Não foi perfeito mas quase: apesar de terem sido ouvidos por videoconferência, os três primeiros jogadores que estão ainda no plantel do Sporting a prestarem depoimento como testemunhas do Ministério Público conseguiram comunicar sem problemas, havendo apenas de quando em vez um ruído de fundo na ligação entre o Tribunal do Montijo e o Tribunal de Monsanto. Sem problemas técnicos, entenda-se – enquanto Luís Maximiano foi dando a versão do que viu no balneário passando ao lado de outros problemas porque andava entre a equipa principal e os juniores e Mathieu acrescentou pontos importantes, o testemunho de Wendel foi marcado pela frase “Não me recordo” que levou a juíza a desabafar a frase “Espero que nunca tenha problemas de memória no futuro”.

Sobre a matéria de facto em si, sobraram alguns pontos para o processo: 1) mais uma vez, Rui Patrício, William Carvalho, Acuña e Battaglia foram apontados como os alvos do ataque, sendo que Misic e Montero acabaram por ser agredidos de forma “aleatória”; 2) pela primeira vez houve alguém a falar em “três ou quatro indivíduos” que não eram os mesmos mas que estavam sempre à porta, algo referido por Mathieu e que pode dar força à tese de sequestro do Ministério Público – apesar de acrescentar mais à frente que ninguém tinha tentado sair do local durante a invasão; 3) nenhum dos inquiridos viu durante a invasão o responsável pela segurança, Ricardo Gonçalves, no balneário, uma ideia diferente daquela que o próprio defendeu na semana passada (o que não invalida que pudesse estar mas sem ser reconhecido devido à muita confusão e fumo no espaço); 4) na reunião que teve com os atletas na véspera do ataque, Bruno de Carvalho quis resolver os problemas “como uma família”.

“Há demasiadas testemunhas que têm de levar com processos-crime em cima. Quero concretizar que ou esteve um responsável de segurança no balneário naquele dia ou estas testemunhas que temos estado a ouvir têm todas de ir presas, porque as duas coisas não são verdade… Tenho uma testemunha que é paga para ser responsável por segurança, que me diz sob juramento que está num determinado sítio quando está a acontecer um determinado eventos e as outras testemunhas todas, que estiveram no mesmo sítio, não o viram. Isto é objetivo, as duas versões não podem ser verdade”, comentou no final do dia Miguel A. Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho. “Não tenho dúvidas que é o que andamos a pregar desde o primeiro momento e foi o que as testemunhas disseram. Mantenho a fé nas pessoas e na raça humana, que as pessoas na hora da verdade não mentem”.

Maximiano, o “Porquê eu?” de Montero e o “Não ganhem domingo que vão ver”

Um único ecrã, virado para o coletivo de juízes (ou juízas), procuradora do Ministério Público e demais advogados, um som metalizado mas percetível e com raras interferências, a voz mais nova do plantel do Sporting. Luís Maximiano, guarda-redes que assumiu recentemente a titularidade na baliza verde e branca num fenómeno com parecenças com o que aconteceu com Rui Patrício em 2007, foi o primeiro jogador leonino a prestar depoimento por videoconferência a partir do Tribunal do Montijo. “Profissão? Jogador de futebol. Jogo no Sporting desde os 13 anos”, começou por referir, no décimo dia do julgamento do caso de Alcochete que coincidiu com a apresentação dos primeiros atletas como testemunhas do Ministério Público.

“Estava onde se calçava as botas antigamente, ao pé do balneário. Não me lembro bem quem foi mas tentaram fechar as portas. Mandaram sair do balneário porque estávamos a ser invadidos. A imagem que tenho é a do Vasco [Fernandes] tentar fechar a porta e ser empurrado, de entrarem as pessoas todas com máscaras, com capuz. Foi aí que percebemos que era algo mais sério… Da nossa parte não houve nenhuma conversa, foram logo em direção ao Rui [Patrício], ao William [Carvalho], ao Battaglia, ao Acuña… E eu? Eu estava bloqueado, fiquei tão bloqueado com o que se estava a passar que acabei por ficar parado”, contextualizou em termos genéricos, antes de revelar alguns pormenores do que viu no balneário em resposta à procuradora do Ministério Público.

