O embaixador José Cutileiro morreu este domingo em Bruxelas, onde vivia e estava hospitalizado, confirmou a sua mulher à Agência Lusa. Tinha 85 anos.

Também escritor e cronista, Cutileiro ficou conhecido por ter presidido à Conferência de Paz para a ex-Jugoslávia, em 1992 e por ter sido secretário-geral da União da Europa Ocidental (UEO) em 1994 — uma aliança militar europeia para a qual Portugal entrou em 1990, sendo Cutileiro um dos diplomatas que negociou os termos da adesão do nosso país. Esses foram os dois pontos altos de uma longa carreira diplomática.

Entrevista de vida ao embaixador José Cutileiro: “Cantei o hino para um casal de amantes em Cabul”

Irmão do escultor João Cutileiro, nasceu a 20 de novembro de 1934 em Évora e fez a sua vida de diplomata em pontos do planeta tão distantes como Cabul, Joanesburgo e Bruxelas.

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O pai, médico, republicano e laico, enfrentou problemas políticos com o regime salazarista e optou por sair do país para integrar a Organização Mundial de Saúde (OMS), levando mulher e filhos, então adolescentes, a viver na Suíça, na Índia ou no Afeganistão, onde em 1952 foram os primeiros cidadãos portugueses, de que há registo, a viver no Afeganistão.  Cutileiro tinha então 17 anos.

De volta a Lisboa, José Cutileiro inicia o curso de Arquitetura, depois de Medicina, mas acaba por abandonar os estudos e mudar-se para Inglaterra, onde se licencia em Antropologia Social pela Universidade de Oxford — a universidade que o “ensinou a pensar”.

É neste país que faz o doutoramento e leciona na London School of Economics (1971-1974), até que, com a revolução do 25 de abril, é convidado por Mário Soares a entrar para a carreira diplomática, tendo começado por ser adido cultural da embaixada de Portugal em Londres.

A missão de paz na ex-Jugoslávia

Os anos 80 e 90 foram particularmente marcantes para a carreira de Cutileiro, tendo participação relevante na diplomacia do país. Em 1987, volta a Lisboa para assumir a direção-geral de Negócios Político-Económicos, negociando nessa qualidade a adesão de Portugal à UEO em 1990 — uma organização internacional e aliança militar criada em 1955 e que foi dissolvida em 2011. Cutileiro foi secretário-geral da UEO entre 1994-1999.

Em 1992, foi ainda o coordenador da conferência de paz para a ex-Jugoslávia, durante a presidência portuguesa da CEE, tendo sido enviado para a Sérvia e para a Bósnia e Herzegovina.

Entre esses cargos internacionais, José Cutileiro foi igualmente embaixador de Portugal em Pretória, na África do Sul, num momento que coincidiu com a libertação de Nelson Mandela. Exerceu o mesmo cargo em Maputo (Moçambique) e Estrasburgo (Conselho da Europa).

Depois da sua experiência como mediador do conflito entre os países que nasceram dos escombros da ex-Jugoslávia, Cutileiro tornou-se um especialista na região dos Balcãs, tendo sido nomeado, em 2001, Representante Especial da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas para a Bósnia-Herzegovina e República Federal da Jugoslávia.

Ao longo dos anos, foi chamado a participar como conselheiro em presidências portuguesas da União Europeia (UE) e, em 2005, foi conselheiro político especial de José Manuel Durão Barroso enquanto presidente da Comissão Europeia.

Marcelo: “José Cutileiro foi um magnífico diplomata”

Marcelo de Sousa já reagiu à morte de José Cutileiro, descrevendo-o como um “magnífico diplomata”, mas também “um homem da cultura”. À RTP, o Presidente da República acrescentou que Cutileiro era “muito inteligente, escrevia muitíssimo bem e que era capaz de contar a sua vida e a vida dos outros e analisá-las de forma, por vezes impiedosa, mas lúcida e inteligente”.

José Cutileiro escreveu ensaios, livros de poesia e outras obras de cariz antropológica, sendo o “Inventário: Desabafos e Divagações de Um Cético” a sua publicação mais recente.

