A vigília para assinalar em Macau o movimento democrático chinês que resultou no massacre de Tiananmen foi proibida pela polícia de Macau, que justificou a decisão com o risco pandémico, disse esta quarta-feira fonte oficial à Lusa.

A concentração de pessoas pode potenciar risco de contágios com a Covid-19, num momento em que se mantêm as medidas para conter a pandemia, segundo o Corpo de Polícia de Segurança Pública de Macau.

A decisão teve como base as orientações dos Serviços de Saúde de Macau face à grave epidemia”, para se “evitar concentrações de pessoas”, de forma a garantir que não existe o risco “de se transmitir a doença tão facilmente”, indicou a mesma fonte.

Num momento em que “o governo de Macau apela à não concentração de pessoas” a CPSP “não autorizou a reunião”, acrescentou.

Os membros que integram a organização do evento que se realiza todos os anos no território reúnem-se esta quarta-feira à noite para discutir a decisão da CPSP, indicou à Lusa um dos elementos. Em causa está uma vigília sobre eventos que ocorreram há quase 31 anos, conhecido como o ‘massacre de Tiananmen’, um acontecimento que até hoje Pequim continua sem reconhecer.

A decisão da CPSP surge depois de ter sido cancelada uma exposição sobre o mesmo tema por parte do Instituto para os Assuntos Municipais, também pela primeira vez e com a mesma justificação.

Vários deputados pró-democracia com assento na Assembleia Legislativa (AL) afirmaram na quinta-feira que o cancelamento da “Exposição Fotográfica do Movimento de Democratização de 1989” foi uma decisão política e um ataque à liberdade de expressão. Um dos deputados, Au Kam San, e um dos organizadores da exposição, criticou então as justificações dadas, classificando-as de “absurdas”. Já o mais jovem deputado na AL, Sulu Sou, disse que a decisão teve por base razões políticas com o objetivo de “atacar a liberdade de expressão com meios administrativos”.

Versões contestadas por vários deputados nomeados pelo chefe do Executivo: Lao Chi Ngai disse que a exposição representa uma violação da lei básica e do princípio “Um país, Dois Sistemas”, enquanto Wu Chou Kit afirmou que “liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não é um valor absoluto, tem limites”.

A maioria dos argumentos a favor da decisão do cancelamento tiveram por base, precisamente, a prevenção da Covid-19 em Macau, que está há 41 dias sem registar qualquer novo caso.

Atualmente, não tem qualquer caso ativo, as escolas reiniciaram as aulas, mas o território mantém restrições nas fronteiras e medidas de prevenção que incluem a obrigatoriedade de uma quarentena de 14 dias no território e o encerramento de alguns espaços públicos.

Uma justificação que o deputado pró-democracia Ng Kuok Cheong, também um dos organizadores da exposição, refutou, salientando que, “como neste tipo de exposições não há concentração de pessoas, não se prejudica a prevenção”.

Em 1989, em Pequim, o exército chinês avançou com tanques para dispersar protestos pacíficos liderados por estudantes, causando um número de mortos nunca oficialmente assumido. Algumas estimativas apontam para milhares de mortos.

Macau e Hong Kong são os dois únicos locais da China onde Tiananmen pode ser publicamente recordado, realizando-se anualmente nas duas cidades vigílias para lembrar as vítimas de 04 de junho.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de Covid-19 já provocou mais de 320 mil mortos e infetou quase 4,9 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

Para combater a pandemia, os governos mandaram para casa 4,5 mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), paralisando setores inteiros da economia mundial, num “grande confinamento” que vários países já começaram a aliviar face à diminuição dos novos contágios.