“Acho que estava o plantel quase todo, o Bas Dost pelo que me recordo estava no corredor mas não me lembro bem, estava muita gente. Não consigo dizer quantos eram, uns 20 talvez que entraram todos juntos e depois deixei de reparar. Estavam todos mascarados. Não nos disseram nada, nós também não dissemos nada. Sei que se dirigiram aos jogadores que falei mas o Misic, que estava sentado do outro lado, também levou com um cinto. Vi que alguns foram agredidos, sim”, destacou, antes de pormenorizar perante as questões do advogado do Sporting, Miguel Coutinho, que é assistente no processo, essas mesmas agressões a jogadores do plantel do Sporting.

“O William não vi bem, ao Rui vi que puxaram a camisola e acho que lhe deram um murro no peito, estava lá pelo menos um. Com o Battaglia não sei quantas pessoas estavam lá porque estava na zona das macas, mais perto da porta, e atiraram o garrafão. Foi de frente, acho que se conseguiu defender. Ao Ludovico [Marques], o estojo atingiu-o penso que de frente, só vi o estojo de higiene a voar. O Montero levou um estalo, um indivíduo veio por trás e deu-lhe um estalo na cara. Estava de pé e ouvi-o dizer ‘Mas porquê eu?’. O Misic levou com o cinto na zona da cara, estava sentado e um indivíduo chegou lá e deu-lhe com o cinto. Ele não disse nada, não sabe falar português. Nem inglês, acho eu… O Acuña levou um pontapé mas acho que o empurraram para dentro do cacifo, havia mais do que um à volta dele. Estavam todos de cara tapada, só vi um com o cinto na mão. Se chegaram a tentar falar? Não, entraram e começaram logo a agredir”, recordou o guarda-redes.

[O resumo do dia 9 do julgamento do caso de Alcochete]

“Estragos? Que visse não… Mais do que falei, não consegui ver. Não me apercebi se estavam a bloquear o balneário, nem olhei para essa porta. Que tenha visto, ninguém saiu. Estava a olhar para os acontecimentos. Fiquei com a ideia que saíram ao mesmo tempo. Ouvi dizer ’Não ganhem domingo que vão ver’”, seguiu no depoimento ao Ministério Público, antes de assumir que teve medo por tudo o que viveu mas de esclarecer que nunca pediu um reforço adicional de segurança para si ou para a sua família. “A mim ninguém me agrediu, nada”, disse.

– O senhor teve medo?
– Sim.
– Porquê?
– Porque estava a começar na equipa principal, era um sonho desde pequeno e pensei ‘O que é isto?’. Claro que fiquei assustado com o que vi acontecer, com receio de jogar e que viessem ter comigo também. Ficámos todos parados com o que aconteceu, ninguém teve capacidade de reagir perante aquilo.

Por fim, ainda nas questões do Ministério Público, Luís Maximiano falou também na reunião que houve em Alvalade entre o plantel e Bruno de Carvalho, então presidente do Sporting: “Não me recordo bem porque não estava ainda a 100% na equipa principal, também andava nos juniores e quando me chamavam ia treinar. Não estava bem dentro do assunto. O tema da reunião? O presidente Bruno de Carvalho falou connosco, disse que tinha havido problemas com as claques, o William estava a dizer que nos tinha de proteger, ele disse que estava connosco e que ia tratar disso. Falou com o Acuña em particular, não me lembro se pediu ou não explicações porque não estava a perceber muito bem o que se tinha passado, não estava lá. A marcação do treino? Não me lembro, não sabia se ia treinar ou não com a equipa. O Vasco costumava mandar mensagem no dia antes, acho que comunicou à noite”. “O presidente disse que aquilo com o Acuña não era uma coisa fácil mas que iriam resolver todos juntos, como uma família. Se alguém comentou comigo que tinha sido ameaçado depois de Madrid? Comigo não”, acrescentou mais tarde, perante as perguntas de Miguel A. Fonseca, advogado do antigo líder verde e branco.

