à venda partiu da Cruz Vermelha, explica o presidente nacional. É que “a Cruz Vermelha é do setor social”:

“O Estado, ao associar-se em termos de acionista, fez resultar uma sociedade anónima que entra no mundo do privado, o que não faz grande sentido porque devia dar a marca também de âmbito social. O resultado como sociedade anónima tem implicações de concorrência com o verdadeiro setor privado. E isso constitui um problema”, considerou Francisco George.

Mas por trás da decisão estão também motivos financeiros, assume o presidente nacional. A sociedade gestora será como que uma inquilina do espaço que ocupa no Hospital da Cruz Vermelha. E a renda que pagará “é importante para a Cruz Vermelha porque é um sinal de distinção em relação ao mercado hospitalar no âmbito da saúde privada”: “No setor hospitalar privado, os resultados positivos são para distribuir dividendos. No caso do setor social, são para investir na atividade humanitária”, conclui.