A meio de março, a equipa de futebol do Wuhan, que vinha a Espanha apenas para fazer um estágio habitual de pré-temporada mas que acabou por permanecer mais de dois meses na Europa, viajou de novo para a China. Não foi para a sua cidade, rumando primeiro a Shenzhen, mas esse período final de preparação, mesmo cumprindo o período de quarentena decretado pelas autoridades nacionais, já estava mais próximo da normalidade. Uns dias depois, a 19 de março, chegou a notícia desejada: pela primeira vez em longas semanas, não foi registado qualquer caso positivo de Covid-19 em Wuhan e Hubei. Os números confirmaram depois a parte final da linha de descida da pandemia no país, registando-se no primeiro dia de abril apenas mais 36 novos casos.

O advogado de cinturão negro no karaté que esteve na guerra da independência da Eslovénia: Ceferin, o líder que decide o futebol na Europa

Numa primeira instância, o conjunto de Wuhan, que conta agora com o português Daniel Carriço (que continua agora em Portugal, à espera de visto para se juntar aos restantes companheiros), ficou em Espanha para fugir da pandemia do novo coronavírus; depois, antecipou o regresso à China para fugir dessa mesma pandemia. Se no futebol as equipas voltavam aos trabalhos, no basquetebol, por exemplo, havia até a ideia de regressar aos jogos ainda no mês de abril (à porta fechada ou não, essa era a dúvida). No entanto, tudo está adiado. E sem data: as autoridades chinesas proibiram o recomeço de atividades desportivas até novo aviso por forma a evitar qualquer ressurgimento da pandemia no país, numa altura em que algumas restrições começam a ser levantadas.

Esta é a realidade da China, país onde começou o surto que se tornou numa pandemia global e que, apesar dos valores residuais de casos novos, continua com receio de novo crescimento tendo em conta o que se passa não só na Europa mas também nos Estados Unidos. Por cá, é fácil fazer as contas quando o tema envolve o regresso do futebol nas principais ligas europeias – o difícil era encontrar fórmulas que permitissem terminar a época, mesmo com esse “bónus” do adiamento do Europeu para 2021 que deu um pouco mais de margem para soluções. E foi isso que a UEFA procurou fazer em mais uma reunião comandada pelo presidente do órgão, o eslovaco Aleksander Ceferin, que juntou os líderes das 55 federações nacionais através de videoconferência.

“O futebol mostrou o seu melhor lado com abertura, solidariedade e tolerância”: o anúncio oficial do adiamento do Euro

Numa entrevista ao jornal italiano La Repubblica publicada este fim de semana, Ceferin tinha colocado em cima da mesa as hipóteses existentes. “Ninguém sabe quando é que a pandemia vai terminar. Temos um plano A, B ou C, e estamos em contacto com as ligas. Temos um grupo de trabalho mas temos de esperar como todos os outros setores. A temporada pode recomeçar em meados de maio, em junho ou fim de junho. Existe até uma proposta para terminar a época no início da próxima, que começaria mais tarde. Agora, sem saber quando a pandemia vai terminar, não podemos ter um plano final”, referiu, entre o pedido para que não existam egoísmos em relação a possíveis cortes salariais e a desilusão pela falta de solidariedade entre países da União Europeia.

UEFA tem vários planos para retomar competições

No final do encontro, onde Portugal esteve representado por Tiago Craveiro, CEO da Federação Portuguesa de Futebol, saíram várias decisões sobre diferentes competições mas com uma ideia principal, transversal a vários órgãos internacionais que tentaram ir acompanhando a reunião: a prioridade da UEFA passa por encontrar datas para concluir as ligas nacionais e as provas europeias, Liga dos Campeões e Liga Europa, mesmo que, no limite, esse momento possa ultrapassar a “barreira” que existia anteriormente de 30 de julho.

As decisões da UEFA: Europeu em 2021 e grupo para estudar calendários (sendo que já se fala de novas datas para a Champions)

Assim, e como explicam por exemplo a Marca e o As, a UEFA trabalha em dois cenários possíveis: recomeçar a competição no início de junho ou voltar apenas a jogar no final de junho/início de julho, o que poderia levar então os encontros relativos a 2019/20 até agosto. Aliás, esta última versão parece ser aquela mais pragmática tendo em conta as atuais previsões, uma versão que levará depois a novas rondas negociais para resolver outros problemas como o dos jogadores que terminam contrato a 30 de junho e teriam de prolongar de forma excecional o seu vínculo para acabarem a temporada. Em paralelo, existe também a possibilidade de se voltar a jogar numa primeira fase à porta fechada, evitando grandes aglomerados de pessoas.

Em comunicado oficial, a UEFA anunciou uma série de decisões já tomadas, que incluem não só clubes mas também, ou principalmente, seleções, nomeadamente alguns torneios dos escalões de formação:

  • Todos os jogos das seleções nacionais masculinas e femininas, que seriam disputados em junho de 2020, são adiados até novo aviso, incluindo o playoff de apuramento para o Campeonato da Europa masculino de 2020 e os jogos de qualificação para o Campeonato da Europa feminino de 2021;
  • Todos os outros jogos das competições da UEFA, incluindo os jogos particulares internacionais (que deveriam ocorrer em junho), permanecem adiados até novo aviso;
  • A nível de camadas jovens das seleções: a fase final do Europeu Sub-17 masculino (maio de 2020) foi cancelado; a fase final do Europeu Sub-19 feminino (julho de 2020) foi cancelado; a fase final do Europeu Sub-17 feminino (maio de 2020) é adiado até novo aviso – neste caso adiado e não cancelado porque apura para o Mundial de Sub-17; a fase final do Europeu Sub-19 masculino (julho de 2020) é adiado até novo aviso – neste caso adiado e não cancelado porque apura para o Mundial de Sub-20;
  • As finais da Liga dos Campeões de futsal (abril de 2020) foram adiadas até novo aviso;
  • Os prazos relacionados com todas as competições de clubes da UEFA em 2020/21 foram adiados até novo aviso, em especial no que se refere ao processo de admissão e registo de jogadores.

Em paralelo, o Comité Executivo da UEFA “reiterou o seu total compromisso com o licenciamento de clubes e do Fair Play Financeiro, concordando que as atuais circunstâncias excecionais requerem algumas intervenções específicas para facilitar o trabalho das associações e clubes membros”. Ao mesmo tempo, ficou aprovada uma extensão do prazo para licenciamento de clubes “até que o processo de admissão nas competições de clubes da próxima temporada da UEFA seja redefinido”, bem como “as disposições de licenciamento de clubes relacionadas à preparação e avaliação das futuras informações financeiras dos clubes”.