[O resumo do dia 8 do julgamento do caso de Alcochete]

Já em resposta aos restantes advogados dos arguidos, Luís Maximiano revelou uma conversa com Battaglia por altura da chegada dos primeiros indivíduos. “Disse que não ia haver treino. ‘Não há treino porque é Carnaval’. Disse isso porque estava a ver as pessoas a correr, antes de entrarem todos depois de não conseguirem fechar as portas. Passaram por mim mas não me fizeram nada”, contou, dizendo não conseguia precisar de alguns dos invasores ficaram apenas no espaço sem agredir ninguém e que não sabia também se a tocha que tinha atingido o preparador físico Mário Monteiro fora um gesto propositado ou acidental quando estavam a sair.

Mesmo a terminar, e depois de ter deixado cair uma linha de raciocínio que pretendia provar que os adeptos ou as claques tinham continuado a apoiar a equipa no final dos jogos (“Já vi que por aqui não vamos lá”, atirou, perante as sucessivas respostas de Luís Maximiano que explicava não estar presente nesses momentos porque era o terceiro guarda-redes, fazia o aquecimento, ia para a bancada e descia para os balneários antes do final do jogo), Miguel A. Fonseca pediu para que fosse apresentado à testemunha o vídeo do interior do balneário leonino na Academia pouco depois da invasão, que começou a circular logo nesse dia da invasão.

– Acho curioso que nunca tenha pedido para ver o vídeo e agora queira isso, curioso ou não…
– Nunca tinha havido uma testemunha que se sentisse ameaçada ao ponto de falar por videoconferência…

A juíza Sílvia Rosa Pires acabou por recusar o requerimento a esse propósito do advogado de Bruno de Carvalho mas, em dois momentos distintos, acabou por fazer perguntas a Maximiano sobre o mesmo, antes de questionar também o guarda-redes sobre a presença de Gonçalo Álvaro ou a assistência médica a Bas Dost.

[O resumo do dia 7 do julgamento do caso de Alcochete]

– Sabe aquele vídeo que temos do interior do balneário, com um colega seu a vestir roupa…
– Sim, sei.
– E sabe quem filmou?
– Isso já não sei (…)
– Sabe quem é o Gonçalo Álvaro?
– Sim, é o nosso preparador físico…
– Recorda-se de o ver lá no balneário?
– Não mas devia estar, era um dia de treino…
– E sabe se algum colega seu precisou de assistência médica?
– Sim, o Bas Dost, abriram-lhe a cabeça.
– E sabe quem prestou essa assistência?
– Não, não sei.
– O médico do Sporting [Frederico Varandas] também estava lá?
– Sim.
– Dentro do vestiário?
– Não me recordo…

“Se pedi algum tipo de segurança para mim depois disto? Não, era um bocado insignificante ali, por isso não pedi”, referiu Luís Maximiano. “Mas olhe, os sportinguistas não acham que seja nada insignificante”, atirou Miguel A. Fonseca. Uma hora e meia depois, chegava ao fim o primeiro testemunho de um jogador do Sporting presente no dia da invasão na Academia. À tarde, da mesma forma, iriam seguir-se Wendel e Mathieu.

O testemunho de Wendel: “Vi uma multidão a correr e fui para o balneário avisar”

Wendel, médio brasileiro que chegou ao Sporting em janeiro de 2018, foi a primeira testemunha da tarde através de videoconferência, do Tribunal do Montijo. Inicialmente, foi dizendo “Oi?” e “Não entendi” algumas vezes; depois, repetiu por mais de duas dezenas de ocasiões a frase “Não me recordo”, num depoimento onde muitas das vezes foi respondendo com simples “Sim” e “Não” às perguntas que iam sendo feitas quer pelo Ministério Público, quer pelo advogado do Sporting, quer pelos representantes dos arguidos.

“Estava no ginásio, sozinho. Sim, sozinho. Ouvi uma multidão. Vinham a correr mas não vi caras. Tinham todos as caras tapadas. Fui ter com os companheiros que estavam no balneário para avisar. Tentámos fechar a porta mas não conseguimos, não me recordo quem. Quantos? Não tenho ideia, uns 25 a 30 todos de cara tapada. Disseram que não éramos jogadores para o Sporting e mandaram tirar a camisa”, começou por referir.

