Os 200 anos de Anne Brontë, nascida a 17 de janeiro de 1820, vão ser celebrados no Brontë Personage Museum com uma série de eventos, incluindo uma grande exposição, que inclui, entre outros objetos, a última carta da autora, que morreu de tuberculose em 1849, e uma cópia do seu em tempos infame segundo romance, The Tenant of Wildfell Hall. Esta é a primeira vez que o museu de Haworth, em Yorkshire, organiza uma mostra inteiramente dedicada A Anne, a mais nova das “três irmãs estranhas” e aquela que é mais vezes esquecida.

O nome da exposição, Amid the brave and strong (“Entre os bravos e corajosos”), é uma referência ao último poema conhecido de Anne. Ann Dinsdale, curadora principal do museu dedicado às irmãs Brontë, explicou por email ao Observador que o texto começou a ser escrito “em janeiro de 1849, menos de um mês antes da morte de Emily, quando Anne descobriu que também tinha desenvolvido a doença que tinha levado à morte da sua irmã”. A autora de O Monte dos Vendavais morreu a 19 de dezembro de 1819, menos de três meses depois de o irmão, Patrick Branwell, ter também sucumbido à tuberculose. Ao contrário de Emily Brontë, Anne fez tudo o que estava ao seu alcance para combater a doença, que na altura não tinha cura.

“A versão manuscrita do poema, que está exposto na exposição, confirma a forte fé de Anne, mas também expressa a sua angustia e a luta terrível para se resignar à vontade de Deus. O poema foi extensamente editado por Charlotte depois da morte de Anne, e reapresentado ao público como sendo uma calma aceitação do seu destino, uma perceção à qual claramente se queria agarrar. É esta imagem de Anne como alguém brando e sofredor que a exposição deseja desafiar”, afirmou Ann Dinsdale.

Depois das morte das irmãs, Charlotte tornou-se responsável pela publicação das suas obras, editando-as grandemente e, no caso de The Tenant of Wildfell Hall, ignorando-o totalmente. Na famosa nota biográfica que acompanhou a edição revista de 1850 de O Monte dos Vendavais e Agnes Grey, procurou ainda justificar os trabalhos das irmãs criando a imagem de Emily e Anne que achava mais adequada. Muitas das afirmações da autora de Jane Eyre, nomeadamente que Anne Brontë tinha uma natureza “sensível, reservada e depressiva”, perduraram no tempo e só muito recentemente é que começaram a ser questionados.

Procurando mostrar um pouco da “verdadeira” Anne, a exposição do Brontë Parsonage explora “diferentes elementos da vida” da escritora, “desde a sua infância à forma como o seu legado foi moldado por outros”, afirmou a curadora. Além da sua última carta, entre os objetos expostos contam-se outros manuscritos, desenhos, pinturas (todos os filhos do reverendo Patrick Brontë gostava de pintar) e o colar de coralina que Charlotte eternizou num dos seus retratos da irmã.

Num retrato que Charlotte fez de Anne, por volta de 1833, é possível ver o colar laranja, de coralina, um dos objetos que fazem parte desta exposição (Créditos: Simon Dewhurst)

A mais esquecida e a mais radical das três irmãs Brontë

Frisando que “esta é a primeira vez que uma exposição inteira é dedicada à mais nova das irmãs Brontë no Parsonage”, Ann Dinsdale adiantou que uma secção de Amid the brave and the strong “é dedicada à sua carreira como governanta e ao facto de ter conseguido sobreviver às dificuldades da profissão, mostrando uma maior força de espírito do que o seu irmão e irmãs, que chegaram a dar aulas em certo ponto das suas vidas.” Uma outra parte mostra “a forma como o trabalho de Anne tem sido edito e suprimido depois da sua morte e como uma reavaliação revela um carácter forte, extrovertido e complexo”.

Questionada sobre o porquê de o trabalho de Anne Brontë ter sido insistentemente desvalorizado e até mesmo esquecido em comparação com o das suas irmãs, a curadora do Brontë Parsonage começou por concordar que, “apesar de sempre ter tido os seus defensores”, Anne sempre foi vista como a escritora menos talentosa da família. “Muito daquilo que sabemos dela vem de Charlotte, que sempre esteve determinada em considerar Anne como o bebé da família. Na primeira grande biografia da família, The Life of Charlotte Bronte, de Elizabeth Gaskell, Anne é descrita como a ‘pequena gentil’.” A principal fonte de Gaskell foi precisamente a autora de Jane Eyre.

Tal como Emily, Anne deixou pouco material biográfico, sendo difícil reconstruir, a partir deste, o que foi a sua vida. Por causa disso, durante muito tempo, a única imagem que dela persistiu foi a criada por Charlotte — a de uma mulher “branda e delicada” —, “apesar de Anne ter produzido um romance poderosamente realista, The Tenant of Wildfell Hall, que chocou os críticos da altura e que provavelmente é o livro mais radical de todas as Brontë”.

Publicado no verão de 1848, Wildfell Hall conta a história de Helen Graham, uma jovem mulher que, contra os sábios conselhos da tia, decide casar com Arthur Huntingdon, um homem de escrúpulos duvidosos que quase arruinou a fortuna na família no jogo e na bebida. Temendo os efeitos que o convívio do marido controlador e manipulador pudesse ter no filho, o pequeno Arthur, Helen toma uma decisão drástica e radical — abandona Arthur e estabelece-se sozinha numa casa isolada que sustenta com os lucros do seu trabalho como pintora. Uma crítica às opções abertas às mulheres no século XIX, tema que Anne já tinha abordado no seu romance anterior, embora de maneira diferente, The Tenant of Wildfell Hall é hoje apontado como uma das primeiras obras feministas.

A exposição inclui uma cópia de The Tenant of Wildfell Hall que Anne ofereceu à amiga Ellen Nussey. O exemplar não pertence ao museu e está neste momento emprestado

Segundo Ann Dinsdale, “Charlotte não gostava do tema do livro, que lhe devia trazer penosas recordações dos problemas do irmão com o alcoolismo, e ficou chocada com a ideia de que a sua irmã gentil o tinha escrito. A desaprovação de Charlotte garantiu que o romance da irmã, apesar do seu sucesso comercial, não era reeditado depois da morte de Anne. Eventualmente foi editada uma versão barata. A edição original de 1848 do The Tenant foi publicado em três volumes, o formato padrão na altura, e para conseguir colocá-lo num volume só, o texto teve de ser cortado. Esta versão mutilada tornou-se a base para as edições subsequentes e provou-se prejudicial para a reputação literária de Anne Brontë”. Atualmente, a grande parte das edições reproduzem o texto original e o prefácio que Anne escreveu para a segunda edição.

Além da exposição, patente até 1 de janeiro de 2021, o Brontë Personage Museum irá organizar, ao longo deste ano, vários eventos, nomeadamente colóquios, para celebrar o bicentenário da escritor e “explorar vários aspetos da sua vida e legado”, disse ainda a curadora ao Observador. “Esperamos lançar uma luz sobre uma escritora muitas vezes esquecida e chamar a atenção para alguns dos aspetos ainda relevantes e sobre os quais ela escreveu há mais de 170 anos.”