Há pequenos pormenores que se podem ter perdido na memória, quase dois anos após o ataque à Academia de Alcochete, mas há detalhes que continuam bem claros na cabeça do então treinador do Sporting, Jorge Jesus: foi agredido com um cinto, outro adepto deu-lhe um soco e quando resistiu e tombou ao chão ainda o pisaram. Mas não são as dores que sentiu nesse momento que ainda hoje o afligem, mas os gritos, os jogadores a chorar e o estado emocional em que permaneciam uma semana depois, quando insistiu em levá-los à final da Taça de Portugal. “Como treinador, foi um dos meus grandes erros: deixar que eles jogassem naquele momento”, disse o treinador que esta terça-feira testemunhou ao longo de quatro horas, por videoconferência para o Tribunal do Monsanto.

Jorge Jesus garante que o estado emocional em que os jogadores ficaram, depois de cerca de 30 suspeitos terem invadido a academia de treino do Sporting em maio de 2018, foi muito pior que o dele. “Não tive medo porque está no meu ADN. Tenho feitio de ovelha negra”, respondeu a certa altura. Já a sua equipa, uma semana depois do ataque, e após insistência sua, acabou por comunicar-lhe que não estava em condições emocionais para regressar à Academia de Alcochete. Jesus sugeriu que treinassem no Estádio Nacional. Mas hoje, olhando para trás, arrepende-se. “Só treinámos sete dias depois. Eles tiveram muito mais medo que eu”, declarou. Já a chegar ao final da sessão, uma das juízas perguntou-lhe como estava, nessa altura, o plantel. “Senti uma equipa completamente perdida, sem capacidade emocional para aquele jogo”, admitiu.

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Jorge Jesus, agora ao comando do Flamengo, prestou depoimento a partir do Tribunal de Almada, por recomendação do seu advogado. Ainda não eram 14h20 quando a procuradora do Ministério Público começou a fazer-lhe perguntas sobre o o ataque. Ao início, o treinador não conseguiu concretizar como tudo aconteceu, mas lembra-se de vê-los entrar quando estava no campo de treino. Viram-no e seguiram para o balneário.

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“Eram tantos… Lembro-me quando disseram ‘Os jogadores não estão aqui, vamos para a cabine’. Vi só que eram muitos. Os últimos quatro elementos que fizeram a invasão não vinham de cara tapada. Reconheci o Fernando Mendes. Esse não vinha de cara tapada e até falei com ele. Eram mais de 30, isso tenho a certeza que eram… Parecia a marcha de corrida de um pelotão de guerra, a dizer ‘A gente quer é os jogadores’ e começaram a correr”, disse.

Temendo o que pudesse acontecer, Jesus correu para o “vestuário”, como chamou sempre ao vestiário ou balneário da academia, tendo merecido uma ressalva da juíza para os advogados presentes. “Ele agora está no Brasil, por usa alguns termos diferentes”, disse.

“Quando chego à entrada do vestuário, porque eu estava no relvado, encontro as quatro pessoas que estavam lá. Aquilo era uma fumarada, gritos por todo o lado. Eles já lá estavam. Vi os quatro onde estava o Fernando Mendes à porta e fui pedir ajuda”, prosseguiu, explicando depois que ainda não tinha entrado no edifício quando os viu. Desses quatro, explicou, um seria Fernando Mendes, outro Aleluia, um terceiro seria Nuno Torres — que ele garante ter visto pela primeira vez naquela tarde, e depois reconhecido nas imagens como o homem que entrou depois num carro — e o quarto não consegue identificar.

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Jesus ainda tentou entrar no balneário, mas os adeptos vinham já em direção contrária a sair. E um deles acabaria por atingi-lo com um cinto entre a cara e o ombro. “Nada de grave”, diria. “Porque é que ele me agrediu? Não sei. Ele sabia que eu era treinador do Sporting”, diria mais à frente em resposta a um advogado. Jesus volta então para trás e, de volta à entrada do vestiário, leva um soco que o deixa a sangrar. “O que me deu com o cinto tinha a cara tapada, o que me deu o soco também tinha a cara tapada, devia ter uns 23 ou 24 anos”, esclareceu, antes de precisar que viu Fernando Mendes, o antigo líder da Juventude Leonina, depois de ter saído do vestuário cá para fora de novo.

“Ele depois juntou-se aos outros, eram uns 15. Depois saiu mais alguém e levo o soco. A seguir apareceram alguns jogadores no espaço onde eu estava, o William e o Petrovic viram-me ferido. Mostrei os ferimentos ao Fernando Mendes e disse que eram todos cobardes, disse-me que não podia fazer nada”, continuou o agora técnico do Flamengo, recordando a pergunta “Fernando, estás a ver o que me fizeram?”. “Não houve tempo para nada, aquilo foi instantâneo, cinco minutos. Foi entrar e bater… Aquilo parecia um filme de terror”, frisou.

