Poderia ser uma filme de ficção científica ou uma experiência de realidade alternativa, se vista de fora, tais não são os ingredientes que tornam a Nicaruágua um país à parte em época de paralisação de boa parte do mundo devido à Covid-19.

Enquanto os campeonatos de futebol pararam em praticamente todo o mundo, salvo exceções como a liga da Bielorrússia, na Nicaruágua os jogos da primeira divisão continuam a disputar-se. Enquanto a larga maioria dos Governos decreta o confinamento e a distância social, na Nicarágua o regime parece querer ignorar o novo coronavírus. E enquanto por todo o mundo os chefes de Estado vão-se dividindo entre aparições públicas e declarações transmitidas por vídeo, na Nicarágua ninguém vê o Presidente há mais de um mês.

Um Chefe de Estado visto pela última vez a 12 de março

Os relatos sobre o modo como o país está a lidar com a pandemia que já infetou mais de dois milhões de pessoas e já matou mais de 125 mil em todo o mundo são dados por jornais como o espanhol El Mundo e estações como a norte-americana CNN.

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@ INTI OCON/AFP via Getty Images

Um dos ingredientes mais inusitados na atual situação política, social e sanitária na Nicarágua é o paradeiro desconhecido do Presidente, Daniel Ortega, de 74 anos. Ortega exerce o cargo de Chefe de Estado ininterruptamente há 13 anos, desde 2007, mas já soma quase 25 anos como Presidente da Nicarágua, dado que antes ocupara o cargo entre 1979 e 1990.

A 21 de fevereiro, há quase dois meses, foi visto pela última vez nas ruas, numa “parada militar” no país, conta a CNN. Há pouco mais de um mês, a 12 de março, participou numa conferência em vídeo com outros chefes de Estado da região da América central. Desde aí, nunca mais apareceu: nem em vídeo, nem em fotografias, nem em conferências de imprensa.

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Um dos traços muito particulares do regime de Daniel Ortega, que no passado já foi acusado de “assassínios, execuções extrajudiciais, maus tratos, possíveis atos de tortura e detenções arbitrárias” por entidades como a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos e o conselho da ONU para os Direitos Humanos (as acusações foram refutadas), é o facto de a vicepresidência ser assegurada pela primeira dama, Rosario Murillo.

A vicepresidente do país é “conhecida pelas suas veleidades esotéricas” e pelos discursos que se assemelham “a sermões”, escreve o jornal El Mundo. Alegadamente concertada com o Presidente, Rosario Murillo garante que Daniel Ortega está “a trabalhar, a dirigir e coordenar todos os esforços” para lidar com a pandemia — mas, na verdade, ninguém sabe onde está — o que, dado o seu historial clínico de problemas de saúde no passado (já foi, por exemplo, operado ao coração em Cuba), levanta preocupações.

O El Mundo faz mesmo uma relação entre o Ortegismo e o Chavismo e Castrismo, dado que também na Venezuela de Hugo Chávez e na Cuba de Fidel Castro, em diferentes momentos, a informação disponibilizada sobre a condição dos líderes políticos foi pouca, mereceu ceticismo da oposição e acabou por se revelar pouco fidedigna. Citado pelo jornal espanhol, o diretor do Observatório dos Diretos Humanos para o continente americano, José Miguel Vivanco, não arriscou prognósticos quanto ao paradeiro ou estado do presidente da Nicarágua, mas deixou críticas: “A irresponsabilidade de Ortega põe em cheque a saúde e a vida dos cidadãos da Nicarágua”.

O Presirdente da Nicarágua, Daniel Ortega, que a população não vê há mais de um mês (@ INTI OCON/AFP via Getty Images)

Escolas abertas, lojas abertas, fronteiras abertas e gente nas ruas

A forma como o país está a lidar com a propagação da pandemia merece as maiores dúvidas de especialistas internacionais. Desde logo porque os números divulgados pelas autoridades de saúde e pelo Governo, que apontam para apenas nove casos de infeção confirmada, uma morte e nenhum caso de transmissão local do vírus — “graças infinitas a Deus” —, são questionados por peritos. E depois porque o confinamento, adotado por muitos cidadãos da Nicarágua que temem o contágio, não é medida recomendada de forma generalizada e muito menos foi decretada pelo regime.

Como explica a CNN, “virtualmente nada” foi feito para parar a propagação do contágio. “As escolas continuam abertas, as lojas continuam abertas, as fronteiras continuam abertas” — e o governo “não impôs quaisquer regras para fomentar o distanciamento social”.

No último fim-de-semana, foi especialmente notório que o regime está a governar em contramão com outros países vizinhos. No sábado, realizou-se, tal como de costume, uma procissão, que até teve a oposição da Igreja Católica, que recomenda o confinamento do país. Além disso, refere o El Mundo, realizou-se ainda “um festival de concertos” ao ar livre e outras atividades nas ruas, tendo ainda havido aglomeração de pessoas num mercado na capital do país, Managua.

Procissão na Nicarágua, na passada sexta-feira, 10 de abril (@ INTI OCON/AFP via Getty Images)

O Governo do país terá até criminalizado o uso de máscaras faciais de proteção: segundo o El Mundo, aqueles que as usam estão agora a ser classificados como “golpistas” e “terroristas”.

Carissa F. Etienne, diretora da Organização Mundial de Saúde para a Região Americana, é uma das peritas que se mostra crítica da gestão que o país está a fazer da pandemia. “Temos preocupações relativamente aos testes, ao rastreamento de contactos [dos infetados] e ao registo oficial de casos. Também estamos preocupados com o que vemos como uma prevenção e controlo inadequadas da infeção”, apontou, citada pela CNN. As preocupações foram manifestadas “tanto informalmente como formalmente” junto das autoridades da Nicaruágua, apontou Carissa F. Etienne — mas, até ver, a resposta à pandemia no país não se alterou.