A quinta sessão do julgamento do caso de Alcochete terminou esta terça-feira com um dos 44 arguidos a ser levado pela polícia mesmo à saída do tribunal. A PSP intercetou-o quando ele saía pela porta destinada ao público e aos arguidos, no Tribunal do Monsanto, e levou-o de volta para o interior das instalações. Fonte oficial da PSP diz que o arguido, que está com pulseira eletrónica, foi conduzido a uma esquadra para ser identificado, por ter tido “comportamentos impróprios” para com os polícias.

Quando foi levado pela polícia, do lado de fora do tribunal, alguns arguidos começaram a chamar a advogada dele, Sandra Martins (que representa mais oito arguidos), informando-a que tinha havido uma “detenção”. Ela correu para dentro do tribunal para perceber o que se estava a passar e foi informada que o seu cliente tinha sido levado para a esquadra.

Contactado pelo Observador, o porta-voz da PSP, comissário André Serra, explicou que do ponto de vista legal “não se tratou de uma detenção”.  “O indivíduo estava com comportamentos inadequados ainda dentro do tribunal, e depois fora, para com os agentes da PSP e para ser identificado foi conduzido à esquadra. Vai ser feito um expediente de participação por comportamentos impróprios”, explicou, afastando a hipótese de crime de desobediência. “Assim será identificado com mais calma”, acrescentou. Depois, será libertado.

O arguido do caso de Alcochete está preso em casa, com pulseira eletrónica, e por isso entrou no tribunal do Monsanto para a quinta sessão sem identificação.  Esta não é a primeira abordagem que a PSP faz a um dos arguidos, na última quinta-feira foi apanhado um outro com uma pequena quantidade de haxixe.

Depois de a PSP ter levado o arguido, um outro adepto do Sporting passou de carro a alta velocidade à porta do tribunal e sem cinto de segurança. A PSP foi rápida a tirar a matrícula do carro. Recorde-se que todos os arguidos estão sujeitos a medidas de coação, a maior parte em prisão domiciliária, e que qualquer crime que cometam poderá determinar uma alteração da medida.

Dia 5 com GNR e PSP

Neste dia 5 do caso de Alcochete, foram mais testemunhas ouvidas. Mas, numa analogia futebolística, a parte da manhã (que teve a dispensa de mais um arguido, Guilherme Sousa Gata, por já se encontrar a trabalhar nesta altura) foi quase uma espécie de descanso ativo neste quinto dia de julgamento, com a audição das duas testemunhas a durar menos de meia hora. Renato Andrade, do Destacamento Territorial da GNR de Almada, participou na busca domiciliária a Celso Cruzeiro, onde explicou que foram encontrados no indivíduo e as calças e os ténis com que terá entrado na Academia e também a t-shirt, identificada pela gola redonda, que se encontrava já num cesto de roupa suja na cozinha – e que, em ambos os casos, coincidiam com as imagens de fotogramas apresentadas no briefing de preparação. Em paralelo, foram também apreendidos punhais e facas no quarto do arguido.

– Uma das facas apreendidas era de cozinha, certo?
– Sim. Mas segundo me recordo, estava no quarto do arguido…
– E se tivesse comido fruta, podia estar ali não?

Foi nesta parte do diálogo entre Renato Andrade e Ana Luz, advogada de Celso Cruzeiro, que a juíza presidente, Sílvia Rosa Pires, interrompeu a pergunta. “Uma das facas via-se que não era usada, as outras não consigo precisar”, acrescentou o GNR, que se recordava também de serem calças mais afuniladas.

De seguida foi chamado como testemunha o cabo da GNR Hugo Portela, também ele a prestar serviço no NIC do Destacamento Territorial de Almada. Neste caso, o militar esteve na busca domiciliária a Sérgio Santos, que vivia num quarto alugado a uma senhora. A intenção era encontrar a indumentária com que o arguido se terá deslocado à Academia mas, além disso, as atenções centraram-se numa mochila que tinha cinco gramas alegadamente de cocaína, 930 euros em numerário, “cerca de quatro bilhetes do Sporting” e o telemóvel.

Amândio Madaleno, advogado do arguido, começou por questionar a necessidade de ter havido essa busca por causa da indumentária se Sérgio Santos entrou na Academia de cara destapada, havendo depois um curto diálogo sobre há quanto tempo o arguido vivia naquele quarto. “Pernoitava lá há cerca de um ano? Então mas ele não tinha vindo do Algarve?”, atirou. “Não sei, numa conversa informal foi isso que ele me disse”, respondeu o militar, numa das poucas perguntas feitas à segunda testemunha do dia do Ministério Público.

