“Punhas a tua família numa aeronave treinada no simulador Max? Eu não punha “, lê-se numa mensagem trocada em 2018 entre funcionários da Boeing. “Não”, respondeu o colega à primeira mensagem. Como revela o The New York Times, desde 2017 que os problemas dos Boeing 737 Max, que esteve envolvido (modelo 737 Max 8) em dois acidentes que resultaram na morte de 346 pessoas em 2018 e 2019, eram assunto, e até piada, na empresa norte-americana. (Este modelo não é o mesmo do Boeing 737 que caiu em Teerão na quarta-feira, matando 176 pessoas que iam a bordo).

As mensagens fazem parte de um documento com centenas de páginas que a Boeing disponibilizou ao Congresso dos Estados Unidos da América com mensagens de texto em que os seus funcionários descredibilizam o processo de certificação do modelo 737 MAX e denigrem o regulador de aviação norte-americano.

Numa troca de mensagens de 2015, um funcionário da Boeing disse que uma apresentação que a empresa fez à Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla inglesa), a agência norte-americana responsável pelo setor era tão complicado que, para os funcionários da agência e até para ele mesmo. “Era como ver cães a ver TV”, brincou.

Nas mensagens, os pilotos dão conta de falhas nos simuladores do aparelho, na origem de dois trágicos acidentes em 2018 e 2019 que provocaram 346 mortos.

“Este avião é desenhado por palhaços, que por sua vez são supervisionados por macacos”, lê-se numa mensagem datada de 2017, numa aparente referência à Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla inglesa).

“Ainda não fui perdoado por Deus pelo que escondi no ano passado”, escreveu ainda outro funcionário, numa mensagem datada de 2018. Este funcionário teve conhecimento dos problemas com o simulador da Boeing para este modelo de avião.

Estas mensagens, consultadas também pela AFP, foram disponibilizadas por congressistas norte-americanos que estão a investigar o processo de certificação do 737 MAX, na origem de dois trágicos acidentes, na Indonésia (2018) e na Etiópia (2019), em menos de cinco meses, que provocaram 346 mortos e mergulharam a Boeing na mais grave crise da sua história.

No final de dezembro, o presidente-executivo da Boeing, Dennis Muilenburg, foi afastado do cargo devido a tensões com a reguladora, tendo sido substituído por David Calhoun.

“Algumas destas comunicações dizem respeito ao desenvolvimento e qualificação dos simuladores Boeing 737 MAX, em 2017 e 2018”, esclareceu a Boeing, acrescentando que disponibilizou as mensagens em nome da “transparência”.

A empresa corre agora o risco de ver pioradas as já tensas relações com a FAA e, em comunicado, defendeu-se: “Estas comunicações não refletem a empresa que somos e que precisamos de ser, e são completamente inaceitáveis”.

As reações já se fizeram sentir: o senador Richard Blumenthal, democrata de Connecticut, disse numa entrevista que pressionaria por novas audiências no Congresso para questionar a liderança da Boeing sobre as mensagens “surpreendentes e assustadoras”.