Já terminou o 13º dia do julgamento do ataque à academia do Sporting em Alcochete, no Tribunal de Monsanto.  Prossegue amanhã com a audiência de Vasco Santos, chefe de segurança, de manhã e os jogadores Acuna e Battaglia à tarde.

O jogador João Palhinha foi ouvido por video-conferência. “Estava com o Podence, no início até achávamos que era uma brincadeira. Quando chegaram [os invasores] lá fora, começaram a atirar tochas.” Alguns, continua o futebolista, “desataram aos socos aos meus colegas, outros a ameaçar. Foi tudo muito intenso e rápido”.  À pergunta se houve conversa antes, Palhinha respondeu: “Não, estavam chateados e começaram aos socos e aos pontapés, o Montero, que estava ao meu lado, levou logo uma chapada, vi o Battaglia e o Acuña a levarem alguns socos, estavam três ou quatro de volta de cada um. Também vi o Rui Patrício levar um soco no peito. Tinham alvos definidos. “

Palhinha recorda que “um indivíduo com dente de ouro deu uma chapada no Montero. Houve um que me disse para tirar a roupa do Sporting. Eram 40 e tal ou 50, uns a entrar, outros a sair. Havia sempre pessoas a ocupar o espaço de saída. Fiquei parado, foi tão inesperado que ficámos sem reação.” Afirma ainda que viu o treinador Mário Monteiro a levar com uma tocha que “acertou na barriga” e “por pouco não lhe acertava na cara”.

Uma das imagens que mais marcou todo este episódio negro foi o a fotografia do ferimento de Bas Dost na cabeça, imagem que correu o mundo inteiro. Sobre o companheiro de equipa holandês João Palhinha diz que se lembra de o ver “a sangrar da cabeça e a chorar” — “Penso que era um dos poucos que estava na sala de calçar as botas”.

A conversa que envolveu Jesus, William Carvalho e os agressores voltou a ser mencionada, desta vez pelo jogador agora cedido ao Sporting de Braga. Palhinha explicou ao Tribunal que viu “Fernando Mendes a falar com o Jorge Jesus e o William, a pedir desculpa e a dizer que não era aquilo que se devia ter passado”.

O jogo com o Marítimo foi um ponto de viragem importante em toda esta história, acredita-se, mas Palhinha explica que os desentendimentos foram “normais”: “No final do jogo na Madeira houve descontentamento dos adeptos, como é normal. Vi o Acuña mais exaltado e depois ouve o desentendimento no aeroporto, que não passou disso mesmo. Ele e o Battaglia. O Fernando Mendes não gostou, Batta também se exaltou mas não passou disso mesmo.”

Palhinha explicou ainda que antes disso, na reunião em abril depois da derrota contra o Atlético de Madrid, Bruno de Carvalho já dizia que os ânimos estavam exaltados: “Ele [Bruno de Carvalho] mostrou o seu desagrado pelo resultado e pela classificação naquela época. Disse que não sabíamos no que nos tínhamos metido por causa das coisas do Acuña no final do jogo, que os adeptos estavam passados. Houve um momento tenso do presidente com o Rui Patrício e o William.” Apesar deste encontro ser descrito também como “tenso”, pleno em acusações “de parte a parte”, o jogador afirmou que Patrício, William e Bruno começaram “a dispara uns com os outros” por causa de “assuntos passados”.

“A mim ninguém me agrediu. Fiquei receoso pela minha integridade. Liguei logo ao meu pai, num estado de nervos… Só dizia que queria ir embora, que ia recolher as minhas coisas, chuteiras e afins, porque nunca mais queria voltar à Academia depois daquilo”, contou.

Ainda sobre o momento do ataque, Palhinha explica que os agressores “se viraram para o Rui [Patrício] e para o William [Carvalho]” e acusaram-nos de quererem “sair do clube à força toda, que só queriam ganhar dinheiro, que eram uma vergonha”. Ainda ameaçaram voltar caso não ganhassem a Taça de Portugal no domingo seguinte.

No que toca a premeditação, o jogador português não tem dúvidas: “Eram alvos definidos: o Acuña e o Battaglia pelo que se passou na Madeira; o Rui [Patrício] e o William [Carvalho] porque eram os capitães e por esses assuntos antigos de so quererem ganhar mais dinheiro.” Já sobre os culpados, a certeza é menos óbvia: “Só vi duas pessoas no balneário de cara destapada, o do dente de ouro e um negro que me disse para tirar as roupas do Sporting. Alguns ficaram à porta só a chamar nomes.” “Também ouvi os elementos das claques gritarem ‘O Sporting somos nós'”, contou ainda.

O jogador informou ainda o tribunal de que, de facto, andou a “gravar um vídeo”, mas não lhe “parece” que “seja aquele em que Bruno Fernandes estava a vestir as calças”. “Não sei quem gravou esse vídeo”, confessou. “Acho que o doutor Frederico Varandas foi ajudar o Bas Dost. Não fui ao departamento médico, mas sei que foi lá. No balneário não me lembro de o ter visto até sair toda a gente”, disse.

O jogador português, que acabou de ser ouvido por volta das 16h30, acabou também por contar que, após o ataque, teve “uma série de noites com pesadelos” porque este lhe “retirou a sensação de segurança”. “Mas penso que está ultrapassado. Havia sempre aquele receio, aquela sensação, mas agora no Braga não tenho isso”, acrescentou.

