Luís Montenegro foi o último dos três candidatos à liderança do PSD a falar e, ao contrário do que fez Rui Rio, aceitou que a parte de perguntas e respostas dos jovens fosse aberta à comunicação social. Problema: ficou debaixo de fogo. Três jovens que estavam na sala, criticaram o facto de ter sido desleal a Rui Rio e por ter tentado afastá-lo da liderança em janeiro. Ouviu até, de um dos jovens, uma acusação de falta de ética. O ambiente ficou tenso, ao contrário do que tinha acontecido nas intervenções de Rui Rio (pelo menos da parte aberta) e de Miguel Pinto Luz, que não teve qualquer reação desfavorável durante o todo o tempo que teve no evento.

O golpe veio diretamente de Sá Carneiro. “Cheguei aqui com a cabeça em branco, sem saber em quem votar, e só decidi depois de ter ouvido os três: vou votar em Rui Rio porque a ‘política sem ética é uma vergonha'”. Foi assim, citando uma célebre frase do fundador do PSD, que um jovem social-democrata se dirigiu a Luís Montenegro para fazer a crítica mais dura da noite — antes dele já outros dois jovens tinham questionado o ex-líder parlamentar sobre como poderia liderar um PSD que tinha passado dois anos a criticar permanentemente. E a resposta de Luís Montenegro surgiu com a mesma dureza e sugerindo premeditação: “Espero que tenhas a consciência tranquila do ponto de vista ético por teres dito que só decidiste o sentido de voto aqui”, começou por dizer, sublinhando que a acusação de falta ética era uma acusação que não aceitava.

Seguiu-se uma extensa justificação de Luís Montenegro sobre a sua postura nos dois anos de mandato de Rui Rio, começando pelo facto de ter assumido logo no congresso que era adversário de Rui Rio e culminando no episódio de janeiro em que desafiou diretamente a liderança de Rio. Montenegro admitiu que pode ter havido exageros que foram “obstáculos” ao mandato do atual líder, mas afirma desde logo que se houve beneficiário do episódio de janeiro foi o próprio Rui Rio, porque serviu para Rio ter um momento no partido onde “ganhou qualquer coisa”.

Admito que pode ter havido exageros, não vou estar aqui com um discurso cândido de que não houve dificuldades por causa das divergências internas, claro que houve. Mas convidar militantes que não concordam consigo a sair do partido não é de um líder agregador”, disse.

Os três candidatos conhecidos à liderança do PSD, Rui Rio, Miguel Pinto Luz e Luís Montenegro, tiveram este sábado um debate indireto no Casino Fundanense, no Fundão, no 2º Congresso da Coesão Territorial da JSD. Isto porque, depois de Rui Rio (o primeiro a falar e que começou por volta das 16h50) irá falar Miguel Pinto Luz (que estava previsto que começasse às 17h30) e depois Luís Montenegro (às 18h30). Cada um falará uma hora, com uma intervenção aberta à comunicação social e uma parte de perguntas e respostas, que será à porta fechada.

O candidato a primeiro-ministro que não quer oposição “pífia”

Sendo o último a falar dos três candidatos à liderança do PSD, Luís Montenegro fez questão de dizer que já está a pensar no passo seguinte. Para ele são diretas, que entende como quase primárias. Apesar de serem três candidatos, Montenegro disse que a sua é “uma candidatura que ultrapassa muito o universo do PSD e da estrutura do PSD como organização”, e que “projeta uma liderança política” para o país.

Luís Montenegro assume-se como candidato a candidato a primeiro-ministro, mas antes há Rui Rio para ultrapassar. Lembrou que já no congresso lhe tinha dito que não podia ser “um partido subalterno do PS”. O líder, acusa Montenegro, “não recentrou o PSD, recentrou o PS”, uma vez que “o PS que estava encostado ao BE e PCP ficou ele mais centrado com a disponibilidade do PSD,  do ponto de vista da perceção”. Essa, garante Montenegro, já tinha dito ser “uma estratégia suicida”.

Montenegro voltou a lembrar que o PSD teve, durante o mandato de Rio, o “pior resultado de sempre em europeias e o pior em legislativas em 26 anos”. Isto, no seu entender, prova que tinha razão no cenário que tinha “antecipado”. E atirou: “Estou aqui para fazer o contrário do que foi feito”. No ataque a Rui Rio, Luís Montenegro disse ainda que é preciso “aceitar a divergência de opinião no PSD” e acrescentou em mais uma farpa ao líder: “Não aceito um partido onde a liderança convida aqueles que pensam de forma diferente dela para abandonar o partido”.