Pouco depois das 10h30, a “agenda de trabalhos” para esta manhã já estava encerrada mas nem por isso a juíza Sílvia Rosa Pires deixou de aproveitar o tempo até à pausa de almoço, calendarizando depois as próximas sessões com essa novidade de surgirem pela primeira vez no Tribunal de Monsanto elementos ligados ao Sporting como testemunhas do Ministério Público antes de haver uma visualização das imagens do CCTV da Academia também com os advogados, nomeadamente da entrada por onde os arguidos acederam ao espaço. Assim, e depois da audição de Ricardo Gonçalves, diretor de segurança da Academia, na manhã da próxima segunda-feira, ficaram marcados os seguintes jogadores, treinadores e restante staff:

  • Segunda-feira à tarde (dia 2): Wendel e Manuel Fernandes (na altura diretor do departamento de scouting)
  • Terça-feira de manhã (dia 3): José António Laranjeira (à data do scouting do Sporting) e Mathieu
  • Terça-feira à tarde (dia 3): Acuña e Battaglia
  • Quarta-feira de manhã (dia 4): Luís Maximiano e Coates
  • Quarta-feira à tarde (dia 4): Ristovski e Bruno Fernandes
  • Segunda-feira de manhã (dia 9): Raúl José e Miguel Quaresma (ex-adjuntos de Jorge Jesus na equipa técnica)

“Não admito esse tipo de insinuações e acusações”, disse intendente da PSP

A parte da tarde começou com a audição (rápida) de Alfredo Silva, chefe da PSP a prestar serviço na 3.ª Esquadra de Investigação Criminal de Lisboa, seguindo-se Luís Moreira, intendente da PSP que chefia a área operacional do Comando da PSP de Lisboa (Cometlis), que tem na sua dependência a Unidade Metropolitana de Informações Policiais que monitoriza os eventos desportivos e a deslocação dos adeptos — mais conhecidos por spotters. Como explicou numa fase inicial, foram chamados para colaborar na investigação para fazer coincidir as imagens recolhidas pelo sistema de videovigilância da Academia com as informações que detêm. Pelo trabalho que foi feito pela Unidade que acompanha os adeptos na preparação dos jogos, são eles que “conhecem as dinâmicas”. “O que passaram para o processo é de absoluta confiança e foi por isso que assinei”, esclareceu, dizendo ainda que entregou um organograma da Juventude Leonina.

O advogado Miguel Matias mostrou-se surpreendido com a resposta, dizendo que não é às forças de segurança que tem de entregar mas sim ao Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ). Luís Moreira classificou a claque como “um grupo homogéneo”, acrescentando que, de acordo com a lei, devia haver informação sobre quem são os integrantes da Juventude Leonina. “Mas tem?”, perguntou o advogado. “A polícia não tem essa listagem, o que tem é a identificação dos adeptos que se deslocam neste grupo”, respondeu. Foi aí que o advogado fez um requerimento à juíza para pedir ao IPDJ essa listagem à data dos factos, questionando ainda se a mesma foi entregue à GNR e à PSP enquanto alguns dos arguidos se mexiam para tentar ver a cara da testemunha.

Miguel A. Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho que, face ao temporal que se abateu de manhã em Lisboa, teve um percalço junto ao Tribunal de Monsanto ficando com o carro atolado na lama, perguntou no seguimento o porquê de não ter sido pedida a lista ao IPDJ. Sílvia Rosa Pires lembrou que uma coisa é o Grupo Organizado de Adeptos (GOA) e outra são os adeptos, que pode ser qualquer pessoa. “A PSP não faz apenas a monitorização dos GOA mas de todos os adeptos do clube que se deslocam de um lado para o outro”, referiu Luís Moreira. “Então como concluiu a acusação que todos os arguidos são da Juve Leo”, quis saber o advogado, antes de nova resposta da juíza, que esclareceu que a polícia não tinha dito isso mas sim que a identificação tinha sido feita pelas informações que tem sobre os adeptos em geral e não da Juve Leo. “As pessoas que foram identificadas se constam ou não da lista não sei mas que fazem parte da Juve Leo ou são simpatizantes, sim”, disse o intendente.

Miguel Matias voltou depois a usar da palavra dizendo que a PSP tem conhecimento da lista dos GOA desde 2007 a 2016, mandando confrontar a testemunha com um documento assinado por si que consta do processo. A polícia faz a ressalva que não tem a lista dos adeptos a nível de Cometlis e desconhece se a Direção Nacional terá. Perante a insistência do advogado, Moreira destacou de forma mais exaltada que não é arguido no processo. “Não admito esse tipo de insinuações e acusações. Há normas de conduta que me são exigidas e não admito a ninguém este tipo de conduta. A juíza tentou depois colocar alguma água na fervura, referindo que “cada um lê como entender” e acrescentando que aquele diálogo não levaria a lado nenhum.

Já advogada Sandra Martins, que representa entre outros Fernando Mendes, perguntou quem tinha sido o spotter a dar as informações (“Foram vários”, disse Luís Moreira) e instou o intendente da PSP para que explicasse que o seu representado já não tinha poder na Juventude Leonina, algo que a juíza considerou não ser objeto do processo. A sessão vespertina estava a chegar ao fim e terminou com Sílvia Rosa Pires a solicitar a informação da identificação dos membros da Juventude Leonina em maio de 2018 ao IPDJ.

A sessão terminou, no interior do tribunal, com a juíza a mandar pedir ao Instituto do Desporto a lista com os adeptos da Juve Leo à data do ataque, em maio de 2018, e agora.