— Escutar é muitas vezes mais do que apenas ouvir.

Todas as sessões no Senado dos EUA começam com uma oração conduzida pelo capelão, que tem um lugar na câmara alta do Congresso norte-americano praticamente desde a fundação do país. Esta quinta-feira, o terceiro dia em que o Senado se reuniu na qualidade de tribunal de impeachment para julgar as acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso que pendem sobre Donald Trump — e que podem levar à sua destituição da Presidência —, o capelão deixou aquele aviso aos senadores, que pode ser lido como uma reprimenda ao que os senadores haviam feito no dia anterior: bocejos, saídas da sala e até palavras cruzadas para ajudar a passar o tempo enquanto a equipa que conduz a acusação contra Trump expunha os seus argumentos.

De acordo com as regras do julgamento aprovadas na terça-feira (numa longa maratona de debate que durou 13 horas), a acusação e a defesa têm, cada uma, 24 horas para apresentar os seus argumentos, que podem dividir ao longo de três dias. Foi a acusação que começou. Depois de, na quarta-feira, ter exposto de forma mais abrangente a tese de que Donald Trump deve ser destituído da Presidência dos EUA por abuso de poder e por obstrução ao Congresso, a equipa de sete congressistas democratas, liderada por Adam Schiff, dedicou a sessão de quinta-feira a argumentar especificamente sobre a primeira acusação: o abuso de poder perante a Ucrânia no sentido de obter benefícios para si próprio na eleição presidencial deste ano.

O primeiro a falar em nome da equipa da acusação neste segundo dia de argumentação foi o congressista democrata Jerry Nadler, que não poupou nas palavras contra Donald Trump, classificando as acusações apresentadas pela Câmara dos Representantes em dezembro como “as acusações mais graves alguma vez levantadas contra o Presidente”. Nadler, que ao longo dos últimos dias tem sido o democrata a usar palavras mais duras na exposição dos argumentos da acusação, foi mais longe e disse aos senadores que Trump coloca os seus interesses pessoais acima dos interesses dos Estados Unidos. “Esta atitude não é ‘América primeiro’, é ‘Donald Trump primeiro’. Envergonharia até o Presidente Nixon“, disse Nadler, no arranque de uma sessão que se prolongaria por quase dez horas.

O que Trump fez é crime ou não?

No centro do julgamento de impeachment está a acusação de que Donald Trump pediu ao Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, que anunciasse uma investigação aos negócios de Hunter Biden (filho de Joe Biden, ex-vice-presidente dos EUA e candidato democrata à Presidência nas eleições de 2020) naquele país. Em troca, Trump desbloquearia ajuda militar — que os EUA bloquearam por ordem de Trump — à Ucrânia, essencial para o combate contra a Rússia, e garantiria uma reunião com Zelenski na Casa Branca, essencial para o Presidente ucraniano consolidar a sua legitimidade internamente.

As primeiras horas de discussão estiveram à volta de uma questão simples, mas difícil de responder: afinal, o que Trump fez é crime ou não? E é ou não motivo suficiente para ser destituído da Presidência dos EUA?

Jerry Nadler usou os argumentos dos republicanos contra Trump e recordou as palavras de Lindsey Graham, hoje senador, no julgamento de impeachment do Presidente democrata Bill Clinton, em 1999 (que acabaria com a absolvição de Clinton). Na altura, Graham era congressista republicano e falou em nome da acusação no Senado sobre os motivos que deviam levar um Presidente a ser destituído: “O que é um alto crime? Se uma pessoa importante magoar alguém com menos possibilidades? Não é muito académico, mas acho que é a verdade. Acho que é isso que significa [na Constituição] alto crime. Nem sequer tem de ser um crime“.

A posição do republicano Graham em 1999 contrasta com a posição dos republicanos em 2020, que têm argumentado que Donald Trump não cometeu nenhum crime e não deve, por isso, ser destituído.

Mas a discussão não ficou por aqui. Os republicanos usaram a mesma estratégia e foram buscar as palavras do próprio Jerry Nadler em 1998 a propósito do impeachment de Bill Clinton: “[O impeachment] é, de facto, um procedimento pacífico para proteger a nação de déspotas, fornecendo meios constitucionais para destituir um Presidente que use de forma incorreta o poder presidencial para se tornar num tirano ou minar a nossa forma de governo definida pela constituição. Para destituir um Presidente o caso tem de ter essa gravidade”. Hoje, o democrata tem sido uma das vozes mais ativas na defesa de uma destituição de Trump, mesmo que não tenha propriamente cometido nenhum crime.