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Depois de ter levado um soco, o William falou com o Fernando Mendes e um outro que acho que se chamava Aleluia. Mas isso já estavam todos cá fora.
– Mas sabia quem era esse Aleluia?
– Não, perguntei ao William.
– Mas fazia parte das pessoas que acompanhavam o Fernando Mendes?
– Sim, desses quatro era o Fernando Mendes, ele e mais dois jovens que não sei quem eram mas vinha com o rosto destapado.

Mais tarde o advogado Miguel Matias acabaria por pedir à juíza que lesse o depoimento que Jorge Jesus fez no dia do ataque à GNR, e em que descrevia ter sido agredido apenas num momento do ataque que não terá durado menos de 5 minutos. “Tem a certeza que foi agredido com um murro naquele dia?”, acabou por perguntar-lhe o advogado, depois de lhe ter pedido desculpa pelas perguntas que lhe iria fazer. “Tenho a certeza. Cá fora!” afirmou firmemente.

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Já dentro do balneário e após o ataque, Jesus encontrou um cenário de destruição e tristeza. “O balneário estava todo virado ao contrário, os jogadores a chorar… O único que vi a chorar foi o Bas Dost. Perguntou-me: ‘Mister, por que é que me fizeram isto?’. Os jogadores estavam super revoltados como eu. Aquilo estava tudo revirado, os bancos, as marquesas, muita coisa no chão. E não sei se eram tochas”, prosseguiu até ao reparo da procuradora do Ministério Público: “O senhor Jorge Jesus tem-me tratado por juíza mas sou procuradora da República, só para esclarecer”.

O Ministério Público quis saber se o oficial de ligação aos adeptos, Bruno Jacinto — o único arguido que até agora prestou declarações em fase de julgamento — tinha participado no ataque. “Bruno Jacinto? Sei que era funcionário do Sporting, mas não tinha acesso ali dentro. Se havia entrada de adeptos na Academia? Havia umas visitas de estudo à Academia de pessoas, mas nunca entravam no espaço onde se estava a trabalhar e sempre com seguranças a acompanhar quando os funcionários do Sporting estavam ausentes”, disse, recordando ainda uma situação onde deixou entrar uns dez adeptos que queriam ver o treino, incluindo Mustafá, antes de entrar nos detalhes sobre os dias que antecederam a invasão. Aliás, mais tarde viria a recordar que chegou a jantar com Mustafá (Nuno Mendes, líder da Juve Leo e também arguido no processo) e Fernando Mendes em jantares de aniversário promovidos pela direção do Sporting. E que foram sempre todos muito cordiais com ele.

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A falta de ligação com Bruno de Carvalho

“Bruno de Carvalho esteve lá depois. Se falou comigo? Sim, falou. Disse-me que gostava de falar com os jogadores e eu disse que não havia condições e que os jogadores não queriam falar com ele”, destacou em resposta ao Ministério Público. O advogado do Sporting, Miguel Coutinho, e o do ex-presidente, Bruno de Carvalho, acabariam por voltar a este ponto. E Jesus esclareceu: Bruno de Carvalho terá chegado cerca de duas horas depois e terá reunido 5 minutos com Jorge Jesus no seu gabinete. “Queria falar com os jogadores, mas eles quando o viram fugiram para a sala de espera. Ninguém queria falar com ele”, uma resposta que causou uma certa crispação com o advogado do ex-presidente, Miguel A. Fonseca, ao ponto de Jorge Jesus quase implorar à juíza que fosse ela a formular as perguntas e não o advogado. O que acabou por acontecer. “Este senhor está  a fazer-me um interrogatório!”, alegou.

Em quatro horas de depoimento houve ainda a pergunta que já outras testemunhas responderam: como foi a reunião com Bruno de Carvalho, no dia anterior à invasão. “Só o presidente é que falou. Sentou-se na mesa. Estava o senhor presidente, o Carlos… Não me lembro do nome… [Vieira] e o Rui Caeiro. Não falámos muito tempo”, respondeu. O Ministério Público quis saber o que se passou de seguida e Jesus prosseguiu:  “a primeira intervenção foi que tinha chegado ao fim da linha. Foram apresentados os argumentos dele e eu nunca respondi. Lembro-me que perguntou se não tinha nada para dizer e eu disse que não, que estava ali só para ouvir”, disse, admitindo que ele e a equipa técnica já tinham ido aquele encontro com a ideia de que iriam ser demitidos.