O candidato à liderança do PSD diz que é preciso o PSD “começar a ter cultura democrática” e garantiu que irá aceitar ideias e pessoas de outras candidaturas. Desde logo, disse que manterá o Conselho Estratégico Nacional apesar de “ter sido a liderança do dr. Rui Rio a criá-lo, que eu não acho que não deva haver áreas sectoriais. É um legado que vai ficar da liderança do dr. Rui Rio, nada contra isso”. Além disso, espera contar nos órgãos do partido caso ganhe com pessoas que apoiem  “Rui Rio e Pinto Luz”. E acrescentou, provocando sorrisos na sala, que até já sabe quem vai recrutar: “Até já tenho na minha cabeça quem podem ser. E elas se calhar também já têm.”

A nível de ambição, Luís Montenegro quer liderar não só o governo, mas um governo com apoio maioritário, já que a sua candidatura “está vocacionada para procurar uma maioria absoluta no Parlamento”. Prescisa dela já que não conta com o PS para nada. E aproveitou para responder a Pinto Luz, que o criticara horas antes por dizer que vota contra o Orçamento do PS. “Eu não sou um radical (…) Alguém acredita que o PSD vai votar a favor do Orçamento do Estado? É preciso ver o documento? Estão os programas que combatemos no Parlamento. Estão à espera que traga uma novidade tão boa que nós vamos abster-nos ou votar contra?”, justificou.

Sendo o último, pôde responder às críticas. Rio explicou que não fazia oposição como se fosse boxe e que não queria uma “oposição troglodita”, ao que Montenegro retorquiu: “Não queremos fazer uma oposição troglodita, mas uma oposição que não é pífia, uma oposição firme, séria“.

Rio não quer entrar num ringue de boxe, nem com Costa nem com adversários internos

“Os portugueses não esperam da política um combate de boxe”. Rui Rio foi ao evento da juventude social-democrata explicar porque é que se recandidata a um novo mandato na presidência do PSD e o que é que se propõe a fazer caso seja eleito para mais dois anos. E são três os eixos do seu projeto: reforçar a abertura do partido à sociedade, aumentar a implantação autárquica do partido e fazer uma oposição credível ao PS — porque “o país sofre com uma oposição troglodita”. É aqui que Rio leva a disputa política para o ringue de boxe, ou melhor, não leva. É essa a sua imagem de marca, e faz questão de o dizer em todas as suas intervenções.

Rui Rio não gosta de fazer oposição só porque sim e lembra o exemplo do CDS (sem referir o nome do partido) para mostrar no que deu uma oposição “troglodita”. “Todos vimos no que deu. Uma oposição que é destrutiva permanentemente dá cabo da credibilidade”, disse. E foi essa importância de uma oposição civilizada que quis explicar aos jovens sociais-democratas. Primeiro, dizendo que estar na oposição também é útil para servir o país, depois, que estar na oposição não é sinónimo de criticar tudo. “Uma oposição credível tem de ter a grandeza de saber concordar. É um ato de fraqueza estarmos sempre contra. Os outros não fazem tudo bem nem tudo mal, tal como nós próprios também não fazemos tudo bem nem tudo mal. Só somos credíveis quando tivermos a grandeza de concordar e a coragem de não concordar”, disse.

Entre explicações sobre como o presidente do PSD pretende apostar tudo nas autárquicas para reforçar a real implantação do partido no país e, com isso, fazer caminho para as próximas legislativas (uma vez que os portugueses, diz, avaliam a prestação de um partido como um todo e não avaliam apenas o que grita mais alto), Rui Rio esteve cerca de 35 minutos a discursar sem perder muito tempo a criticar os seus adversários internos: Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz estavam prestes a chegar à mesma sala do casino Fundanense, mas Rui Rio só de forma indireta criticou os estilos de fazer oposição diferentes do seu. As eleições são internas, por isso a ordem é mesmo para evitar o ringue de boxe público.