A estratégia dos democratas de utilizar as palavras dos republicanos contra Trump tem incluído o recurso às palavras do próprio Trump. Por várias vezes, a acusação exibiu perante os senadores excertos de intervenções do Presidente Trump que os democratas consideram ser a derradeira prova do abuso de poder. Entre os excertos mais exibidos encontra-se uma gravação de uma entrevista rápida que Trump deu aos jornalistas no relvado da Casa Branca antes de embarcar no helicóptero presidencial — e na qual é possível ouvir Trump apelar publicamente à Ucrânia para que investige Hunter Biden.

O correspondente do The New York Times na Casa Branca, Peter Baker, descreve a estratégia dos democratas explicando que a acusação está a aproveitar a “abordagem sem filtros de Donald Trump à política, que o levou várias vezes a dizer abertamente o que outros presidentes com mais entendimento das tradicionais linhas vermelhas de Washington — ou pelo menos com mais instinto de autopreservação política — nunca diriam em frente às câmaras”.

Prioridade número um de Trump: Trump

Grande parte do tempo da sessão desta quinta-feira foi usado pela acusação para argumentar que Donald Trump interferiu com a Ucrânia para se beneficiar a si próprio e não — como defendem os republicanos — para promover a democracia e combater a corrupção no país ou para responder a uma alegada interferência ucraniana nas eleições norte-americanas de 2016.

A congressista democrata Sylvia Garcia usou parte da sua intervenção perante os senadores para recordar o testemunho do diretor do FBI, Christopher Wray, na Câmara dos Representantes. Na altura, questionado sobre o assunto, Wray afirmou que não havia nenhuma indicação de que a Ucrânia tivesse interferido na eleição de 2016.

Não temos nenhuma informação que indique a Ucrânia interferiu com a eleição presidencial de 2016. No que diz respeito à eleição de 2020, pensamos que a Rússia representa a ameaça mais significativa“, disse o diretor do FBI no testemunho perante os congressistas, no ano passado.

Para a acusação, a tese é simples: “O Presidente Trump coordenou este esquema com intenções corruptas. Com objetivo corrupto: obter assistência externa na sua corrida para a reeleição em 2020”.

Sylvia Garcia tentou desmontar também a teoria apresentada pela defesa de Donald Trump de que teria sido, na verdade, o ex-vice-presidente Joe Biden a tentar impedir uma investigação aos negócios do seu filho — e que a administração Trump quis, na verdade, ajudar a Ucrânia a combater a corrupção pedindo ao país que retomasse aquela investigação.

“A teoria diz que o vice-presidente Biden tentou retirar o procurador ucraniano do cargo para garantir que ele não iria investigar aquela empresa específica, a Burisma, porque o seu filho estava na administração”, disse Sylvia Garcia, antes de contrapor com a posição dos democratas: “O vice-presidente Biden pediu o afastamento deste procurador como posição oficial dos EUA porque o procurador era amplamente considerado corrupto“. A democrata lembrou ainda que este pedido foi feito com o apoio dos aliados internacionais dos EUA e apoiado pelo Congresso norte-americano.

“A alegação de que a Ucrânia interferiu nas eleições de 2016 e a alegação de que Biden pediu de forma imprópria o afastamento de um procurador ucraniano não têm nenhum fundamento”, concluiu Sylvia Garcia.

Também o congressista democrata Adam Schiff, líder da equipa que está a conduzir a acusação, insistiu na ideia de que Trump quis apenas obter benefícios eleitorais com estes contactos. A investigação ucraniana ao filho de Biden era apenas um instrumento para prejudicar a imagem de um dos principais candidatos democratas à Presidência dos Estados Unidos nas eleições deste ano. Trump, considerou Schiff, “é um Presidente que sente que pode fazer o que quiser”. E isso “inclui coagir um aliado para o ajudar a fazer batota numa eleição”, acrescentou.

Durante a sua intervenção no Senado, Adam Schiff apresentou — em modo Powerpoint — dez pontos que mostram que Donald Trump queria a investigação ao filho de Joe Biden apenas para ganhar benefícios pessoais, e não para combater a corrupção na Ucrânia. “O Presidente importou-se apenas com o anúncio das investigações“, e não nas próprias investigações, usou os advogados pessoais para tratar de assuntos de política externa e nunca incluiu as investigações na política externa oficial dos EUA, argumentou Schiff. “Não há provas de que Trump se tenha preocupado minimamente com os esforços anti-corrupção“, defendeu Schiff.