[O resumo do dia 6 do julgamento do caso de Alcochete]

“Depois, agrediram. A mim também. Houve um que me bateu no rosto, com a mão aberta. Vi mais três jogadores agredidos, o Acuña, o Misic e o William Carvalho. O Acuña foi por mais do que um, com tapas. Estaladas? Isso, na cara. O Misic foi com um cinto, só por um indivíduo, nas costas. O William foi na cabeça, com tapas. Não me recordo quantas pessoas foram”, pormenorizou, antes de assumir que não se lembra se tinham dito mais alguma coisa. “Não me recordo, não me lembro, não me lembro mesmo”, foi dizendo antes de referir que não tinha visto “nenhum a tentar dizer aos outros para não fazerem aquilo”. “Estava de cabeça baixa, não vi. Fumo? Sim, sim, também, com tochas mas só vi o fumo, não vi ninguém a atirar. Foi quando estavam a sair. Também ouvi o alarme do incêndio, por causa desse fumo. Estiveram uns cinco minutos lá dentro, foi tudo muito rápido. Depois saíram todos ao mesmo tempo”, acrescentou o médio brasileiro de 22 anos.

A procuradora do Ministério Público perguntou também pelos incidentes durante e depois do jogo que o Sporting perdeu na Madeira frente ao Marítimo, no dia 13 de maio de 2018, e pela reunião dos jogadores em Alvalade com Bruno de Carvalho e demais elementos da SAD no dia 14, véspera da invasão ao espaço. “Confusão a seguir ao jogo? Não me lembro. No aeroporto do Funchal também não vi nada, não me apercebi de nenhuma confusão”, frisou. “Reunião? Não me recordo, já faz muito tempo…”, completou.

[O resumo do dia 5 do julgamento do caso de Alcochete]

– Teve medo?
– Muito.
– Teve medo de voltar a acontecer?
– Sim.
– Ouviu algum dizer que lhes podiam a fazer mal?
– Não ouvi nada disso.
– Mas ficou então com medo que voltassem a fazer, é isso?
– Sim.

A juíza Sílvia Rosa Pires tomou depois a palavra. “Sente-se lá direitinho para lhe ver bem a cara se não se importar”, pediu, antes de tentar perceber onde estava o jogador quando chegou ao balneário. “Estava no meu lugar, o do número 37”, respondeu. “E estava de cabeça baixa porquê?”, continuou a juíza, “Porque alguém lhe pediu ou por reação sua pelo que estava a acontecer?”. “Estava de cabeça para baixo pela reação”, explicou, antes de ouvir as questões do advogado do Sporting, Miguel Coutinho. “Ao Battaglia não vi nada, ao Rui Patrício não vi também. Não me lembro de como estava vestido o indivíduo que me bateu, nada. Depois de saírem fiquei sempre dentro do balneário. O Bas Dost ficou com o corte na cabeça mas não me recordo de outras marcas em jogadores. Quando entrou a multidão não dava para fazer mais nada, fiquei de cabeça baixa”, referiu.

A terminar, Miguel A. Fonseca voltou a puxar o filme atrás aos jogos do Sporting com o Atl. Madrid, com o problema de Wendel não estar inscrito nas provas europeias desse ano e não se lembrar do que se passou após o jogo em casa com os espanhóis, “apesar de achar que ficou 1-0”. Depois, e quando tentava recuperar o encontro com o P. Ferreira, Sílvia Rosa Pires voltou a intervir. “Oh senhor doutor, percebo que sim mas se a testemunha não se lembra do jogo da Madeira, da reunião, do jogo com o Atl. Madrid, ia agora lembrar-se do jogo com o P. Ferreira?”, atirou. “Vou seguir a sua sábia decisão, não tenho mais perguntas. Olhe, desejo-lhe toda a felicidade para a sua carreira”, disse o advogado de Bruno de Carvalho.

– Pronto, está tudo, Espero que futuramente não tenha problemas de memória, que a sua carreira corra bem. O seu depoimento terminou.
– Ok, está bem. Tchau tchau, obrigado!

