O Hospital de São João, no Porto, começou a encaminhar doentes não urgentes do serviço de urgência para centros de saúde, numa medida de combate às falsas urgências daquele hospital.

A medida foi revelada ao Observador pelo presidente do conselho de administração do hospital, Fernando Araújo, que realça a importância de os doentes “poderem ser observados no local mais adequado às suas necessidades, de forma mais próxima e com maior qualidade”.

O encaminhamento acontecerá apenas com doentes que tenham recebido pulseira azul ou verde, no sistema de triagem de Manchester, e que não apresentem sintomas com especificidades que obriguem a tratamento hospitalar, como é o caso das especialidades de oftalmologia e otorrino. Além disso, depende da vontade do próprio doente — que pode recusar esse reencaminhamento, sendo atendido no hospital.

Uma pessoa que vem à urgência com uma dor de garganta e um bocadinho de febre, está preocupada, mas que tem bom estado geral, é o utente ideal para fazer parte deste projeto”, descreve Maria João Baptista, diretora clínica do Hospital de São João.

Segundo os resultados preliminares das duas primeiras semanas, apenas 14 doentes aceitaram ser encaminhados para o seu centro de saúde. No Hospital de São João, com cerca de 460 doentes a ir ao serviço de urgência por dia, 28% — cerca de 130 — têm pulseira verde ou azul.

Depois de abordados por um assistente técnico do hospital sobre a possibilidade e as vantagens de serem encaminhados para um centro de saúde da sua área de residência, os doentes em causa sairão do hospital já com uma consulta marcada e com a garantia de “um atendimento mais personalizado e mais próximo”, garante Fernando Araújo.

Atualmente o Hospital de São João tem acordo com o agrupamento de Centros de Saúde do Porto Oriental para encaminhar doentes das freguesias de Paranhos, Bonfim e Campanhã, do concelho do Porto. A partir de março serão incluídos nesta medida os concelhos de Valongo e da Maia.

O projeto iniciado em fevereiro pelo principal hospital da região Norte pretende reduzir o número de doentes nas urgências e agilizar o tempo de espera naquele serviço, mas também inclui uma vertente pedagógica de saúde pública, adianta o também ex-secretário de Estado da Saúde, na forma de utilização dos serviços e dos meios públicos.

“Existe um conjunto de doentes menos graves, mas com necessidade de serem observados, e que são atendidos mais rápido e melhor pela sua equipa de saúde familiar, que possui um conhecimento do historial clínico e que os podem avaliar e tratar de forma adequada e atempada”, Fernando Araújo, presidente do conselho de administração do Hospital de São João.

Medida foi estreada em 2018 pelo Hospital de Barcelos

Em maio de 2018, a medida foi estreada pelo Hospital de Santa Maria Maior, em Barcelos. Rui Guimarães, o atual presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Eduardo Santos Silva, em Gaia e Espinho, era lá diretor clínico quando os números de falsas urgências daquele hospital eram dos mais altos da zona norte do país. Numa urgência com cerca de 180 a 200 entradas por dia, mais de metade eram casos não urgentes.

Ao retirar do serviço de urgência os doentes que não precisavam de lá estar, Rui Guimarães sentiu que podia “facilitar muito a vida quer aos profissionais de saúde, quer aos outros doentes que precisavam mesmo” de tratamento urgente.

Numa primeira fase, diz ter sido importante ganhar a confiança dos centros de saúde, trabalhando em articulação para perceber se tinham capacidade para receber doentes. Depois, pouco a pouco, a equipa de triagem do Hospital de Barcelos foi propondo aos doentes a opção dos cuidados de saúde primários.

Para garantir a segurança, “não fomos diretamente à cor verde e azul”, assegura Rui Guimarães. “Fomos retirar de todos esses aqueles doentes que, mesmo tendo sido rotulados à entrada com pulseira verde e azul, poderiam ser problemáticos de enviar”. São exemplo os doentes com problemas de mobilidade, em cadeira de rodas ou mesmo em maca, e os que possam precisar de uma pequena cirurgia.

