A biomatemática Gabriela Gomes considerou esta quinta-feira imprudente a reabertura, ainda que parcial, das escolas no início de maio, encerradas desde 16 de março devido à pandemia da Covid-19, por subsistirem riscos de infeção para alunos, professores e respetivas famílias.

Em declarações à Lusa, a investigadora da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido, sustentou que “não será prudente reabrir as escolas” em 4 de maio, data que chegou a ser apontada como hipótese na semana passada pelo primeiro-ministro, António Costa, para o ensino secundário.

Esta quinta-feira, no final do Conselho de Ministros, António Costa admitiu aos jornalistas, sem avançar com datas, que as aulas nas escolas podem vir a ser retomadas no início de maio para os alunos dos 11.º e 12.º anos do ensino secundário se estiverem reunidas as condições de segurança, dependendo como evoluir a doença.

O chefe do Governo, que disse não estar em condições para “fixar uma data com caráter indicativo”, justificou a abertura parcial das escolas com a necessidade de os estudantes em causa poderem realizar os exames nacionais em 22 disciplinas, essencial para acederem ao ensino superior.

O calendário dos exames foi estendido para julho (primeira fase) e setembro (segunda fase), com as aulas presenciais a poderem prolongar-se até 26 de junho. Para os restantes alunos, incluindo os do 10.º ano do secundário e os do ensino básico, as aulas manter-se-ão à distância até ao final do ano letivo, não havendo para estes últimos provas de aferição nem exames nacionais no 9.º ano.

Segundo a biomatemática Gabriela Gomes, os modelos matemáticos em que trabalha, caso se confirmem, “projetam que, pelo início de maio, estejam a ser detetadas algumas dezenas de casos diários” de infeção por Covid-19 em Portugal.

Números análogos àqueles que víamos quando foi decretado o fecho das escolas em meados de março”, afirmou.

Para a investigadora, que aplica a matemática ao estudo das epidemias, “a ideia de reabrir” apenas parcialmente as escolas “seria boa”, uma vez que “o risco de induzir novo crescimento exponencial” de casos de infeção “seria baixo”. Contudo, tal medida poderá, a seu ver, aumentar o “risco de infeção para alunos e professores, bem como respetivas famílias”.

Gabriela Gomes defende que o distanciamento social “deveria ser mantido até se verificarem poucas unidades de casos” de infeção “a nível nacional”, uma situação “comparável à do início de março”, quando foi confirmada a doença respiratória aguda em Portugal.

Apesar da ressalva, a investigadora entende que “será importante” que as medidas restritivas para conter a propagação da pandemia, como o confinamento social generalizado, “sejam levantadas de modo progressivo”.

Para termos tempo de resposta a eventuais indícios de reversão da tendência da curva” epidemiológica, justificou, realçando, no entanto, que, enquanto não houver suficiente imunidade na população, a chamada imunidade de grupo, contra o coronavírus da Covid-19, “a taxa de novos casos voltará a aumentar” sempre que forem levantadas “as medidas de contenção”. “A certa altura, teremos que apertar novamente as medidas”, sublinhou.

De acordo com os seus cálculos, “sujeitos às mesmas incertezas que afetam todos os estudos” sobre a evolução da pandemia, Portugal terá agora “um pouco mais de 2% da população imune” e precisa de 10% para atingir a imunidade de grupo.

Os testes serológicos, para detetar no sangue anticorpos específicos contra o coronavírus da Covid-19 e saber se, à partida, uma pessoa está protegida, ainda que não se saiba por quanto tempo, poderão, na ótica de Gabriela Gomes, “ser uma importante ferramenta na monitorização da imunidade”.

O presidente do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, Fernando Almeida, avançou esta quinta-feira que Portugal começará, no final de abril ou na primeira semana de maio, com estes testes, numa fase piloto, abrangendo cerca de 1.700 pessoas. O dirigente do laboratório nacional de referência esclareceu que ainda não é momento para o país começar a fazer testes imunológicos em massa, secundando declarações anteriores da diretora-geral da Saúde, Graça Freitas.

Vários laboratórios científicos estão a desenvolver estes testes, esperando tê-los validado no final de abril ou início de maio.

Portugal, em estado de emergência até 17 de abril, com várias medidas de contenção como o confinamento social generalizado, regista 409 mortes e 13.956 casos de infeções confirmadas, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde.

Das pessoas infetadas, 1.173 estão internadas, 241 das quais em unidades de cuidados intensivos, havendo 205 doentes que já recuperaram desde que a Covid-19, declarada como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde, foi diagnosticada em Portugal, em 2 de março.