De resto, autárquicas. É essa a grande aposta do próximo mandato do líder do PSD. Rui Rio disse-o claramente, lembrando que os dois primeiros anos, 2018 e 2019, obedeciam a uma lógica assente nas eleições europeias, regionais da Madeira e legislativas, e os próximos dois anos têm outro tipo de eleições no horizonte: autárquicas e regionais dos Açores. Ao contrário de Montenegro e Pinto Luz, que têm repetido a ideia de que a meta é “ganhar as autárquicas”, Rui Rio insiste no realismo em vez do idealismo. O objetivo diz, é “ganhar mais câmaras, mas mesmo as que não ganharmos temos de recuperar vereadores eleitos e ter maior percentagem de votação”, disse. Tudo porque, diz, a implantação real de um partido mede-se em função do número de presidentes da junta que tem, mas também pelo número de quadros nas juntas que tem mesmo na oposição, e o mesmo vale para as câmaras municipais: não conta só o número de presidentes de câmara laranja, mas também de vereadores em funções.

Lisboa e Porto são os grandes exemplos disso. “Não podemos voltar a ter 11% em Lisboa e 10% no Porto”, sublinhou várias vezes o atual presidente do partido, dando a entender que, mesmo que o PSD não consiga recuperar essas duas câmaras, pelo menos tem de ter uma percentagem de votos digna de um partido de grandes dimensões.

O “Miguel” calçou as luvas e atacou o “amigo” Montenegro e a falta de ambição de Rio

Miguel Pinto Luz fez questão de se cruzar com Rui Rio. Por atraso do líder do PSD, chegou antes da hora, mas a organização tratou de lhe arranjar uma sala. O antigo líder da distrital do PSD fez questão de se cruzar no corredor com o líder para o cumprimentar e assim foi. Lá dentro, disse que não queria ser chamado de “engenheiro”, pois estava na sua casa, a JSD. “Tratem-me por Miguel”, disse. Mas, ao contrário de Rio, tirou as luvas de boxe e não demorou a passar ao ataque e Montenegro também foi atingido.

Pinto Luz começou por dizer que considera “preocupante o estado atual do partido”, já que não aceita “um PSD destituído de ambição”. E visou diretamente David Justino, ao dizer que não aceita ouvir um “vice-presidente da comissão política” dizer que ele e “o dr. Luís Montenegro, meu caro amigo, que falará daqui a pouco” criticar os adversários por se apresentarem com “a ambição de ganhar as eleições”. E reafirmou o que já tinha dito na apresentação: “Quero ganhar as autárquicas, quero ganhar as legislativas”.

E continuou a disferir golpes em Rio: “Há quem olhe para o PSD e goste apenas de partes do PSD. Gosto a 100% das minhas filhas. Gosto a 200% do PSD. Eu gosto de tudo no PSD”. E convidou o atual presidente do PSD a fazer as malas, dizendo: “Quem não gosta deste partido, que dê lugar a outros que gostem”. Pinto Luz voltou ainda a tentar colar Rio ao PS, dizendo que o PSD  “ganhou maior dimensão quando teve ambição sem prestar vassalagens a outras forças sociais ou partidárias.

Mas o seu “caro amigo” Montenegro também não saiu incólume, pois Pinto Luz quer ir à luta e situar-se entre Rui Rio e Luís Montenegro. Garantiu, por isso, que, com ele na liderança haverá uma “oposição de confiança” e disferiu um ataque ao adversário: “Não me ouvirão dizer que voto cegamente contra um Orçamento do PS“. E sugere que Montenegro o faz por razões eleitorais, ao afirmar: “O nosso primeiro interesse não é a nossa agenda no partido, é a agenda nacional, do interesse nacional“.

Estando no meio de dois polos, Pinto Luz quer se afirmar pela diferença. Assume que é o menos conhecido, ao dizer que “a falta de notoriedade” é “algo que o tempo resolve”. E voltando a enviar uma farpa a Rio, diz que com ele não haverá uma preocupação obssessiva pela querela interna e diz que quando “ganhar em janeiro” vai “buscar o dr. Luís Montenegro e o dr. Rui Rio”. Sugere, por isso, que não fará purgas internas.

Pinto Luz voltou a assumir a ligação ao passismo, lembrando que Passos Coelho foi “injustamente intitulado de perigoso liberal”, quando liderou um”governo dos mais reformistas” que Portugal teve. E após enumerar várias medidas de Passos Coelho, questionou: “Que Diabo, isto é ser liberal?