O tom da retórica na política espanhola está mais duro do que nunca, a avaliar pelo que aconteceu no Congresso dos Deputados esta quarta-feira, com o líder do Unidas Podemos (extrema-esquerda) e vice-presidente do governo espanhol, Pablo Iglésias, e uma deputada do Partido Popular (PP, centro-direita), Caetana Álvarez de Toledo, a protagonizarem um dos debates mais quentes dos últimos tempos, com insultos de “marquesa” e “filho de terrorista”.

Caetana Álvarez de Toledo, que foi cabeça-de-lista pelo PP em Barcelona nas últimas eleições legislativas, pediu uma intervenção urgente para falar a propósito dos acordos políticos feitos pelo governo espanhol com os partidos independentistas (como é o caso da Esquerda Catalã), e acabou a acusar diretamente Pablo Iglésias. Segundo o La Vanguardia, a intervenção de Álvarez de Toledo incluiu termos como “impostor”, “mentiroso”, “amigo de terroristas” — quer da ETA, quer do Irão —, “discípulo de Hugo Chávez”, “burro de Tróia da democracia” e “inimigo de Espanha”.

Na resposta, Iglésias considerou que “é melhor ser burro de Tróia do que marquesa”. De seguida, argumentou que o seu patriotismo está na defesa dos serviços públicos e na proteção dos mais vulneráveis, ao contrário daqueles que usam “pulseiras com a bandeirazinha”, mas depois “fogem aos impostos”. Ao longo de toda a intervenção, Iglésias tratou Álvarez de Toledo repetidamente pelo seu título nobiliárquico de “marquesa”.

O repique da deputada do PP, atualmente liderado por Pablo Casado, foi dos mais duros possíveis. Começando por dizer que os filhos não têm culpa dos atos dos pais, acabou por afirmar o seguinte: “O senhor é filho de um terrorista, pertence a essa aristocracia, a do crime político”, afirmou, citada pelo El País.

A acusação tem por base o facto de Pablo Iglésias ser filho de Javier Iglésias, que foi militante das FRAP (Frente Revolucionária Antifascista e Patriótica) durante o franquismo. Estas brigadas populares acabaram por cometer atos terroristas entre 1973 e 1975, mas Iglésias pai estava preso por distribuir propaganda das FRAP em 1973, quando o Grupo começou a levar a cabo assassinatos políticos.

Por essa razão, a presidente do Congresso, Meritxell Batet, pediu para que fosse retirada da ata da sessão aquela acusação, o que provocou fortes protestos junto da bancada dos populares.

Após a sessão no parlamento, Iglésias voltou à carga no Twitter: “Hoje a marquesa Cayetana Álvarez de Toledo cometeu um delito no Congresso ao chamar terrorista ao meu pai. Os seus privilégios aristocráticos fazem com que se ache impune. Hermann Tertsch já foi condenado pela mesma coisa. Incitarei o meu pai a que exerça as ações correspondentes”.

O líder do partido de extrema-esquerda referia-se à ação interposta em tribunal conta o jornalista Hermann Tertsch, que foi obrigado a indemnizar Iglésias pai em 15 mil euros, por o ter acusado de ser cúmplice do primeiro ataque das FRAP, embora estivesse na prisão.

Álvarez de Toledo também não se ficou no Twitter. Com um link para a página da Wikipédia das FRAP e anexando uma nota biográfica de Pablo Iglésias, destacou a parte onde o líder do Unidas Podemos afirma ser “filho de um militante das FRAP”.