O Managua ganhou o Torneo Apertura após vencer o Real Estelí no segundo jogo da final com um golo de Lucas dos Santos aos 118 minutos do prolongamento, o Real Estelí conquistou o Torneo Clausura depois de derrotar o Managua pelos golos marcados fora na final a duas mãos com o Managua. Na madrugada desta quinta-feira em Portugal, as duas equipas, que lideram agora a classificação do Clausura mas que já estiveram mais uma vez em confronto na final do Apertura (triunfo do Real Estelí no prolongamento do segundo jogo, com golo de Ricardo Rivas), não foram além de uma igualdade (1-1). Pablo Gallego, de livre, colocou o Managua em vantagem aos 20′, Castillo fez o empate nos descontos da primeira parte (45+2′). Ambos permanecem no topo da Liga, agora com uma vantagem menor em relação ao Diriangén, que venceu em casa o Walter Ferretti (2-1).

Este era o texto que ninguém esperava escrever em Portugal no início de abril. Um abril que teria jornadas quase decisivas nos Campeonatos nacionais, um abril que teria eliminatórias de topo nas provas europeias. Mas este é o texto da única liga no continente americano ainda no ativo, numa rara exceção mundial que tem na Bielorrússia o caso mais mediático mas que tem outros ainda mais raros casos como Burundi ou Turcomenistão, um país onde a própria palavra coronavírus foi proibida e onde se marcam manifestações pelo amor e contra a Covid-19.

Na Nicarágua, ao contrário do que se poderia pensar, o desporto número 1 e que move mais pessoas é o beisebol. Só a seguir vem o futebol, ao mesmo nível do boxe. Por estes dias, seja pela interrupção de todas as provas, seja pela presença nos boletins de apostas, seja pelas decisões nada unânimes que vão sendo tomadas numa perspetiva desportiva no país, ganhou holofotes que nunca imaginou ter num país que conta nesta fase com apenas cinco casos confirmados de Covid-19, os dois primeiros de pessoas que vieram do Panamá e da Colômbia, e uma morte, de um homem com vários problemas associados. Mas nem tudo são boas notícias, longe disso.

Começando logo pelo beisebol, que ainda há poucos dias teve um jogo grande que encerrou a primeira fase do Campeonato entre os Brumas de Jinotega e os Indios del Bóer com casa cheia no Estádio Moisés Palacios Escorcia (ao contrário do futebol, que apesar de tudo joga à porta fechada), Robbin Zeledón tornou-se notícia pelas piores razões: percebendo o perigo que a pandemia poderia trazer, o segundo melhor batedor da liga, com apenas 21 anos, pediu aos responsáveis do Brumas para não jogar. Resultado? Foi punido com um ano de castigo sem vencimento, com a Comissão Nicaraguense de Beisebol a considerar que se tratava de um “abandono” e que, como tal, entrava na alçada do Regulamento de Ética e Disciplina. “Que grande coragem teve este miúdo a pensar na sua família. Neste contexto, é um exemplo a seguir. O trabalho e o dinheiro são secundários quando são vidas que estão em jogo”, comentou o ex-jogador Dennis Martínez, citado pelo Infobae.

Depois da obrigatoriedade por parte do governo nacional liderado por Daniel Ortega para que as atividades desportivas não fossem interrompidas por ser uma medida desnecessária, numa visão que coloca desportos como o beisebol como uma espécie de “diversão do povo” que nem que seja para passar apenas na TV não pode parar, Zeledón foi suspenso e ficou sem o seu vencimento mensal de 6.500 córdobas (174 euros, próximo do salário mínimo). Agora começou uma nova parte da prova, com participação de 13 municípios entre denúncias de multas de 550 euros para os clubes que se recusarem a jogar (que se estendem a todos). No boxe, também todas as provas nacionais e regionais não sofreram alterações, incluindo os torneios dos mais novos. E no futebol?

