Um vinho tinto e um vinho branco nasceram atrás das grades, fruto de uma parceria entre o EPLJ – Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens) e a AdegaMãe, conhecida produtora da região de Lisboa. De nome “Inclusus”, as duas referências que entretanto chegaram em liberdade ao mercado pretendem valorizar as competências profissionais dos jovens reclusos nas áreas da viticultura e produção de vinho. São eles que garantem a produção da uva e fazem a respetiva vindima — a vinificação, essa, compete aos técnicos da produtora do oeste. “Inclusus” vem de inclusão.

O projeto viu a luz do dia na vindima de 2018 e nele estiveram envolvidos 17 reclusos até aos 21 anos — o EPLJ é conhecido enquanto “prisão-escola”, uma vez que acolhe jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 21 anos. É também este o estabelecimento prisional onde, em maio deste ano, um vídeo foi publicado nas redes sociais mostrando vários reclusos no interior de uma cela a cantar e a dançar ao som de uma música. Nas filmagens, inicialmente divulgadas pelo Correio da Manhã, às quais o Observador teve acesso, é ainda possível ver um recluso a enrolar um cigarro e a fumá-lo de seguida.

Voltando ao vinho: as uvas da colheita do ano passado deram origem às 2.500 garrafas agora no mercado e são oriundas de seis hectares de vinha que se encontram na propriedade onde se localiza o estabelecimento prisional, conhecida por Quinta Lagar D’El Rei. As vinhas estão efetivamente dentro dos muros da prisão. Em 2019, das cerca de 17 toneladas de uvas colhidas, nove destinam-se à vinificação na AdegaMãe — na calha estão 8 mil garrafas, resultado da participação de 34 reclusos. Nos seis hectares de vinhedo estão plantadas castas como castelão, touriga nacional, aragonês ou syrah, nas tintas, e fernão pires, alvarinho, arinto ou malvasia fina, nas brancas, entre outras.

O Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens) tem seis hectares de vinha plantados. © DR

Não é incomum os jovens reclusos dedicarem-se a atividades que promovam as competências sociais e pessoais, tal como a hortifruticultura e as culturas arvenses, mas a aposta na viticultura ganha agora outra dimensão. Apesar do EPLJ contar com pessoal especializado, incluindo um engenheiro agrário, os reclusos participam na preparação inicial dos solos, na plantação e na aramação das vinhas, explica ao Observador Joana Patuleia, diretora do estabelecimento prisional em causa. Anualmente, desenvolvem ainda a poda, os tratamentos fitossanitários, o controlo de infestantes e a própria vindima. Todos os vinhedos em produção estão certificados em “Modo de Produção Integrada”.

Os trabalhos na adega, esses, não envolvem a participação dos reclusos, e ficam entregues à equipa da AdegaMãe, dupla de enólogos Anselmo Mendes e Diogo Lopes incluída. Para dezembro estão marcadas visitas de estudo dos reclusos à adega de design em Torres Vedras — projeto de vinhos associado à empresa Riberalves –, para que estes possam ver de perto as diferentes fases de construção de um vinho, como a criação de blends e o engarrafamento. Está também prevista a ida de técnicos da AdegaMãe ao EPLJ para dar mais formação na área da viticultura. Além disso, o enólogo da casa, Diogo Lopes, tem acompanhado sempre que possível a vinha do estabelecimento prisional.

Todo o projeto de vinificação é feito na AdegaMãe. © DR

Questionada sobre como este projeto contribui para a reinserção social dos reclusos, Joana Patueleia elenca a “formação profissional na área da vitivinicultura” e a “criação de mais postos de trabalho”, sendo que já existem reclusos que manifestaram interesse em trabalhar no sector do vinho uma vez cumprida a pena. E será que os reclusos podem beber o vinho que ajudam a produzir? “Em termos do Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais não é permitido o consumo de bebidas alcoólicas, admitindo-se, contudo, o consumo de uma bebida em duas ocasiões festivas por ano”, responde ao Observador.

“O projeto passa pela AdegaMãe que vinifica todas as uvas do Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens). O custo de transformação das uvas não é cobrado, é revertido em vinho para o EPLJ”, esclarece Bernando Alves, diretor geral da AdegaMãe, que explica que a parceria tem uma componente de responsabilidade social — todos os lucros revertem para investimento na formação agrícola dos reclusos. “Os jovens reclusos têm uma vida pela frente e, obviamente, isso não nos é indiferente”, continua, admitindo que, se fosse o caso, não teria problemas em receber um ex-recluso para trabalhar na AdegaMãe.

Joana Patuleia e Bernando Alves. @adegamae_wines/Instagram

Cada garrafa “Inclusus” custa 3,99 euros — o tinto é produzido a partir de castelão e aragonez, o branco leva fernão pires e arinto. Numa primeira fase, os vinhos estão à venda nas lojas da AdegaMãe, no Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens), mas também nas lojas Boa Vizinhança, no Rato, e na loja da CVR Lisboa, no Mercado da Ribeira. O projeto “Inclusus”, garantem-nos, resulta de uma parceira inédita no sistema nacional português no campo da viticultura.