Desde o início da medida até hoje, Barcelos encaminhou 1.318 doentes para centros de saúde e conseguiu reduzir em 4% os episódios de urgências.

“Foi espetacular olhar para os resultados e perceber que a esmagadora maioria das pessoas estava muito satisfeita com a experiência que tinha tido”, recorda o ex-diretor clínico e médico anestesista, reafirmando a necessidade de literacia em saúde.

Paralelamente à medida, foi preciso destacar e monitorizar os doentes mais frequentes na urgência, educar a população, “com cartazes, nas redes sociais”. “Até ao senhor padre fomos pedir para divulgar esta informação na missa”, recorda Rui Guimarães.

Póvoa do Varzim e Vila do Conde com menos 10% de doentes nas urgências

Meio ano depois, em outubro de 2018, o vizinho Centro Hospitalar da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde, no topo do ranking nacional de falsas urgências (57% dos casos), reproduziu a medida de Barcelos. Com cerca de 800 doentes encaminhados até hoje, é o hospital que apresenta melhores resultados.

Em agosto de 2019, dados facultados ao Observador notam que o centro hospitalar tinha conseguido reduzir em 65% os episódios de falsas urgências, em 10% o número de doentes no serviço de urgência e em 16% o tempo de espera para observação médica.

Em dezembro de 2019, o número de casos na urgência continuava a aumentar no Hospital de Gaia e Espinho, relativamente ao período homólogo de 2018.

Medida eficaz também em Gaia

No dia 1 de janeiro de 2020, o Centro Hospitalar Eduardo Santos Silva, de Gaia e Espinho, avançou com a medida que já dava frutos em Barcelos e na Póvoa do Varzim e Vila do Conde — pelas mesmas mãos de quem a estreou.

Mesmo tendo uma “percentagem de verdes e azuis substancialmente menor”, avança Rui Guimarães, a rondar os 30%, a verdade é que o hospital tem muito mais casos de urgência do que o de Barcelos. Em dezembro de 2019, o número aumentava 4,6% relativamente ao mesmo mês de 2018.

O Hospital Eduardo Santos Silva, em Gaia e Espinho, começou a encaminhar doentes não urgentes no início deste ano.

Por isso, as contas do atual presidente do conselho de administração perspetivam retirar das urgências cerca de 55 mil doentes por ano, ou seja, 137 pessoas por dia.

Mais de um mês depois, este hospital conta com a colaboração de seis unidades de saúde em Gaia e três em Espinho. Rui Guimarães garante ao Observador que “há dias em que o número de vagas é claramente insuficiente” e isso só se vai resolver com “a confiança de mais unidades de saúde”.

“O médico de família vê uma pessoa, o médico na urgência vê um sintoma”

O Ministério da Saúde tem pedido às administrações hospitalares para tentar diminuir os episódios de urgência, garante Rui Guimarães. Para o clínico e diretor hospitalar, “quando investimos na urgência, não investimos nos cuidados de saúde primários ou não investimos nas cirurgias. Há sempre um fim”. É importante, por isso, desobstruir este serviço para os casos realmente urgentes e apostar em cuidados de continuidade.

“Quando eu, amanhã, tiver um AVC, um enfarte ou um acidente, vou querer entrar numa urgência que está desimpedida, cujos profissionais estão com tempo de resposta imediato para mim e quero ser atendido imediatamente”, exemplifica.

Rui Guimarães acredita que a medida irá, aos poucos, resultar numa melhor compreensão das potencialidades da medicina de proximidade, porque “é completamente diferente uma pessoa ir três ou quatro vezes ao seu médico de família com o mesmo problema, do que ir três ou quatro vezes à urgência e, por absurdo, poder ser vista sempre por médicos diferentes. O médico de família vê uma pessoa, o médico na urgência vê um sintoma”.

Um dos maiores impulsionadores do fim das falsas urgências admite ter o “sonho” de ter os centros de saúde como “porteiros do sistema” e de um dia o fenómeno estar ao contrário: os hospitais serem obrigados a “mendigar doentes” àquelas instituições.