“Bem, a Nicarágua conseguiu atrair a atenção de muita gente de diferentes países que normalmente não olham para a nossa liga. A repercussão do coronavírus acabou por ser boa para liga, as pessoas agora estão interessadas e vieram conhecer mais sobre a Liga da Nicarágua”, comentou Carlos Félix, avançado do Juventus Managua, em declarações à BeIn Sports. “Claro que sinto que existe agora muito mais atenção à nossa liga mas o que mais interessa é mesmo que o vírus não se propague aqui na Nicarágua, o futebol deve vir depois”, acrescentou Pablo Gallégo, também jogador do Juventus Managua, numa visão transversal… de forma mais ou menos aberta.

Ainda assim, houve uma coisa que mudou: apesar de haver dezenas e dezenas de pessoas que se tentam amontoar em telhados, colinas e árvores em redor dos estádios, os encontros têm sido realizados à porta fechada. “É um sentimento estranho. Acredito que o futebol é um espetáculo e, enquanto espetáculo, deve ter espetadores. É muito complicado porque quando temos os adeptos há uma motivação extra. Como eles dizem aqui, o futebol é um psicólogo, faz com que sejamos capazes de esquecer tudo o que está à volta”, destacou Félix. “Ainda há poucos casos confirmados mas sei que muitas pessoas estão com problemas e também consta que o governo estará a esconder informação. Cerca de 20% das pessoas estão a ficar em casa mas a maioria faz uma vida igual à que fazia, anda na rua às horas que quer, tudo de forma normal”, completou Fernando Insaurralde, também ele avançado do Juventus Managua, em declarações para o ABC Color de Assunção, do Paraguai.

Pablo Gallegó, único espanhol a jogar no país (no Managua FC) após passagens por Grécia e Albânia, não tem dúvidas: “Se te confinas na Nicarágua, morres de fome”. “As pessoas vivem o seu dia a dia porque há muitos postos de trabalho independentes. Se deixas de trabalhar, deixas da faturar”, comentou ao El Español. “Estou feliz por jogar aqui mas ao mesmo tempo estou muito preocupado com o que se passa em Espanha com o coronavírus. Até agora não há problemas por aqui, o governo fechou locais com grandes aglomerações apesar de não ter chegado ao Estado de Emergência. Pararam todas as categorias menos a Primeira Divisão”, frisou.

Não são muitos os jogadores a falar, até porque os jornalistas deixaram também de ir aos estádios e existem até meios de comunicação que estão suspensos, mas nem todos têm uma postura politicamente correta e, mesmo não abundando, há casos onde se coloca o dedo numa ferida evidente. “É incrível que ainda se continue a jogar. No meu caso, deixei de ir para o treino no autocarro e vou sempre no meu carro porque os autocarros vão cheios e é um risco. Há mais casos mas devem ter sido ocultados, talvez para não criar nenhum alarme. O vírus vai chegar aqui e temos medo disso, por tudo o que vemos no resto do mundo”, salientou Leandro Figueroa, do Walter Ferretti, ao La Nación, onde falou de chantagens aos atletas de serem despedidos se não jogarem.

“Os clubes mais importantes daqui, os que lutam sempre pelo título, são quatro: Diriangén, Estelí, Ferreti e Managua. O Estelí é o que paga melhor, os outros pagam menos. O futebol dá um nível de vida médio, normal. O custo de vida é barato, não é caro a comparar com a Argentina”, contou. Ou seja, os jogadores de futebol não têm propriamente os salários que a maioria dos jogadores têm nas ligas profissionais europeias, por exemplo, mas o papel que assumem, sobretudo agora, é o de verdadeiras estrelas. E nem mesmo as manifestações de algumas equipas como o Diriangén, que pousou para a fotografia antes do penúltimo encontro mantendo a distância entre jogadores e com máscaras e luvas, alterou o que quer que seja no país em relação ao futebol.