[O resumo do dia 4 do julgamento do caso de Alcochete]

Mathieu, as portas bloqueadas e o medo que se volte a repetir

Seguiu-se Jeremy Mathieu, o experiente defesa francês contratado pelo Sporting ao Barcelona em 2017 que foi o primeiro jogador a ter auxílio do tradutor (que estava no Tribunal de Monsanto) neste julgamento. “Estava na Academia, estava nos balneários e foi lá que tudo aconteceu. É difícil dizer por causa da confusão e porque foi tudo muito rápido quantos eram mas diria que entraram 20 a 30 pessoas. A porta estava aberta, o Vasco tentou fechar mas já era demasiado tarde, alguém conseguiu forçar primeiro a entrada”, começou por salientar.

[O resumo do dia 3 do julgamento do caso de Alcochete]

“Aproximaram-se de alguns jogadores, agrediram alguns e passou-se tudo muito rápido. Acuña foi bloqueado, foi o primeiro que vi de onde estava, na cara com as mãos. Duas ou três pessoas, vi que lhe deram golpes no rosto. O Misic vi a ser agredido com um cinto, uma pessoa passou ao lado dele, deu-lhe dois ou três golpes nas pernas e depois mais um nas costas. Do sítio onde estava só vi estes”, referiu, acrescentando mais à frente: “Os jogadores, devíamos estar uns 22, faltavam três ou quatro, mais os elementos da equipa técnica e também os fisioterapeutas. Muitos procuraram e foram em direção ao Rui Patrício, ao William, outros ao Battaglia… Os outros ficaram a tentar meter medo aos outros jogadores, a dizer ‘O Sporting somos nós’. Alguns tentaram acalmar os outros mas perderam o controlo, a maioria perdeu o controlo e agrediu e intimidou”.

“Não houve nenhuma oportunidade de diálogo com os indivíduos. Chegaram, ocuparam o balneário e foram aos jogadores que queriam. Ficaram três pessoas em frente à porta e com eles lá não podíamos sair, tivemos de ficar no balneário. Não eram sempre as mesmas mas estavam sempre três ou quatro lá. Não me recordo se alguém tentou sair, dos jogadores. Quando entraram no balneário ouvi que estavam à procura do Rui Patrício, do William e do Battaglia, depois andaram também à procura do Acuña. Não sinto que tenha sido um alvo específico mas senti medo por tudo o que se passou, senti. Ameaças? Pessoalmente, não. A mim não me tocaram nem fizeram nenhuma ameaça direta. Alguém atirou uma tocha e acionou o alarme de incêndio perto do fim. No balneário só vi uma tocha, não reparei se houve mais”, completou sobre a forma como tudo aconteceu nos minutos em que os invasores estiveram no balneário, confirmando a possibilidade de sequestro advogada pelo Ministério Público apesar de ter dito mais à frente que durante a invasão ninguém tentou fugir do balneário.

[O resumo do dia 2 do julgamento do caso de Alcochete]

“Depois do jogo na Madeira [frente ao Marítimo], não estive muito tempo perto dos adeptos. Houve alguma contestação, não gostei mas sou profissional há muito tempo e as pessoas são humanas. Cada pessoa tem o seu carácter, não respondi mas alguns dos meus companheiros fizeram-no. Quando uma pessoa é ofensiva quando reage, não dou importância a essas coisas. O Marcos [Acuña] respondeu, houve alguns jogadores a falar com os adeptos e ele tem o seu temperamento… Falou no relvado e ao pé do autocarro. No aeroporto, junto à porta de embarque, alguns adeptos estavam à espera e houve uma confusão entre um deles, o Acuña e o Battaglia. Só vi uma pessoa, que não conheço de nome e nunca tinha visto”, disse sobre o encontro que antecedeu a invasão da Academia, antes de falar da reunião em Alvalade na véspera da ida a Alcochete.

Recordo-me de duas reuniões com o presidente, em dias diferentes. Infelizmente não percebo bem português, falo espanhol mas não chegou para perceber tudo o que o presidente disse. Em algumas reuniões já tinha visto o presidente agitado, a debater com o Rui Patrício e com o William Carvalho; nesta reunião estava a falar de forma calma e pausada, sobre sermos uma família e falou também com o Battaglia sobre o que se passou na Madeira porque era o chefe das claques mas não percebi mais.”

