Cerca de três horas depois terem sido levados a cabo ataques iranianos com 22 mísseis balísticos a duas bases militares americanas no Iraque, um avião ucraniano da Ukraine International Airlines despenhou-se no aeroporto de Teerão, capital do Irão, dois minutos depois de ter descolado.

O aparelho, um Boeing 737, partiu do aeroporto de Teerão às 6h12 desta quarta-feira (hora local), com destino à capital ucraniana de Kiev. A viagem começou com uma hora de atraso. De acordo a FlightRadar 24, um site que regista voos mundiais em tempo real, o avião despenhou-se dois minutos depois da descolagem — hora a que foi recebido o último sinal — entre as cidades de Parand e Shahriar.

Todos os passageiros morreram. No avião, seguiam 176 pessoas: 167 passageiros e nove tripulantes — a pessoa mais nova entre as vítimas mortais nasceu em 2016 e a mais velha em 1950, segundo uma lista divulgada pela respetiva companhia aérea. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, já confirmou, de acordo com informações preliminares, a morte de todas as pessoas que seguiam no avião.

De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Vadym Prystaiko, entre as vítimas há 82 iranianos, 63 canadianos, 11 cidadãos ucranianos (nove eram tripulantes), dez suecos, quatro afegãos, três britânicos e três alemães. A maior parte das vítimas era de nacionalidade iraniana, ainda que os números sejam contraditórios: a agência iraniana de notícias fala em 140 passageiros do Irão.

O Observador já contactou fonte da secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que confirmou que “não existe qualquer indício até ao momento de terem existido cidadãos nacionais a bordo”.

Casais de recém-casados, famílias e estudantes entre as vítimas

Entre as vítimas do voo PS752 da companhia aérea ucraniana está um casal que se tinha casado três dias ants no Irão. Arash Pourzarabi, de 26 anos, e Pouneh Gourji, de 25, estavam a estudar ciências computacionais na Universidade de Alberta, mas tinha viajado até ao Irão para casarem, contou à Reuters a Sociedade de Herança Iraniana em Edmonton.

Aliás, Arash Pourzarabi e Pouneh Gourji estavam naquele avião com outros dois amigos, que se tinham juntado a eles na celebração, e outros 24 membros dessa comunidade iraniana.

Segundo o presidente da Universidade de Alberta, onde o casal recém-casado estudava, houve 10 membros daquela comunidade académica que morreu durante o voo PS752. Um deles era Mojgan Daneshmand, professora de engenharia elétrica, o marido Pedram Mousavi — também ele professor naquela universidade — e as duas filhas do casal, Daria e Dorina, de 14 e 10 anos.

Um segundo casal de noivos também estava no Boeing que se despenhou. Siavash Ghafouri Azar e Sara Mamani eram engenheiros e tinham acabado de comprar uma casa nos subúrbios de Montreal, confirmou um professor da universidade onde o casal tinha estudado.

Alvand Sadeghi, de 30 anos, também está entre as vítimas do acidente. O pianista tinha casado há dois anos e mudou-se para Toronto em abril do ano passado para morar com a mulher, Negar Borghei, que também morreu na queda do avião. O casal estava a viajar com a irmã e a filha de Alvand Sadeghi, que também estão entre as vítimas mortais.

Entre as vítimas mortais do acidente estão também estudantes e famílias de alunos de uma escola secundária em Toronto, a Toronto District School Board, que emitiu um comunicado na página oficial do estabelecimento dizendo que tinha sido “diretamente afetada” pelo acidente.

Irão recusa-se a entregar caixas negras à Boeing

De acordo com fonte oficial da embaixada da Ucrânia no Irão, citada pela CNN, a queda do avião está relacionada com uma falha no motor, não com terrorismo. No entanto, mais tarde, a embaixada veio clarificar que “as informações sobre as causas do acidente com o avião são esclarecidas pela comissão”. “Quaisquer declarações relativas as causas do acidente antes da decisão da comissão não são oficiais”, explicam.

Segundo o FlightRadar 24, o avião foi “entregue novo ao serviço do Ukraine International Airlines em 2016” — o que significa que o aparelho tinha cerca de três anos. A companhia avança ainda que tinha sido feita uma manutenção do aparelho na passada segunda-feira.

A embaixada substituiu a informação inicial por outro comunicado. Neste, clarifica que “as informações sobre as causas do acidente com o avião são esclarecidas pela comissão” — embora não identifique que organismo é este.

Quaisquer declarações relativas as causas do acidente antes da decisão da comissão não são oficiais”, explicam.

O primeiro-ministro ucraniano, questionado em conferência de imprensa sobre a possibilidade de a queda ter sito provocada por um míssil, disse que “quaisquer versões sobre uma conclusão oficial são apenas manipulação”.

A autoridade de aviação civil do Irão já está a investigar o acidente e as duas caixas negras do avião foram entretanto recuperadas, avança a televisão estatal iraniana. O Irão anunciou que não vai entregar estas caixas negras à multinacional norte-americana Boeing, avança o The Guardian, nem quaisquer dados de voos da Ukraine International Airlines.

Não vamos entregar as caixas negras ao fabricante [Boeing] nem à América”, disse Ali Abedzadeh, o representante da agência de aviação civil do Irão.

O responsável explicou que as caixas negras serão analisadas no Irão, onde o acidente aconteceu, de acordo com a Organização Internacional de Aviação. Os investigadores ucranianos farão, no entanto, parte do processo de investigação.

Entretanto, a Ukraine International Airlines já tinha suspendido todos os voos para Teerão por tempo indeterminado. Agora foi a vez do Serviço de Aviação Estatal da Ucrânia suspender todos os voos das companhias aéreas daquele país, que a partir do dia 9 de janeiro, e por tempo indeterminado, estão interditos de voar no espaço aéreo do Irão. A medida foi anunciada nas redes sociais pelo primeiro-ministro ucraniano, Oleksiy Honcharuk, e estará em vigor enquanto não forem conhecidas as causas que estiveram na origem da queda do avião da Ukraine International Airlines.

Ainda não se sabe se existe alguma relação deste acidente com o ataque do Irão às bases militares dos Estados Unidos. Não há para já informações que liguem este acidente aos ataques iranianos e a embaixada ucraniana no Irão afirma que o desastre aéreo não se trata de terrorismo.

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