Nessa conversa, Bruno de Carvalho ter-lhe-á comunicado que estivesse preparado porque os advogados iam fazer uma nota de culpa, mas não sabia quanto tempo iam demorar. Como havia treino na manhã seguinte, o então presidente terá sugerido alterar para a tarde, para dar mais tempo ao gabinete jurídico. Nessa tarde, como nada foi feito, avançaram com o treino.

– A gente joga com o Marítimo no Funchal e fiz logo a programação de treinos com o Vasco Fernandes [secretário técnico]. Marquei o primeiro dia de treino para terça-feira de manhã. E na segunda tenho uma reunião no Estádio José Alvalade com os elementos da Direção…
– O que se discutiu nessa reunião?
– Oh senhora procuradora, a gente pensou que íamos ser todos despedidos…

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Ainda antes dessa reunião, foi dia de jogo na Madeira em frente ao Marítimo, como os adeptos a darem já sinais de descontentamento e com troca de palavras amargas com os jogadores, como algumas testemunhas têm contado no julgamento que senta no banco dos réus 44 acusados de crimes relacionados com o terrorismo. Jesus também se apercebeu disso, mas o que o inquietou foi já no aeroporto do Funchal, quando a equipa se preparava para regressar a Lisboa. “Não sei como é que esse Fernando Mendes e o colega dele conseguiram entrar no espaço que dava acesso ao embarque para Lisboa. Começou a ofender-nos. Entretanto o segurança, eu e o William fomos mais próximo para tentar acalmar as coisas”, explicou.

“Quando o tentei acalmar, o Fernando Mendes disse ‘No primeiro dia de treino vamos estar lá’. Disse para o ar, para todos ouvirem. Não percebi que houvesse insultos individualizados mas nessa conversa apontava para o Acuña, isso recordo-me. Dizia que o Acuña o tinha ofendido e que ninguém chamava nomes à mãe dele”, disse a esse propósito.

Em resposta às perguntas do advogado do Sporting, Miguel Coutinho, Jorge Jesus deixou bem claro que a sua relação com Bruno de Carvalho não era das melhores. “A nossa ligação não era assim tão próxima para falarmos muitas vezes, nem eu dava hipóteses”, disse. Para depois recordar uma reunião na véspera do jogo com o Paços de Ferreira em que falaram das publicações no Facebook que Bruno de Carvalho fez, dirigidas aos jogadores, após o jogo com o Atlético de Madrid. Depois desse jogo, lembrou, o presidente foi vaiado pelos adeptos.

Aliás, assumiu, Jesus — que abandonou o Sporting a um ano de terminar o contrato — acabou por explicar que deixou o clube a pedido e “sem receber fosse o que fosse.” Em três anos pedi para sair três ou quatro vezes. E depois da invasão fui falar com ele [Bruno de Carvalho] para me deixar ir embora”, disse.

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A juíza ainda perguntou a Jorge Jesus se queria fazer uma pausa para uma água, mas o treinador disse sempre para prosseguir, mostrando-se sempre disponível para responder. O depoimento acabou às 18h20, quatro horas depois de ter começado. Se a parte da tarde foi produtiva, a parte da manhã nem por isso. A 17.ª sessão do julgamento de Alcochete arrancava esta segunda-feira com o testemunho do jogador Rúben Ribeiro, que também se constituiu assistente no processo, o médio ofensivo que trocou em janeiro de 2018 o Rio Ave pelo Sporting, que passou entretanto pelo Al Ain (Emirados Árabes Unidos) depois da rescisão de contrato e que se encontra agora no Gil Vicente. Mas quando a sessão começou, nem sinal do jogador.

O tribunal garante que notificou o advogado, que por seu turno devia ter avisado o jogador para comparecer no Tribunal de Barcelos e prestar testemunho por videoconferência (assim pedido pelo próprio), mas segundo fonte do Gil Vicente, à Lusa, não terá sido bem assim. “Não estava marcada nenhuma audição para hoje. Além disso, nem o Rúben nem o advogado têm audiência agendada para os próximos tempos. Como tal, o jogador apresentou-se normalmente ao trabalho”, garantiu o representante do clube.

A juíza irá agora notificar novamente a testemunha. Já no final desta sessão o coletivo fez saber também que ainda não conseguiu notificar dez das testemunhas que o Ministério Público tinha arrolado para ouvir, por isso sugeriu que fossem começando a ouvir testemunhas abonatórias, por não saber sequer se a notificação tradicional chegará a alguns que entretanto estarão no estrangeiro.

A 18.ª sessão prossegue esta quarta-feira com o jogador André Pinto de manhã e o preparador físico Mário Monteiro à tarde, assim como algumas testemunhas abonatórias. O jogador Cristiano Piccini pediu para ser ouvido noutro dia e ficou marcado para a tarde de dia 17 de janeiro.

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