“Tive conhecimento de uma ida [à Academia] um ano antes”. Gonçalo Rodrigues está a ser ouvido

Após Palhinha, é a vez de Gonçalo Rodrigues, à data coordenador do Gabinete de Apoio ao Atleta que se tornou na semana da invasão à Academia um dos arguidos do processo Cashball. Embora admita que conhecia alguns dos arguidos das claques, a testemunha garante que não teve “conhecimento prévio de que iriam à Academia”. “Tive conhecimento de uma ida um ano antes, mas foi tudo pacífico.

Gonçalo Rodrigues contou anda que esteve com André Geraldes “na reunião em Alvalade com Bruno de Carvalho”. “O presidente perguntou se estaríamos com ele acontecesse o que acontecesse. Deduzi que era porque um treinador ia ser despedido”, explica, adiantando que na sequência deste pedido “Bruno de Carvalho disse então: ‘Vemo-nos lá amanhã à tarde na Academia’. Às 16h, penso eu”.

O coordenador explicou depois que não esteve reunido “porque nesse da saiu a notícia do Cashball [processo em que é arguido] que me envolvia e saíram fotografias minhas”. “Estive com André Geraldes à hora de almoço e ficámos em reunião com os advogados por causa da notícia até apareceram as notícias do ataque à Academia”, disse, detalhando que “Bruno de Carvalho esteve em parte dessa reunião”.

Depois da procuradora do MP, é a vez dos advogados colocarem as suas perguntas. “Não estava ao lado de Bruno de Carvalho, mas notava-se a cara de surpresa total quando se soube da invasão à Academia”, relatou. Gonçalo Rodrigues explicou depois que “no dia 14 houve três reuniões com a equipa técnica, jogadores e uma de staff” — que foi onde esteve. “Não me recordo se se falou em horas mesmo. No dia 15, há a notícia do Correio da Manhã sobre o Cashball. Houve essas reuniões até saírem as notícias da academia e Bruno de Carvalho e André Geraldes saírem da sala”, disse.

Questionado sobre se, depois do jogo de Madrid alguém pediu segurança, jogadores ou família, o coordenador respondeu: “Não. Em momento algum alguém pediu ajuda ou mostrou preocupação”. A inquirição terminou pouco depois das 17h00.

“Amanhã estamos lá todos na Academia”. O depoimento de José António Laranjeira

De manhã, neste 13º. dia do julgamento, foi José António Laranjeira, que na altura da invasão em Alcochete era membro do departamento de scouting do Sporting, a primeira testemunha a ser ouvida. Laranjeiro, uma das testemunhas que mais pormenorizadamente descreveu o ataque quando teve de depor na GNR, começou por explicar que quando viu Bas Dost a sangrar no corredor levou-o para uma zona menos estreita. Depois foi atrás de Jorge Jesus quando este foi para o exterior e foi aí que viu um invasor a agredir ou a tentar agredir o treinador. “Jesus saiu a dizer ‘Agarra este, agarra aquele’. Um agrediu-o ou tentou agredir”, conta.

Laranjeiro explicou também que esteve na reunião de staff na véspera, em Alvalade, com o Bruno de Carvalho. Foi nesse momento que ficou definido o horário do treino mas não se recorda se foi BdC a defini-lo, apesar de ter presente que o presidente verde e branco afirmou algo como “amanhã estamos lá todos, na academia”. “Pensei que a parte da manhã serviria para oficializar a saída do treinador”, diz também. Mantendo-se fiel ao que já tinha dito à GNR, Laranjeiro explicou que viu Jesus, William e três a quatro indivíduos a falar de forma tranquila.

Uma notícia que nada tem a ver com o que se está a passar no Tribunal de Monsanto mas que pode marcar aquilo que se vai passar fala do momento em que, à chegada aos Açores, a comitiva do Sporting foi insultada por alguns dos adeptos presentes no aeroporto e mais tarde na unidade hoteleira em Ponta Delgada, ouvindo entre outros cânticos um “Alcochete sempre” que mereceu quase de imediato um comunicado do clube a condenar o sucedido. Acuña e Battaglia, por exemplo, foram dois dos grandes alvos na invasão à Academia, jogam esta noite com o Santa Clara e prestam depoimento esta terça-feira.

[O resumo do dia 12 do julgamento do caso de Alcochete]

De recordar que José António Laranjeira, a primeira testemunha do dia a ser ouvida, teve uma das descrições mais pormenorizadas do ataque no depoimento prestado na GNR. Além de falar na existência de “fumo no exterior através de uma janela” que lhe chamou a atenção, o antigo membro do departamento de scouting dos leões viu Bas Dost pouco depois de ter sido atingido na cabeça (o que lhe provocou um ferimento bem visível na zona) e, já no exterior da ala profissional, assistiu a uma agressão por trás a Jorge Jesus. Mais tarde, Laranjeira ouviu parte de uma conversa entre Jorge Jesus, William Carvalho e cinco indivíduos, de onde percebeu a frase “Não era isto que pretendíamos, só vínhamos falar com os jogadores”. Por fim, o técnico reparou em dois carros que estariam a tirar fotografias e a fazer vídeos às viaturas dos elementos do Sporting que se encontravam no parque do AKI que serviu de estacionamento para quem ia prestar o seu testemunho, tendo confrontado um deles.

À tarde, João Palhinha falará a partir de Braga por videoconferência. O médio, que por uma questão numérica estava no balneário ao pé de Fredy Montero, revelou no primeiro depoimento à GNR do Montijo que consegue reconhecer o indivíduo que agrediu o colombiano com duas estaladas na cara – aliás, o próprio avançado disse quando testemunhou que se não fosse Palhinha, que o conseguiu proteger, teria sido mais agredido.