José Cutileiro: cronista atento, menino travesso, sábio experiente

No Twitter, diferentes figuras políticas lamentaram a morte do diplomata. Para o Ministério dos Negócios Estrangeiros “foi sempre um excecional servidor das causas dos interesses de Portugal”.

“Foi das mentes mais brilhantes dos nossos tempos”, escreveu na mesma rede social João Cravinho. Para o ministro da Defesa, Cutileiro tinha uma imensa “generosidade intelectual” e um “maravilhoso sentido de humor” com que preencheu cada uma das suas crónicas.

Durão Barroso não deixou de evidenciar o momento em que ambos estiveram presentes no centro da União Europeia, em Bruxelas, onde puderam aproximar-se: “Com grande pesar soube da morte de José Cutileiro, notável diplomata e intelectual com quem aprofundei amizade durante dez anos em que foi meu conselheiro especial na Comissão Europeia”, escreveu o antigo presidente da Comissão Europeia.

Primeiro-ministro destaca o “brilhante” diplomata, patriota e homem do mundo

O primeiro-ministro considerou José Cutileiro um “brilhante” diplomata, caracterizando-o como “um patriota e um homem do mundo”.

“Era um patriota e um homem do mundo. Foi um brilhante diplomata, antropólogo, cronista e escritor, tendo aliado a ação ao pensamento sobre política externa, na defesa da paz, da liberdade e da democracia. Transmito à família as minhas condolências”, escreveu António Costa no Twitter.

Na mesma mensagem, o primeiro-ministro defendeu que José Cutileiro ajudou os cidadãos “a compreender, com grande lucidez, o movimento da História e o papel de Portugal”. “Viveu de perto as transformações das últimas décadas no desempenho de importantes funções em nome de Portugal e em cargos internacionais”, acrescentou António Costa.

Jorge Sampaio: José Cutileiro era “pessoa de exceção” e “brilhantíssimo servidor da causa pública”

O ex-Presidente Jorge Sampaio lamentou o “grande vazio” deixado pela morte de José Cutileiro, afirmando ter sempre admirado a “pessoa de excepção”, que descreve, numa mensagem enviada à Lusa, como “brilhantíssimo servidor da causa pública”.

“Apesar da proximidade que o tratamento por tu cria entre as pessoas — e era o nosso caso -, sempre tive pelo Zé Cutileiro um enorme respeito e admiração pela pessoa de exceção que sempre mostrou ser, de par com uma amizade certa e que a vida de cada um de nós manteve intacta”, lê-se na mensagem do ex-Presidente da República. “O seu desaparecimento deixa um vazio grande e a saudade antecipada das suas crónicas, das suas palavras, dos sinais da sua presença entre nós.”

Jorge Sampaio evocou a proximidade com o embaixador, forjada por terem ambos “pouco mais ou menos a mesma idade” e se conhecerem “de longuíssima data devido a laços familiares”, ambos filhos de médicos, que “eram amigos e mantinham alguma proximidade”. “O José Cutileiro teve um percurso intelectual extremamente original, aliando uma formação científica e humanística que o definia de forma muito particular, com uma imensa cultura, grande independência de análise e juízo, um apurado sentido de humor e uma exigência de rigor que estava presente em tudo o que fazia ou dizia.”, afirmou.

Sampaio atribui a essas qualidades a decisão de Mário Soares de o encorajar “a abraçar a diplomacia”, “na certeza de que esta e Portugal sairiam enriquecidos com o contributo de Cutileiro, uma intuição que não poderia ter sido mais certeira, como, de resto, viria a demonstrar a sua longa e muito relevante carreira”.

“José Cutileiro foi um brilhantíssimo servidor da causa pública, tendo revelado altas qualidades de negociador em momentos importantes para a afirmação externa do país”, afirma, evocando funções assumidas pelo embaixador na organização da Conferência para a Paz para a Jugoslávia e na liderança a União para a Europa Ocidental.

O ex-Presidente da República afirmou ainda dever pessoalmente a Cutileiro tê-lo indicado, na qualidade de embaixador de Portugal junto do Conselho da Europa, nos anos 1970, para representar Portugal na Comissão Europeia Direitos Humanos daquela organização, “cargo de que muito me orgulho e que exerci com especial gosto”.

Artigo atualizado às 18h50 com a reação do ex-Presidente Jorge Sampaio