Os líderes parlamentares decidiram esta manhã quase de forma unânime (só André Ventura ficou de fora) não avançar com um voto de condenação no Parlamento às declarações do deputado do Chega sobre a deputada do Livre, Joacine Katar Moreira. Ventura recusa pedir desculpa pelo que disse no  Facebook da deputada e reclama que se tratou de uma “ironia”.

Os votos de condenação que estavam a ser ponderados pelos partidos ao deputado André Ventura, caso do PS por exemplo, ficaram na gaveta, com PS, PSD, PCP, BE, CDS, Verdes, PAN e deputados únicos do IL e do Livre a cingirem-se ao “repúdio” das declarações do deputado do Chega sobre Joacine Katar Moreira que o presidente da Assembleia da República classificou de “xenófobas”.

Ferro Rodrigues diz que “declarações xenófobas” de André Ventura merecem “veemente condenação”

Os partidos referidos foram unânimes nesta condenação, mas isso não vai tomar forma de voto parlamentar. E depois disso e das palavras públicas de Ferro Rodrigues, preferiram deixar o assunto por aqui. “Havendo posição clara da conferência de líderes e do Presidente da Assembleia da República, consideramos que este caso fica encerrado e a condenação fica para a história. Os atos ficam com quem os pratica”, referiu Pedro Filipe Soares do BE.

No PS, que no dia anterior tinha avançado com a vontade de avançar com um voto de condenação, Pedro Delgado Alves explicou este recuo: “Dar mais espaço para voltar a manifestar-se e a reproduzir [as declarações] também não nos parece que seja adequado”.

João Oliveira, do PCP, foi ainda mais claro na justificação da não condenação oficial explicando que a ideia foi “contrariar a tática” do deputado do Chega que “cria polémica para promover um discurso xenófobo e racista”. “É preciso condenar essas declarações pelo seu caráter abjeto, devem ser deitadas para o caixote do lixo da história, mas não devem ser alimentadas as polémicas que as possam promover”.

André Ventura confirmou que foi o único, na reunião dos líderes parlamentares, que não se identificou com as palavras de Ferro Rodrigues. O deputado diz que o que fez no facebook foi utilizar “a ironia”, por isso recusa-se a pedir desculpa a Joacine Katar Moreira. “O que considero ofensivo é quem permanentemente ataca a história de Portugal e coloca os portugueses com o anátema de criminosos, imperialistas e colonialistas”, disse depois de garantir que “a linguagem usada foi a da ironia” e que “só não percebeu quem quis criar polémica”.

Em declarações aos jornalistas no fim da conferência de líderes, o deputado diz que teria dito o mesmo a qualquer pessoa que tivesse a proposta do Livre — de restituir às ex-colónias património que está em Portugal — “fosse branco ou de etnia cigana”. E reclama existir uma “tentativa de reescrever a história” e a “abrir a ferida muito perigosa que é a da guerra colonial e do imperialismo. É uma ferida que vai acabar por minar o sistema político”, vaticina. E ainda acrescentou que “vai haver um dia em que esta casa vai perceber que o que representa lá fora já é muito pouco”.

O deputado queixou-se ainda de existirem “dois pesos e duas medidas” no Parlamento, já que não acontece nada a um deputado que “chama mentecaptos aos juízes, mas um deputado critica quem quer devolver o património às ex-colónias, é um grande problema, um problema nacional, internacional”. A Joacine — que saiu da mesma reunião sem querer responder às perguntas dos jornalistas — acusou de “estar mais a defender os outros países do que Portugal. Somos deputados para defender Portugal. Não estou aqui para defender interesses de Angola, Cabo Verde, Timor ou Moçambique”.

“Porque não indemnizar a escravatura e o império todo?”, questionou o deputado sobre a proposta do Livre desafiando os deputados a explicarem “lá fora aos portugueses que o dinheiro dos seus impostos vai servir para indemnizar o colonialismo”. “Falam tanto de fronteiras abertas, as fronteiras são para entrar e para sair”, reforçou tendo presente a declaração polémica que escreveu no Facebook onde defendeu que a deputada do Livre fosse “devolvida ao seu país de origem”.