Muitos números, um alerta e uma quase promessa. Assim ficou marcada a audição regimental da ministra da Saúde que esta quarta-feira, na Assembleia da República, acabou a fazer um balanço dos últimos meses da pandemia. Entre o copo meio cheio e o meio vazio, Marta Temido anunciou que em quatro meses, o reforço de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde custou 100 milhões de euros aos cofres de Estado. E foram esses mesmos valores que levaram a governante a deixar uma quase promessa no ar — “não está posta de lado” a hipótese de estes reforços serem integrados de forma definitiva no SNS.

Por outro lado, a ministra da Saúde mostrou-se “muito preocupada” com os atos médicos que ficaram por fazer. Entre consultas em hospitais e centros de saúde, foram mais de 1,3 milhões que não se realizaram. Ainda olhando para dentro dos hospitais, revelou que 3.259 profissionais de saúde foram contagiados com o SARS-CoV-2, embora frisando que a maioria o tenha sido em contexto familiar ou social. Mais tarde, numa resposta a um deputado do PSD, ficou o alerta: “Poderemos ter de enfrentar um reconfinamento” e para evitá-lo o “mais importante são as respostas individuais”.

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Logo na intervenção inicial, Marta Temido começou por enunciar valores para mostrar que o pior da pandemia já passou. “A incidência máxima foi em março, os internamentos em abril e o número máximo de doentes em cuidados intensivos, de 271, foi também em abril”, sublinhou. O R, disse, chegou a atingir os 2,32, ou seja, cada infetado contagiou, em média, mais do que duas pessoas.

Têm sido tempos de grande exigência para todos os sistemas de saúde e para o português em especial”, disse a ministra, acrescentando que o SNS “teve uma das mais duras provas da sua existência”.

Em relação à linha de Saúde 24, Temido disse que esta passou de “52 mil chamadas recebidas num dia” no pico da pandemia, altura em que só conseguia atender 12% do total e com tempos de espera de 25 minutos, para um atendimento de 98% das chamadas e com tempos de espera de 28 segundos.

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A ministra anunciou ainda que 36 hospitais públicos, que não enumerou, já deram início ao plano de recuperação da atividade não programada, suspensa desde 16 de março — já foram reagendadas 30% das cirurgias programadas e 40% das consultas, revelou.

130 milhões de euros em testes

Respondendo a uma pergunta do deputado do PSD Álvaro Almeida — que estimou custos adicionais de 150 a 200 milhões de euros por mês no SNS durante a pandemia, o que representará um acréscimo de 2 mil milhões ao ano — Marta Temido lembrou que apesar de o orçamento inicial da saúde não ter incorporado o custo relacionamento com o combate à Covid-19, “era um orçamento reforçado com mais 940 milhões de euros”. E esse valor, acrescentou, “tem de ser bem utilizado”.

Sobres os custos relacionados com a pandemia, a ministra da Saúde revelou que os valores disponíveis são ainda provisórios, mas avançou que “101 milhões de euros estão previstos” para custos com recursos humanos durante quatro meses. Estes contratos de trabalho poderão ser prorrogados até 30 de setembro e eventualmente transformar-se em definitivos. Marta Temido reafirmou assim, o já dissera em resposta à deputada do PS, Hortense Martins: a “permanência definitiva” destes 2.628 trabalhadores, entre os quais estão 855 enfermeiros, no SNS “não está afastada”.

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Já depois da intervenção do bloquista Moisés Ferreira, Marta Temido sublinhou que as primeiras pessoas com que contará no esforço de luta contra a pandemia serão os profissionais de saúde. Para estes, disse que estão a ser estudadas formas de valorização do seu trabalho: “Isso implica remunerações que premeiem o desempenho e é nessa linha que vamos desenvolver o nosso trabalho.”

Ainda sobre investimento, a titular da pasta da Saúde apontou que já foram gastos 130 milhões de euros em testes.

Consultas por fazer, camas por comprar

A ideia de um reconfinamento foi levantada por Ricardo Baptista Leite. Lembrando que com “a união, o país venceu o pior”, o deputado do PSD quis saber se o SNS estará preparado, perguntando pelo número de camas de cuidados intensivos. E lembrou uma frase da Guerra dos Tronos, a série de televisão norte-americana baseada na série de livros de George R. R. Martin: “Winter is coming.