Na resposta às perguntas dos advogados dos arguidos, Mathieu voltou a dizer que ouviu insultos para outros jogadores, recordou que William chegou a discutir com alguém no final de tudo se ter passado no exterior do balneário, no parque de estacionamento (com uma pessoa que não tinha a cara coberta e mais duas ou três a ouvir), e admitiu que nunca mais esquecerá o que se passou. “Naquele dia liguei logo à minha mulher porque não sabia se ia voltar a casa. Ainda hoje no final dos jogos lembro-me deste episódio, nunca me esquecerei”. À advogada Sandra Martins, que representa vários arguidos entre os quais o antigo líder da Juventude Leonina Fernando Mendes, o francês disse não conhecer Gonçalo Álvaro, na altura preparador e fisioterapeuta da equipa do Sporting, e que não sabia quem tinha feito o vídeo no interior do balneário após os acontecimentos.

Já ao advogado de Bruno de Carvalho, Miguel A. Fonseca, Mathieu foi dizendo que se lembrava do jogo com o Atl. Madrid em casa em abril, que o Sporting ganhou por 1-0 mas que não serviu para anular a desvantagem que vinha de Espanha, mas que não se recordava da reação dos adeptos nem da série de triunfos consecutivos que os leões alcançaram depois da polémica levantada nessa altura. “Ou não se lembra ou foi instruído para não se lembrar…”, soltou o advogado, que terminou o fim da décima sessão de julgamento com um longo questionário onde tocou noutros pontos que já tinha referido de manhã como Frederico Varandas ou a alteração de rotinas.

[O resumo do dia 1 do julgamento do caso de Alcochete]

– Lembra-se do jogo com o Benfica na época 2017/18?
– Em casa ou fora?
– Em Alvalade.
– Não me lembro…
– E do jogo com o Marítimo, lembra-se?
– Sim, perdemos…
– Lembra-se do resultado e do jogo?
– Perdemos porque estávamos afetados com a Liga dos Campeões, estava nas nossas cabeças…
– As suas rotinas de vida mudaram após o jogo em Madrid?
– Não mudou nada.
– Começou a sentir os adeptos a insultar na rua ou a abordar de forma anormal?
– Não dou importância a esse tipo de coisas.
– Mas sentiu alguma coisa diferente?
– Não
– Alguém que estivesse no balneário no assalto à Academia pediu para sair?
– Que eu saiba, não.
– Viu alguma pessoa do Sporting a precisar de cuidados médicos?
– Sim.
– Quem?
– O Bas Dost, tinha uma ferida na cabeça.
– Viu o médico, Frederico Varandas, até saírem os invasores?
– Sim, vi-o.
– Onde, como e a fazer o quê?
– Depois da confusão veio ao balneário ver se alguém precisava de alguma coisa.
– Então depois de sair toda a gente? E tratou de alguém?
– Isso não vi…
– Alterou alguma coisa nas rotinas da sua vida?
– Não mudei os meus hábitos mas tenho medo que isto volte a acontecer.
– Pediu segurança pessoal para si ou para a sua família ao clube?
– Não.
– Pediu proteção às autoridades policiais para si ou para a sua família?
– Não.
– Quando prestou declarações na GNR, quem traduziu?
– Não tive intérprete, falei em espanhol.
– E alguém lhe mostrou fotos?
– Ninguém mostrou, só mais tarde vi as fotos, uns dois dias depois…
– Pronto. Já agora, peço que lhe traduza isto: uma saudação especial porque precisamos de dez Mathieus no Sporting…
– Obrigado, obrigado…

Esta terça-feira, o julgamento do caso de Alcochete terá a sua 11.ª sessão, com a audição presencial de Vasco Fernandes, secretário técnico da equipa de futebol profissional do Sporting (e que terá enviado as mensagens para os jogadores na véspera do treino a marcar a hora), no Tribunal de Monsanto de manhã e os testemunhos por videoconferência de Ristovski e Bruno Fernandes a partir do Tribunal do Montijo da parte da tarde.