O encerramento quase total das atividades económicas e o confinamento social não são a melhor forma de gerir a propagação do novo coronavírus, porque não permitem a criação de imunidade a um ritmo controlado, protegendo os sistemas de saúde e salvando mais vidas. O alerta é de epidemiologistas de Harvard, que têm uma proposta bem diferente: a melhor estratégia é alternar períodos de distanciamento social com outros em que as pessoas estão autorizadas a mover-se em sociedade, quase como em tempos normais – uma espécie de distanciamento social “on” e “off.

A proposta passa por um padrão de períodos em que se pede distanciamento social – na linha do que vários países estão a fazer – mas alternados, por algumas semanas de cada vez, com períodos em que as pessoas podem ir trabalhar, as crianças podem ir à escola e as atividades de lazer podem realizar-se. Os epidemiologistas alertam que a estratégia do lockdown completo, à espera que a curva de infeções abrande não contribui para que se crie imunidade de grupo, de uma forma mais controlada, e, portanto, segundas e terceiras vagas são inevitáveis.

Vários países optaram inicialmente pela estratégia da criação de imunidade de grupo mas acabaram por mudar o rumo: exemplo mais clássico foi o Reino Unido. O governo de Boris Johnson passou do 8 para o 80 e agora o slogan é Fique em casa, salve vidas. Mas, para a equipa de investigadores liderada por Yonatan Grad e Marc Lipsitch, da escola de saúde pública T.H. Chan, de Harvard (EUA), nem o 8 nem o 80 estão corretos. A aplicação de medidas de contenção de forma “intermitente” é, defendem, a melhor estratégia a longo prazo para a gestão do vírus e “para salvaguardar aquilo que é o mais importante – evitar que os sistemas de saúde e as unidades de cuidados intensivos entrem em colapso”, sublinham os investigadores.

Segundo o estudo, as autoridades públicas devem, à escala de cada país, definir patamares de propagação em que se “reabria” a vida normal quando a taxa de novos casos baixava a um dado nível e se voltava a pedir distanciamento social quando os números voltaram a subir. Exatamente onde é que estariam esses patamares caberia a cada país definir, podendo subdividir as suas jurisdições em zonas geográficas e complementar a estratégia com medidas específicas para proteger os grupos de risco – mas os lockdowns “cegos”, embora possam produzir resultados rápidos, não serão eficazes a longo prazo, sublinham.

O estudo acautela que é preciso perceber se este novo coronavírus tende a ser um vírus mais sazonal, como a gripe comum ou as constipações (que também podem ser causadas por coronavírus “antigos”), ou se tende a propagar-se ao longo de todo o ano. Esse dado fará grande diferença na forma como os cálculos se devem fazer e como é que essa “intermitência” das medidas de confinamento deve ser calibrada. Levando em consideração a incerteza em relação à sazonalidade, os investigadores defendem que a melhor “dose” de distanciamento social estará algures entre 25% e 75% do tempo.

À medida que o tempo passa e a população ganha imunidade, dizem os investigadores, a tendência será para que os períodos de distanciamento social seriam cada vez mais curtos e espaçados no tempo, com intervalos cada vez maiores entre cada momento de maior contenção da vida em sociedade. Enquanto não chega uma vacina ou tratamentos mais eficazes para a generalidade dos doentes, esta é a melhor estratégia, sublinham os investigadores de Harvard.

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