A resposta de Marta Temido foi curta: o país não foi fechado por falta de preparação. “Poderemos ter de enfrentar um reconfinamento e se acontecer, por motivos de saúde pública, cá estaremos para lidar com ele”, disse, garantindo que da parte do Governo tudo será feito para o evitar.

Sobre as camas de cuidados intensivos, a ministra recusou a ideia de que tenha sido anunciada a existência de mais de mil como afirmou o deputado — esse número, 1.142, referia-se a ventiladores, que não são uma correspondência direta a número de camas. “Os ventiladores são equipamentos. As camas de cuidados intensivos são equipamento mais complexo, que envolve o leito, mas também os recursos humanos”, explica.

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Quanto a números, diz que há muito que Portugal precisa de uma resposta neste campo e que há vários anos que está abaixo da média europeia, sendo esse o objetivo a atingir. Portugal, diz Marta Temido, passou de 4,2 camas por 100 mil habitantes para 5,66 e, mais tarde, em abril de 2020 chegou às 7,39. “O objetivo é atingir a média de 11,5 camas por cem mil habitantes”, e, para isso, “precisamos de mais de 300 camas de nível 3, quase 400”.

Já sobre os doentes que ficaram por atender no SNS, o esclarecimento veio depois de uma pergunta de Ana Rita Bessa, deputada do CDS. “Estou muito preocupada com os números”, disse Marta Temido, não escondendo que são negros.

Frisando que não pode dizer em concreto quantas consultas ficaram por realizar, a ministra diz que o que pode mostrar é a relação dos números com o período homólogo. Assim, até abril, não foram realizadas 840 mil consultas médicas e 940 consultas de enfermagem nos centros de saúde.

Já nos hospitais, diz Marta Temido, ficaram por fazer 540 mil consultas de especialidade e 41 mil cirurgias. O número de atendimentos nas urgências hospitalares também contou com menos 400 mil episódios. Contas feitas, em hospitais e centros de saúde foram mais de 1,3 milhões de consultas que ficaram por fazer.

Houve ainda cerca de 2.500 tratamentos oncológicos que não se realizaram.

3.259 profissionais de saúde já foram infetados

Até à última terça-feira, 20 de maio, 3.259 profissionais de saúde foram infetados pelo novo coronavírus. Destes, 480 são médicos, 1.069 enfermeiros, 896 assistentes operacionais e 105 técnicos de diagnóstico e terapêutica, entre outros. O número foi avançado tanto pela ministra da Saúde como pelo seu secretário de Estado, António Sales, que sublinhou que 1.071 estão curados.

Os dados anunciados durante a audição regimental da ministra Marta Temido mostram um ligeiro acréscimo em relação aos revelados a 13 de maio: nessa altura havia 3.183 profissionais de saúde infetados (477 médicos, 838 enfermeiros, 774 assistentes operacionais, 152 assistentes técnicos e 107 técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica). No total, 658 estavam já recuperados.

Já Marta Temido afirmou que muitos dos contágios aconteceram em contexto social ou domiciliário, o que bate certo com o alerta lançado pela Organização Mundial de Saúde.

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Na semana passada, a 11 de maio, a epidemologista Maria Van Kerkhove anunciou que em alguns países, 10% (ou mais) dos casos de infeção pelo novo coronavírus afetam profissionais de saúde, e que, em diversos casos, as infeções de médicos e enfermeiros aconteceram fora dos hospitais.

“Muitos destes profissionais de saúde tiveram contacto com casos positivos dentro da própria família”, explicou Van Kerkhove. “Muitos foram infetados fora de estabelecimentos de saúde.” Nos hospitais, continuou a epidemologista, as infeções aconteceram essencialmente em enfermarias que não estão equipadas para lidar com a Covid-19 ou porque os profissionais de saúde passaram muito tempo em zonas dedicadas a tratar doentes da pandemia, usando equipamento de proteção inadequado.