O Powerpoint usado por Adam Schiff com os argumentos que explicam porque é que Trump não se preocupou com o combate corrupção, mas sim com benefícios próprios

Mais do mesmo para os senadores

Na terça-feira, os senadores republicanos chumbaram todas as propostas apresentadas pelos democratas que tinham como objetivo permitir a convocatória de novas testemunhas e a intimação dos organismos públicos para que entregassem novos documentos considerados essenciais para o julgamento. Sem essa hipótese, a argumentação dos democratas tem-se resumido a uma revisão às conclusões do inquérito feito na Câmara dos Representantes — o que não tem agradado a ninguém.

Os senadores, que fizeram inclusivamente um voto de silêncio, têm de ouvir os argumentos de ambos os lados e, no final, votar pela absolvição ou condenação de Donald Trump. Porém, até agora, ainda não ouviram nada de novo — tanto que, do lado republicano, são muitos os senadores que se têm entretido a brincar com os seus fidget spinners. Ainda assim, o líder da acusação, Adam Schiff, numa tentativa de manter a relação de cordialidade possível com a plateia maioritariamente republicana, terminou a sessão desta quinta-feira com um agradecimento a todos os senadores por o ouvirem “com a mente aberta”.

Os republicanos têm usado esse argumento para criticar a acusação, afirmando que os democratas não estão a ser capazes de apresentar argumentos novos que os convençam a condenar Trump. Já os democratas estão a rebater pela mesma via e devolvem a crítica aos republicanos: só não há nada de novo porque a maioria republicana no Senado chumbou a possibilidade de chamar novas testemunhas. “Não se pode ter as duas coisas. Se querem ouvir o que aconteceu, chamem as testemunhas e tragam os documentos“, dizia durante a tarde à CNN a senadora democrata e candidata presidencial Elizabeth Warren.

Em cima da mesa, pelo menos de maneira informal, chegou a estar a possibilidade de uma troca de testemunhas. Os republicanos aceitariam que o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton (considerado uma testemunha-chave pelos democratas por ter conhecimento direto dos contactos de Trump com a Ucrânia) testemunhasse perante o Senado em troca de poderem ouvir também Joe Biden — ou, em alternativa, o seu filho Hunter — para o poderem questionar sobre a sua atuação na Ucrânia. Biden disse, na quarta-feira, querer afastar-se do caso.

Donald Trump, que tem acompanhado o julgamento com tranquilidade (mas com muitos tweets), foi esta quinta-feira ao Twitter criticar os democratas por não aceitarem a troca. “Os democratas não querem uma troca de testemunhas”, escreveu Trump, porque Adam Schiff, os Bidens, “o falso denunciante (e o seu advogado), o segundo denunciante (que desapareceu depois de eu ter divulgado as transcrições [das conversas telefónicas com os ucranianos]), o auto-proclamado ‘informador’ e muitos outros desastres democratas seriam um GRANDE problema para eles”.

Trump, aliás, não tem deixado que o julgamento de impeachment atrapalhe a sua ação política. Depois de na quarta-feira ter anunciado um alargamento da lista de países abrangidos pelo controverso travel ban, Trump anunciou esta quinta-feira uma nova medida que permite que mulheres grávidas possam ser impedidas de entrar nos EUA se as autoridades suspeitarem de que elas pretendem que os filhos nasçam no país para se tornarem cidadãos.

Esta sexta-feira é o último dia para a equipa da acusação terminar a exposição dos seus argumentos, com a sessão agendada para as 13h de Washington (18h em Lisboa). Em teoria, seguir-se-á um período de 24 horas, igualmente dividido por três dias, para a defesa de Trump contra-argumentar. Não se sabe, porém, se a equipa de Trump — composta por advogados do Presidente e conselheiros legais da Casa Branca — pretende usar todo o tempo que tem disponível, até porque pretende terminar o julgamento, cujo resultado está praticamente decidido pela absolvição devido à maioria republicana no Senado, o mais rapidamente possível.

As regras iniciais apenas previam uma pausa no domingo, com uma sessão normal agendada para a tarde de sábado. Mas esta proposta parece estar a estragar os planos de fim-de-semana de vários senadores, o que levou a que já circule nos corredores do Senado uma proposta de alteração de calendário que levaria a que apenas se realize uma curta sessão na manhã de sábado, sendo o julgamento retomado depois na segunda-feira.